quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Fatores que formam nosso “eu”

Maurílio Nogueira da Silva*

. Genética – Trazemos a carga genética dos nossos pais, avós etc., determinando nosso corpo e nosso temperamento. Podemos controlar, reprimir, recalcar e, em casos raros, sublimar as influências genéticas, mas elas continuam a exercer papel fundamental na formação do nosso “eu”;

. Meio ambiente – Ao lado da genética, o meio onde somos gerados
(o útero da mãe) e o meio onde nascemos e vivemos nos fazem tranquilos ou estressados, indignados ou resignados, lutadores ou acomodados;

. Alimentação – A alimentação é, sem dúvida, responsável pela construção e manutenção do nosso corpo, exercendo grande influência na formação do nosso “eu”.

. Espaço onde nascemos e vivemos – Meio urbano ou rural, cidade grande ou pequena, centro ou periferia, tudo isso, entra na construção do nosso “eu”;

. Inteligência e cuidados – Crescemos, desenvolvemos e atuamos mediados pela inteligência e pelos cuidados que tomamos ou não ao nos relacionarmos com nossos semelhantes e com o mundo. Temos livre arbítrio para fazermos nossas escolhas e elas vão determinando nosso “eu”.

. Trabalho e Educação - O trabalho e a educação têm um papel fundamental na formação do nosso “eu”, tornando-nos mais cultos ou ignorantes, finos ou brutos, sensíveis ou insensíveis, sociáveis ou insociáveis, egoístas ou altruistas, cooperadores ou competidores;



. Crenças políticas e religiosas – Essas crenças formam nossa
consciência moral e ética e nossa conduta durante a vida.

. Poder aquisitivo/dinheiro – Este é também um fator importante para a
construção do nosso “eu” e nosso comportamento.


. Somos seres que agem, pensam, sentem , sonham e se relacionam,
Daí que a Educação deve abranger todas essas dimensões.

. Somos seres trimembrados, ou seja, que têm um corpo, uma alma e um espírito ou o “Eu”. O corpo precisa da alma para se tornar um corpo vivo ou animado. Mas a alma, por si, não dirige o corpo. É o espírito que orienta o corpo vivo para atingir seus objetivos.
E é a Educação que desenvolve o espírito ou o Eu do indivíduo.

. Somos seres que produzem instrumentos – Produzir algo implica em idealizar, planejar e só o ser humano idealiza, planeja, antecipa na mente o que irá fazer. Pelo que se sabe, os animais chegam a utilizar instrumentos para lidar com a realidade, mas não os produzem.

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* Prof. de Psicologia da Educação da UFJF
E.mail:nmaurilio@yahoo.com.br

domingo, 13 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

“O Homem é criado à imagem e semelhança de Deus?”

Como estudioso do ser humano, ando refletindo, cada vez com mais independência, sobre ensinamentos religiosos, que quase todos nós trazemos em nossa formação e influenciam nossa educação e nossa vida. Aprendemos que Deus é espírito puro, inteligência pura, amor puro, poder puro, beleza pura, perfeição pura, liberdade pura. O filósofo Aristóteles disse que “Deus é ato puro, não tem nenhuma potência a atualizar, senão seria imperfeito e não seria Deus. Sendo assim, Deus não tem imagem ou forma que se possa ver ou perceber pelos nossos órgãos dos sentidos. Deus é Amor. É para ser sentido com o coração e não conhecido pela razão, como diz Leonardo Boff. Sua existência não depende, portanto, de crença, mas de experiência pessoal ou íntima, assim como a poesia não é uma questão de crença, ela está no mundo potencialmente e se concretiza em nossas experiências ou vivências íntimas ou do coração. Quando perguntado se acredita em Deus, Rubem Alves afirma que “a questão não é se, mas como acredito em Deus”. Ele diz que sente Deus na beleza. Há vários jeitos de sentir Deus. Penso que a rigor, não há ateu. Todo homem sente Deus de diferentes modos e com intensidades diferentes, por mais que queira negá-lo. A vida humana sem nenhuma experiência que transcenda a realidade material é para mim impensável.
Assim, dizer que o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus não quer dizer imagem física nem semelhança física. Significa dizer que o homem herda as propriedades de Deus: o espírito, a inteligência, a capacidade de amar, de ter poder, de ser sábio, de ser belo, de se aperfeiçoar sempre e de ser livre. Quando a criança nasce ela vem ao mundo em estado de total ignorânciaou como uma folha em branco?
Nesta questão, considero o seguinte: Deus não criou o mundo literalmente. Penso que o sentido do verbo criar vai além do de fazer surgir o que não existia. Há uma poesia que diz “eu nasci no dia em que a conheci”. Isso não quer dizer, evidentemente, que o indivíduo não existia antes, mas que ele nasceu de novo ou começou a existir de outro jeito depois que encontrou seu grande amor. Há que se penetrar na linguagem poética. Assim, entendo hoje que Deus, como espírito, não cria nada, não cria cada ser, não cria formas materiais. Ele cria a vida e com sua presença modifica o mundo ou faz renascer de outro jeito o que já existe. O mundo fica melhor se permeado por Deus ou pelo Amor. A esta crença de que “Deus está em tudo” Leonardo Boff chama “panenteísmo”, que é diferente de “panteísmo”, ou seja, a crença segundo a qual “tudo é Deus”. Todos os atributos de Deus – exceto o da eternidade, pois só Ele é eterno ou incriado - estão presentes, potencialmente, nos minerais, nos vegetais, no animais e no homem e se manifestam diferentemente em cada um destes reinos, conforme as leis da evolução.
Assim, tendo hoje a aceitar a tese de que quando uma criança começa ser feita no útero da mãe, sua existência não inicia neste momento, ela apenas está adquirindo ali um novo corpo, no qual habitará por mais um tempo. Sua vida, que é dom de Deus, inicia-se muito antes, tendo habitado outros corpos onde ela vai acumulando atributos: conhecimentos, experiências, dons, caráter etc. Nascer é, na verdade, renascer, reencarnar, retornar a um corpo biológico. Desse modo, a criança não chega ao mundo “zerada” ou como uma “folha em branco”. Ela traz, no inconsciente, o acúmulo de todo o processo da evolução e as experiências de vidas humanas passadas. Um grande cientista ou artista de hoje não é criado com estes dons por Deus ou pela genética. Eles chegaram a ser grandes pelo trabalho feito em diversas vidas e isso continua acontecendo a todos nós. Somos como uma pedra preciosa, que saí da natureza na forma bruta – mas com potencialidades de evoluirmos sempre. Pelo trabalho, esta pedra vai sendo lapidada continuamente. O grande educador Paulo Freire tem uma frase muito repetida onde ele fala da eterna incompletude do ser humano.
Sendo assim, temos que reformular nossa crença de que recebemos de graça determinados dons ou talentos. Penso que a parábola bíblica sobre os talentos quer nos ensinar que recebemos de Deus o dom da vida e germens ou sementes de talentos, mas se não plantarmos e cuidarmos deles, eles não nascerão e não se desenvolverão. Quem tem no bolso uma semente de uma planta, não tem uma planta. Só a terá se plantar e cuidar da semente. Tudo é construído por nosso trabalho ou nossas atividades, entrelaçadas com as atividades ou com o trabalho atual e passado de toda a humanidade. Nossa vida é uma sucessão de atividades que estão sempre inseridas no movimento de todo o universo. Somos parte do todo e não um átomo isolado.
As conclusões acima coincidem com o que diz o psicólogo russo Aléxis Leontiev, que venho estudando há anos. Diz ele:
“O ser humano ao nascer possui apenas uma única aptidão que, fundamentalmente, o distingue dos seus antepassados animais: a aptidão para adquirir as aptidões especificamente humanas. São os objetos – que conservam em si os resultados das atividades das gerações passadas – que transmitem ao pequeno ser – na sua atividade - as aptidões do gênero humano”.
Maurílio Nogueira da Silva,
Pedagogo, Mestre em Psicologia Educacional,UFJF.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br


. Escrevi outros dois textos que tem a ver com o tema acima: “O Homem com um ser feito de Barro e de Sopro” e “O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem” Quem se interessar, solicite que terei o prazer em compartilhá-los.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

*O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem


** Maurilio Nogueira da Silva

“ Tanto a ciência da Natureza, como a Filosofia, descuidaram inteiramente, até agora, de investigar a influência da Atividade Humana sobre o Pensamento. Ambas só consideram a Natureza de um lado e o Pensamento do outro Mas é precisamente a modificação da Natureza pelos homens ( e não a Natureza como tal) o que constitui a base mais imediata do pensamento humano. É à medida em que o homem foi aprendendo a transformar a Natureza que sua Inteligência foi se desenvolvendo” ( Engels, l876 ).

Com esse pequeno texto pretendemos contribuir para as reflexões sobre a importância do Trabalho na vida do Homem, entendendo que ele é mais do que a fonte de toda a riqueza, podendo ser considerado, em certo sentido, como o Criador do Homem, o que lhe confere a hominização.

O primeiro passo do animal ao homem – segundo Engels - deve-se, inicialmente, ao surgimento da mão com funções distintas das dos pés, quando os antepassados do homem atingiram a postura ereta e liberaram as mãos para realizar outras atividades. Embora os macacos tenham chegado a usar as mãos para recolher alimentos e tenham atingindo a postura semi-ereta, é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, criada e aperfeiçoada pelo trabalho durante centena de milhares de anos. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra por mais tosco que fosse.

Ao ficarem livres de serem pés, as mãos adquiriram mais destreza e habilidade e esta maior flexibilidade transmitiu-se por herança de geração em geração. Por isso, pode-se dizer que a mão não é apenas um órgão do trabalho; é também produto dele. Assim, ao se desenvolver, a mão do homem atingiu, pelo trabalho, o grau de perfeição atual e continua a se aperfeiçoar, tornando-se capaz de realizar as obras de arte que hoje nos emocionam.

A partir daí, o aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta, desencadearam mudanças em todo o seu o organismo e no seu psiquismo, permitindo-lhe realizar trabalhos cada vez mais complexos.

Com o desenvolvimento do trabalho desenvolveu-se o cérebro humano, que supera o cérebro do macaco mais desenvolvido. E, à medida que se desenvolvia o cérebro humano, desenvolviam-se, também, seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos.
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· O texto acima destina-se aos meus alunos da disciplina Trabalho e Educação na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ele foi inspirado num artigo (inacabado) de Friedrich Engels: Humanização do Macaco pelo Trabalho, produzido em l876 e publicado na obra Dialética da Natureza, Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

** Mestre em Educação pela UNICAMP, Campinas, SP
Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora,MG.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
O trabalho criou também os órgãos responsáveis pela fala., dando origem à linguagem humana.

Assim, o trabalho é responsável pelo desenvolvimento do cérebro, dos órgãos dos sentidos e da linguagem, da capacidade de abstração e de discernimento, da consciência, das formas de comunicação humanas., enfim do Homem.

No princípio, atividade do homem limitava-se à busca da sobrevivência imediata, começando pela colheita de alimentos e outras operações simples. Essas atividades, segundo os estudiosos de hoje, não podem ser denominadas trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa realmente com a produção de instrumentos. Os animais chegam a utilizar instrumentos, mas não são capazes de produzi-los ou modificá-los.

Ao começar a produzir e utilizar, conscientemente, os instrumentos de trabalho, inicialmente de caça, pesca e armas de ataque e defesa, o homem passou a sofrer modificações profundas em seu corpo, sua mente e seu modo de vida. Passou da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, incluindo-se a carne. A partir daí, sua alimentação passou a oferecer ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. O hábito de combinar a carne com outros alimentos de origem vegetal contribuiu para dar ao homem mais força física. Mas onde a influência da alimentação com a carne mais se manifestou foi no seu cérebro, que recebeu assim uma quantidade muito maior do que antes de proteínas. ( Hoje se sabe que ela pode ser obtida da soja e outros vegetais).

O crescente consumo da carne na alimentação teve papel importante na descoberta e o uso do fogo e no surgimento da atividade de domesticação de animais. O primeiro reduziu o processo de digestão, permitindo levar a comida à boca já meio digerida. O segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte de obtê-la de forma mais regular. Apareceu, assim, o trabalho de domesticação de animais para aumentar e facilitar o acesso à carne, ao leite e seus derivados.

Depois de haver aprendido a produzir alimento, não se limitando a comer o que encontrava pronto, o homem aprendeu também a produzir suas condições de vida, não se restringindo às que encontrava prontas. De animal que se adapta à natureza, o homem passou a transformar o meio, ajustando-o às suas necessidades. Diante das variações climáticas, o homem foi se preparando, cobrindo o corpo, fazendo habitações, surgindo, assim, novas esferas de trabalho e com elas novas atividades que foram o afastando cada vez mais de seus antepassados animais.

Sempre, graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, propondo-se a alcançar objetivos cada vez mais variados. À caça e à pesca vieram se juntar a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a olaria, o trabalho com metais, a navegação e assim por diante. Aparecem depois os ofícios, o comércio, as artes e as ciências.

Esse desenvolvimento, que começou na antiguidade pelo trabalho, foi separando o homem do animal e não cessou com o passar dos tempos. Ele continua num grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido às vezes por retrocessos de caráter local e temporário, mas sempre avançando, com suas contradições e impulsionado e orientado em determinado sentido por um novo elemento que surge com o apareciment o da vida e em sociedade. De seres que viviam gregariamente ou em grupos, mas sem ter consciência disso, os homens passaram a viver, conscientemente, em sociedade.

Ao se tornar cada vez mais uma atividade social, o trabalho foi criando as instituições sociais. Das tribos sairam as nações e os estados. A partir daí foram surgindo o direito, a política, as religiões, que passaram regulamentar a vida em sociedade.

Essas criações no campo das idéias iriginam-se, portanto, das necessidades de organizar a produção material e a vida social como um todo. Posteriormente e por razões ideológicas, é que as idéias passaram a ser consideradas um produto do trabalho do cérebro isolado do trabalho prático e a ele se sobrepondo, como muitas pessoas ainda hoje acreditam. O trabalho do cérebro de alguns homens, agora planejava e obrigava as mãos de outros a realizar as tarefas práticas. E os homens foram passando a achar isso natural, respaldados por ideologias conservadoras que se serviam de argumentos genéticos, filosóficos e religiosos para justificar a separação entre o trabalho teórico ou do cérebro e o trabalho prático ou das mãos.

O desenvolvimento da sociedade passou a ser atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento da atividade do cérebro. Os homens foram sendo levados a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar explicar seus pensamentos pelos seus atose formas concretas de vida. Foi assim que surgiu a concepção idealista do mundo, que passou a dominar, sobretudo, a partir do desaparecimento do mundo antigo e ainda continua a dominar até hoje. Mesmo os materialistas tradicionais e os evolucionistas darwinianos foram influenciados por essa concepção idealista do mundo, com suas idéias de que a matéria ou a natureza, em si mesma, era a criadora do homem, não percebendo que era a atividade do homem sobre a natureza e não a natureza como tal a responsável pela passagem do animal ao homem. Esse evolucionismo linear ou vulgar não explica o aparecimento do homem.

Outro aspecto importante a se considerar aqui é que quanto mais os homens foram se se afastando dos animais, mais seu trabalho foi adquirindo um caráter de uma ação intencional e planejada, buscando alcançar objetivos dos mais variados não presentes nas atividades dos animais.

A ações intencionais, em germe, estão presente nos animais. Segundo observou Engels, elas estão presentes já no protoplasma – a albumina viva por exemplo– quando ela realiza determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz n na célula nervosa e mesmo quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas carnívoras se apoderam de sua presa aparece também, de certo modo, como um ato planejado, embora se realize de modo instintivo e inconsciente. Nos animais superiores as ações intencionais apresentam níveis cada vez mais complexos ou elevados.

Nos animais domesticados, que sofrem transformações pela convivência com o homem, podem ser observados atos de astúcia equiparados aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual ou intelectual da criança representa uma réplica, ainda que mais abreviada do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos.

No entanto, nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pode fazê-lo. O Homem modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, segundo um plano intencional e sua atividade tem para ele um caráter social Aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, a diferença que, mais uma vez, resulta do Trabalho.

Para lidar com a natureza de modo planificado, homem teve que procurar aprender suas leis e conhecer tanto os efeitos imediatos quanto os efeitos remotos de sua intromissão no curso natural de seu desenvolvimento.

Só que o homem não existe fora da sociedade onde predomina um modo de produção que determina a maneira como os homens devem trabalhar, relacionar entre si e com a natureza. É no interior de determinado modo de produção que surge o trabalho da Educação, visando preparar as gerações do futuro.

Todos os modos de produção que existiram até hoje, infelizmente, enfatizam apenas o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e imediata. Não educam as pessoas para perceberam as consequências futuras, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal.

Posteriormente, todas as formas seguintes de produção mais modernas conduziram à divisão da população em grupos e, mais tarde, em classes econômica e politicamente distintas, criando o antagonismo entre a classe dominante e a classe dominada. Em conseqüência, os interesses da classe dominante converteram-se mais decisivamente no elemento propulsor da produção e da educação. Isso encontra sua expressão mais acentuada no modo de produção capitalista. Os capitalistas, que dominam a produção e a troca, ocupam-se, cada vez mais, da utilidade mais imediata dos seus atos, como observamos hoje. Mais ainda, mesmo essa utilidade – porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada – passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

Por tudo isso, temos que superar o modelo de sociedade atual, com seu espírito utilitarista e imediatista, gerando todo de tipo de problemas nas relações dos homens entre si e destes com a natureza.

Essa superação do Capitalismo por uma nova ordem social mais equilibrada é uma condição indispensável – mesmo que não suficiente – para fazer com que o Trabalho e a Educação possa criar as condições para o desenvolvimento harmônico do ser humano.

Hoje, apesar dos contratempos, podemos notar em todo o mundo avanços na direção de uma crítica cada vez mais consistente, à sociedade capitalista, seguida de renovadas esperanças de construção de uma nova ordem social. Crescem as lutas dos setores progressistas: partidos identificados com as causas dos trabalhadores e oprimidos em geral, sindicatos, associações, segmentos avançados de igrejas, organizações ligadas às lutas pela reforma agrária, pela preservação do meio ambiente e por um desenvolvimento sustentável, bem como outros tantos movimentos liderados por educadores, cientistas, artistas e intelectuais em geral que lutam pela emancipação humana. Essas atividades, que se desenvolvem em todo o mundo, têm um caráter eminentemente político-educativo. Elas desempenham papel fundamental para a superação dessa sociedade desumana e a criação de um mundo verdadeiramente humano, onde o trabalho possa retomar seu papel educativo, deixando de ser um fator de exploração e a alienação e passando a ser uma atividade que produz riqueza material e espiritual para todos e seja, e fato, uma atividade que desenvolve o homem em todas as suas dimensões.


BIBLIOGRAFIA

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29. SILVA, Maurilio. O Papel do Trabalho e da Escola no Processo de Produção da
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Goiânia, l986).

30 _______. O Desenvolvimento das Relações Sociais e a Importância do Trabalho na Vida
do Homem ( Palestra feita para trabalhadores da EMATER-MG, em l987).

31. _______. Desemprego e Desumanização no Capitalismo ( Texto apresentado em Mesa
Redonda sobre Neoliberalismo, Globalização e Desemprego, promovida pelo NEETEC, na
UFJF, em l999).

32._________. O Empreendedorismo em questão.( Palestra apresentada na cidade de Três
Rios-RJ, em l999).
O Homem como um Ser feito de “Barro e de Sopro”

** Maurílio Nogueira da Silva

“O homem é feito de barro e de sopro”(Bíblia Sagrada)
“A natureza não se aventurou a criar homens.“O homem é síntese
de múltiplas determinações” (Karl Marx).

Com este pequeno texto pretendemos fazer algumas reflexões sobre as duas citações acima, que tratam da criação do homem, por considerar que elas têm um interessante ponto em comum, no sentido de dizerem que o homem não é apenas um animal mais desenvolvido, como afirmam os materialistas ou evolucionistas mais afoitos, que têm uma visão reducionista do homem. Para a Bíblia, assim como para Marx, o Homem transcende sua natureza animal.

Quanto à frase bíblica segundo a qual o homem é feito de “sopro” e não apenas de “barro”, nossa interpretação é que o “sopro” quer dizer vida e esta não é feita pela natureza. O desenvolvimento da matéria ou da natureza, por si só, não produz a vida, pelo que se sabe. A alma (anima do latim) ou a vida não vem da matéria ou da natureza. Podemos dizer que ela pré-existe ao corpo material como uma planta ou um projeto de uma casa preexiste à casa. Sendo assim, podemos afirmar que na gestação o indivíduo recebe de Deus a “planta ou o projeto do seu ser”, que vai se materializando na genética, na convivência na barriga da mãe e depois nas relações ele que vai tendo com as pessoas e com o mundo. Assim se desenvolve o “eu” do indivíduo, tornando-o um ser único, irrepetível e que transcende seu corpo material.

Sobre a frase do filósofo Karl Marx, dizendo que “a natureza não se aventurou a criar homens e que este é síntese de múltiplas determinações”, parece-me confirmar, de certo modo, a afirmação bíblica acima, segundo a qual o homem vem de uma base inicial que é natureza, mas necessita de algo que vem de fora – ou que não vem da natureza – para se hominizar. Talvez se possa entender que esse elemento que vem de fora sejam as atividades educativas às quais ele se submete desde criança. É nas suas atividades com outros seres humanos que o indivíduo passa a se diferenciar dos demais seres vivos, desenvolve sua natureza humana, constroi seu “eu”, sua consciência e auto-consciência. Os animais também se desenvolvem ou são também educáveis, mas, ao que se sabe, não atingem o pensamento reflexivo, a consciência e muito menos a auto-consciência ou consciência de si. Não têm um “eu” único e irrepetível, como o ser humano. ( Não estou aqui fazendo um juízo moral ou afirmando os animais são inferiores ao homem. Apenas estou dizendo que eles não têm pensamento reflexivo, segundo o que se sabe deles. É verdade que muitas vezes nós homens, com todo nosso potencial, sentimos vergonha dos animais pela maneira como nos comportamos).

Para um melhor entendimento do que estamos afirmando, julgamos necessário explicitar um pouco mais os conceitos de corpo, alma e espírito.

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(*) Este texto tem um formato didático e destina-se estudiosos de filosofia, antropologia, psicologia,
religião e outras áreas afins. Essa é uma versão de set de 2009.
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** Mestre em Psicologia Educacional, UNICAMP, l986.
Professor da Universidade Federal Juiz de Fora- MG - E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br

O corpo é a matéria densa – a natureza, ou o “barro” - do qual é feito o mundo físico. Essa base material, inicialmente inanimada, é a primeira forma de existência do mundo e de tudo que nele habita.

A alma – ou “anima”(do latim)– significa vida e esta se constitui numa nova forma de existência da matéria ( denominada matéria animada). Não há uma explicação científica, pelo menos ainda, para o surgimento da alma, anima ou vida. Segundo os religiosos, a vida vem de Deus. Há ainda muitas lacunas nas explicações darwinianas sobre a origem da vida.

O espírito pode ser concebido como uma alma mais desenvolvida qualitativamente, que permite a construção do “eu” de cada indivíduo, que torna possível sua consciência e auto-consciência. É o espírito que permite ao indivíduo reconhecer a si, transcender sua natureza animal, tornando-o um ser que é parte da natureza, mas, ao mesmo tempo, dela se distancia; um ser que é parte da sociedade humana , mas que tem uma individualidade que o torna único e irrepetível. Por isso, diga-se de passagem, não há possibilidade de se clonar um ser humano. O que se pode fazer é tão somente um corpo semelhante a outro geneticamente, mas não um ser humano igual a outro. Não há possibilidade de se fazer clonagem do espírito, pois isso significaria clonar todas as experiências vividas pelo indivíduo em sua vida, o que é absolutamente impossível .

Em nossa opinião, a maioria das pessoas – e até religiosos e teólogos - toma como sinônimos os conceitos de “alma” e “espírito”. Quase sempre ouvimos referência à alma quando se deveria dizer espírito. É comum ouvirmos dizer que uma pessoa é uma “alma boa”, quando na verdade se deveria dizer “um espírito bom”. A alma é simplesmente a vida e não cabe atribuir a ela qualidades ou juízos de valor. Ou se está vivo ou não se está. Já o espírito tem qualidades. Talvez, por isso, diz a Bíblia que “o que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito”. E que “ o homem tem que nascer de novo”. Dizendo de outro modo, a natureza faz a base física do indivíduo, mas é a sociedade, a cultura onde ele vive, que desenvolve sua hominização, sua individualidade, sua subjetividade ou, em outras palavras, seu espírito, que ele herda de Deus na forma de um projeto ou de uma planta. Mas ele terá que realizar esse projeto em sua vida, juntamente com as pessoas que o cercam.

Comparando o homem com um carro, podemos dizer que seu corpo é a parte física do carro. A alma é o combustível que permite o carro se movimentar - mas não o dirige. O espírito é o motorista do carro, que o dirige, utilizando seu cérebro, os órgãos dos sentidos e os órgãos motores, segundo um treinamento,uma orientação ou educação recebida. O motorista é o que conduz o carro para o destino estabelecido, determina a velocidade e o trajeto a ser percorrido. E sabe o que está fazendo. Sem a interligação feita de carro, combustível e motorista não há viagem. Do mesmo modo, sem a interligação do corpo, com a alma e o espírito não há ser humano.

A concepção do espírito como “motorista” do homem está, de certo modo, presente na filosofia clássica, que se inicia com Aristóteles e Platão e tem em Goethe um dos principais expoentes. Ela parte do princípio de que existe nos seres vivos humanos um corpo vital ou “corpo etérico”, que funciona como modelador ou plasmador do corpo material a partir de suas necessidades.

Platão afirmou que “há três níveis da alma que receberam três moradas diferentes e cada um deles tem seus movimento próprios. O primeiro é a “alma epitimética”, a parte mortal, que apenas recebe influências de fora – e tem a ver com a sensação, o prazer, o desejo. Esta parte está relacionada ao baixo ventre (região metabólica-locomotora) e está intimamente ligada ao corpo, sendo responsável pelos seus movimentos. O segundo nível é a “alma timocrática”. Esta é também mortal, mas recebe impulsos da parte mais nobre do homem - e tem a ver com a coragem, o sentimento, o senso de dever e com o intelecto trivial ou terreno. O terceiro nível da alma é superior e imortal e tem a ver os conhecimentos e a sabedoria humana. Sua função é dirigir os demais níveis.

Esse terceiro nível de” alma imortal” , concebido por Platão, penso que significa o espírito ou o “eu” do indivíduo.– o que dá direção aos movimentos que a alma imprime ao corpo humano. Quando o espírito ou o “eu” do indivíduo vai mal a alma fica sem direção e o corpo sofre as consequências. É o que diz, por exemplo, a medicina antroposófica, que hoje vem ganhando espaço. Segundo ela a origem das doenças está no mal funcionamento do espírito ou do “eu” quando ele não administra bem ou não dirige satisfatoriamente a alma ou a energia que flui pelo corpo do indivíduo, vitalizando-o.

Hoje penso que essas conclusões ou hipóteses acerca do homem e do mundo não opõem a ciência e a religião. Não há problema em admitir-se que por detrás de toda a criação do homem e do mundo e das leis que regem todo esse processo há um Deus ou uma Causa Primeira da qual tudo se origina e que está presente nesse processo. Penso que o saber não pode se fechar na linguagem científica, mas incluir as linguagens da filosofia, da religião, da poesia e todas as demais, entendendo que cada uma cumpre objetivos próprios sem competir entre si. Penso que é tão equivocado tomar a Bíblia como um livro de ciência, quanto tomar um livro de Ciência como se fosse uma Bíblia. São duas linguagens com objetivos distintos que se completam ao falar do homem e do mundo. Nem só de matéria, de racionalidade ou de ciência vive o homem, mas também de espiritualidade, emoções, de poesia, de utopia.

Portanto, penso que as duas frases que abrem esse texto não se contradizem. São duas maneiras de falar que a natureza, por si mesma, não cria o homem. Ele é feito de “barro” ou de natureza e de “sopro” ou espírito.


Bibliografia estudada e sugerida:


1. CANEVACCI, Mássimo. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza, na história e na
cultura. SP. Brasiliense, l981

2.FROMM, Erich. Conceito marxista do Homem. RJ, Zahar, l975.

3.__________. Análise do Homem, RJ. Zahar, l978

4.__________. Ter ou Ser ? RJ. Zahar Editores, l979.

5 .KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das idéias, RJ. Nova Fronteira, l984

6 .LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad, Buenos Aires, Ciencias del
Hombre, l978.

7.___________. O Desenvolvimento do Psiquismo, Lisboa, ed. Novo Horizonte, l975.

8 MARX, Karl. Textos Filosóficos. São Paulo, Martins, Fontes, l975.

9. MAY, Rollo, O Homem à Procura de Si Mesmo. Petrópolis, Vozes, l972.

10. MARQUES, A.(médico antroposófico) Repensar a Ciência. Juiz de Fora, Ed. Eletrônica
Helvética, l996.

11. SILVA, Maurílio Nogueira. A Produção Sócio-Histórica Consciência individual
(Dissertação de Mestrado, UNICAMP, em l986).

12. __________. Método dialético-materialista de conhecimento e de transformação da
realidade. Texto apresentado no Congresso de Pedagogia/2001, em Havana-Cuba, revisado
em 2008.

13. VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente- o Desenvolvimento dos Processos
Psicológicos Superiores. São Paulo, Martins Fontes, l984.


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“O Homem é criado à imagem e semelhança de Deus?”

Como estudioso do ser humano, ando refletindo, cada vez com mais independência, sobre ensinamentos religiosos, que quase todos nós trazemos em nossa formação e influenciam nossa educação e nossa vida. Aprendemos que Deus é espírito puro, inteligência pura, amor puro, poder puro, beleza pura, perfeição pura, liberdade pura. O filósofo Aristóteles disse que “Deus é ato puro, não tem nenhuma potência a atualizar, senão seria imperfeito e não seria Deus. Sendo assim, Deus não tem imagem ou forma que se possa ver ou perceber pelos nossos órgãos dos sentidos. Deus é Amor. É para ser sentido com o coração e não conhecido pela razão, como diz Leonardo Boff. Sua existência não depende, portanto, de crença, mas de experiência pessoal ou íntima, assim como a poesia não é uma questão de crença, ela está no mundo potencialmente e se concretiza em nossas experiências ou vivências íntimas ou do coração. Quando perguntado se acredita em Deus, Rubem Alves afirma que “a questão não é se, mas como acredito em Deus”. Ele diz que sente Deus na beleza. Há vários jeitos de sentir Deus. Penso que a rigor, não há ateu. Todo homem sente Deus de diferentes modos e com intensidades diferentes, por mais que queira negá-lo. A vida humana sem nenhuma experiência que transcenda a realidade material é para mim impensável.

Assim, dizer que o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus não quer dizer imagem física nem semelhança física. Significa dizer que o homem herda as propriedades de Deus: o espírito, a inteligência, a capacidade de amar, de ter poder, de ser sábio, de ser belo, de se aperfeiçoar sempre e de ser livre.

Quando a criança nasce ela vem ao mundo em estado de total ignorância
ou como uma folha em branco?

Nesta questão, considero o seguinte: Deus não criou o mundo literalmente. Penso que o sentido do verbo criar vai além do de fazer surgir o que não existia. Há uma poesia que diz “eu nasci no dia em que a conheci”. Isso não quer dizer, evidentemente, que o indivíduo não existia antes, mas que ele nasceu de novo ou começou a existir de outro jeito depois que encontrou seu grande amor. Há que se penetrar na linguagem poética. Assim, entendo hoje que Deus, como espírito, não cria nada, não cria cada ser, não cria formas materiais. Ele cria a vida e com sua presença modifica o mundo ou faz renascer de outro jeito o que já existe. O mundo fica melhor se permeado por Deus ou pelo Amor. A esta crença de que “Deus está em tudo” Leonardo Boff chama “panenteísmo”, que é diferente de “panteísmo”, ou seja, a crença segundo a qual “tudo é Deus”. Todos os atributos de Deus – exceto o da eternidade, pois só Ele é eterno ou incriado - estão presentes, potencialmente, nos minerais, nos vegetais, no animais e no homem e se manifestam diferentemente em cada um destes reinos, conforme as leis da evolução.

Assim, tendo hoje a aceitar a tese de que quando uma criança começa ser feita no útero da mãe, sua existência não inicia neste momento, ela apenas está adquirindo ali um novo corpo, no qual habitará por mais um tempo. Sua vida, que é dom de Deus, inicia-se muito antes, tendo habitado outros corpos onde ela vai acumulando atributos: conhecimentos, experiências, dons, caráter etc. Nascer é, na verdade, renascer, reencarnar, retornar a um corpo biológico. Desse modo, a criança não chega ao mundo “zerada” ou como uma “folha em branco”. Ela traz, no inconsciente, o acúmulo de todo o processo da evolução e as experiências de vidas humanas passadas. Um grande cientista ou artista de hoje não é criado com estes dons por Deus ou pela genética. Eles chegaram a ser grandes pelo trabalho feito em diversas vidas e isso continua acontecendo a todos nós. Somos como uma pedra preciosa, que saí da natureza na forma bruta – mas com potencialidades de evoluirmos sempre. Pelo trabalho, esta pedra vai sendo lapidada continuamente. O grande educador Paulo Freire tem uma frase muito repetida onde ele fala da eterna incompletude do ser humano.

Sendo assim, temos que reformular nossa crença de que recebemos de graça determinados dons ou talentos. Penso que a parábola bíblica sobre os talentos quer nos ensinar que recebemos de Deus o dom da vida e germens ou sementes de talentos, mas se não plantarmos e cuidarmos deles, eles não nascerão e não se desenvolverão. Quem tem no bolso uma semente de uma planta, não tem uma planta. Só a terá se plantar e cuidar da semente. Tudo é construído por nosso trabalho ou nossas atividades, entrelaçadas com as atividades ou com o trabalho atual e passado de toda a humanidade. Nossa vida é uma sucessão de atividades que estão sempre inseridas no movimento de todo o universo. Somos parte do todo e não um átomo isolado.

As conclusões acima coincidem com o que diz o psicólogo russo Aléxis Leontiev, que venho estudando há anos. Diz ele:


O ser humano ao nascer possui apenas uma única aptidão que, fundamentalmente, o distingue dos seus antepassados animais: a aptidão para adquirir as aptidões especificamente humanas. São os objetos – que conservam em si os resultados das atividades das gerações passadas – que transmitem ao pequeno ser – na sua atividade - as aptidões do gênero humano”.


Maurílio Nogueira da Silva,
Pedagogo, Mestre em Psicologia Educacional, Prof. da UFJF.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br


. Escrevi outros dois textos que tem a ver com o tema acima:
“O Homem com um ser feito de Barro e de Sopro” e
“O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem”
Quem se interessar, solicite que terei o prazer em compartilhá-los.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Minha visão atual sobre Religião, Deus, o Mundo e o Homem

Maurílio Nogueira da Silva*

Hoje não tenho uma religião e nem acho que deva ter. O que tenho é um sentimento religioso do mundo. Procuro conhecer os diversos caminhos e, a partir deles, fazer o meu percurso. Concordo com o grande pensador Leonardo Boff, quando diz que “a tarefa de cada um de nós é fazer seu caminho, de tal forma que melhore e aprofunde o caminho recebido, distorça o torto e o legue aos futuros caminhantes enriquecidos com sua marca pessoal”.

Nesse sentido, concordo, também, com meu mestre Rubem Alves, quando afirma que não gosta da idéia de um “deus engarrafado”, ou que traz o rótulo de uma religião. Diz ele: “ Deus é Amor. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus fará morada em nossos corpos e nossas almas. Então não teremos mais medo, porque o perfeito amor lança fora o medo (1ª. Carta de João)”.Em outro lugar ele diz “Meu Deus é a Beleza”. Esse olhar poético muito me comove.

Nutro-me, também, do pensamento do filósofo Nietzsche, que não matou Deus, conforme as religiões costumam afirmar. Um deus que pode ser morto por um pobre homem mortal não é Deus. Portanto, Nietzsche não matou Deus, porque Deus é imortal. O que ele teve foi a coragem de gritar bem alto que o deus das religiões estava morto. Segundo Boff, Nietzsche prenunciara a morte do Deus fabricado pelo homem, que reside em seu pensamento, sendo produção exclusivamente intelectual humana. Um Deus que tem que morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo.''' (obra citada, editora Sextante, pág 84). Penso que Nietzsche estava certo e suas palavras servem para os dias atuais. É só ver as notícias sobre o que fazem as igrejas, que, aliás, me motivaram a fazer essas reflexões.

Carrego comigo, ainda, as influências de outro pensador alemão, Karl Marx, um grande incompreendido pelas religiões. Ele disse que “a religião é um ópio do povo” e tinha lá suas razões. O que não se pode é pegar esta afirmativa isolada da sua obra. Ele é o criador de uma filosofia denominada “materialismo dialético”, que é uma crítica tanto ao materialismo tradicional ou vulgar quanto ao idealismo, como visões de mundo. Marx concluiu que o materialismo tradicional é vulgar, pobre, reducionista e que o idealismo metafísico é também uma filosofia especulativa que não dá conta da realidade. Isso está resumido em sua Tese I contra o filósofo Feuerbach. Ele disse também que “entre o materialismo vulgar e o idealismo, há mais mérito no idealismo, pois este reconhece o lado ativo do ser humano”. Em outra passagem, ele disse, ainda, que “a natureza não se aventurou a criar o homem”, que este é resultado de múltiplas determinações. E há ainda muitos que o têm como um pregador do materialismo tradicional ou vulgar ou como um defensor da tese do segundo a qual o homem é determinado apenas pelo fator econômico. Isso é o que pensavam e pensam os filósofos e economistas burgueses, que ele sabiamente criticou. Para Marx, a base econômica, a natureza ou a matéria é o meio concreto através do qual os homens produzem e se reproduzem suas condições de existência, mas ela não atua isolada de outros fatores igualmente importantes. Fazendo uma analogia, podemos dizer que o leito do rio ou o encanamento é o meio através do
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*Mestre em Educação, UNICAMP, l986. Estudioso de filosofia, marxismo, psicologia, espiritualidade e áreas afins.
Professor da UFJF
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br




qual a água chega até nós. Mas a água não se origina desse leito ou do cano. Ela vem de uma nascente, muitas vezes longínqua, que a gente não vê. Igualmente, o homem não se origina da
matéria. Seu corpo físico é uma das suas maneiras através da qual ele existe concretamente neste
mundo, mas o homem não se reduz a um corpo. Utilizando outra analogia, o homem é como um computador: feito de hardware e software, ou parte física e parte virtual, que atuam como um todo inseparável feito de corpo e espírito, sendo que o corpo não cria o espírito. Daí, entendemos que a natureza não cria o homem, mas apenas lhe dá um corpo que serve de base física para o espírito. Numa analogia bem atual, podemos dizer que o corpo físico do homem é a carcaça do telefone celular e o chip é o espírito que armazena as informações que darão a identidade ao aparelho. Sem o chip o telefone não funciona. Sem o espírito o homem não é um ser humano. E esse chip ou espírito chega ao indivíduo através do processo educativo ou das suas relações com os homens e com o mundo, onde desde criança ele vai internalizando conteúdos educacionais e formando sua conduta, sua personalidade, sua identidade.

Esta visão do Homem e do Mundo me leva a concluir que realidade que nos cerca transcende o imediato, o que podemos captar com nossos órgãos dos sentidos e com os instrumentos de observação produzidos pela ciência, por mais que ela avance. Temos que ter um olhar do artista, do escultor, que antevê sua obra num pedaço de madeira antes de trazê-la para sua existência concreta. Ele vê o produto, antecipadamente, na matéria bruta sobre a qual atuará. Para mim, isso é transcendência. Isso é ter um sentimento religioso do mundo. E eu tenho isso.

Trago comigo, também, as influências de outro grande educador, Paulo Freire, que era um marxista-cristão, embora muitos achem isso impossível. Ele me marcou muito pelo que disse e pelo seu exemplo de vida, defendendo e praticando sempre o diálogo e a relação amorosa entre os homens. Muito me honra ter sido seu discípulo na UNICAMP.

Desse modo, ao trazer em minha formação esses e outros grandes pensadores religiosos e não religiosos, não vejo como me enquadrar em uma religião. Mas creio, firmemente, no Deus-Amor que torna o mundo muito melhor quando reconhecido como o princípio de tudo. Esta crença não é obstáculo ao avanço científico, através do qual se busca compreender o homem e o mundo. Na minha visão, o papel da ciência não deve ser o de se opor a esse Deus, mas ajudar a revelar sua presença no mundo que pode ser um lugar cada vez melhor, se assim os homens assim o quiserem. O amor, por si mesmo, não faz nada, mas tudo o que fazemos fica melhor se feito com amor. Para mim isso é ter Deus dentro da gente, nos inspirando e iluminando nossos caminhos.

Sendo assim, o que acontece ao homem e ao mundo é fruto das ações dos homens de boa vontade, que têm esse Deus dentro de si, e, infelizmente, dos homens que não têm esse Deus. Por isso, o mundo não é um “paraíso”, mas também não é um “inferno”. Há muita gente a serviço do mal e do desamor, mas também há muita gente vivendo para o bem e o amor. O que nos compete é decidirmos de que lado ficar, enquanto a humanidade for assim e sonhar com o dia em que possamos ser um “só rebanho”.

Minha prática de vida se nutre da utopia de um mundo que possa ir se humanizando, superando as lutas de classes, a exploração do homem pelo homem, os preconceitos de qualquer espécie, proporcionando igualdade de oportunidades para todos os homens e mulheres, com respeito às suas diferenças. Onde haja respeito à natureza, aos recursos que ela nos disponibiliza, respeito a todos os seres vivos. Acho tudo isso possível, contanto que os homens evoluam e queiram um mundo assim. Aprendi que utopia não é o impossível, mas é o possível que ainda não existe.

Em síntese, essa é a minha maneira atual de conceber a Religião, Deus, o Mundo e o Homem, que não se adequa à nenhuma religião, podendo mesmo ser considerada herética por muitos, mas que não é uma postura anti-religiosa, materialista vulgar ou atéia.

Para concluir, transcrevo abaixo uma bela oração poética de Rubem Alves (escrita no seu livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, págs.153-4):


“Pai, mãe de olhos mansos,
Sei que estás, invisível, em todas as coisas,
Que teu nome me seja doce, alegria do meu mundo.
Traze-me as coisas boas em que tens prazer: o jardim, as fontes, as crianças,
o pão e o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo. Desejo que esqueci..
Mas tu não esqueces nunca.
Realiza, pois, o teu desejo para que eu possa rir.
Que teu desejo se realize em nosso mundo da mesma forma que ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono...
Que sejamos livres da ansiedade.
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus
o são para conosco.
Porque, se formos ferozes, não podemos acolher a tua bondade.
Ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus,
E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.

Amém”

sábado, 29 de agosto de 2009

* Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental

**Maurilio Nogueira da Silva

“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.(...) Olhe o caminho com cuidado e atenção. Tente quantas vezes for necessário . Então, faça a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma” (Carlos Castañeda, The Teachings of Don Juan).


A Física Moderna ou Física Quântica, nascida no século XXI, tem exercido uma profunda influência sobre quase todos os aspectos da sociedade humana. Acabou por tornar-se a base da ciência natural, e a combinação da ciência técnica e natural transformou, fundamentalmente, as condições de Vida na Terra, tanto no sentido positivo, quanto no sentido negativo. Isso passou a exigir uma profunda revisão acerca do universo e do relacionamento do indivíduo com este último.
Os fundamentos dessa Física moderna – a teoria quântica e a teoria da relatividade – levam-nos a encarar o mundo de forma bastante semelhante à maneira como um hindu, um budista ou um taoísta o vê.

As raízes da Física, como de toda ciência ocidental, podem ser encontradas no período inicial da filosofia grega do século VI a.C. , numa cultura onde a ciência , a filosofia e a religião não se encontravam separadas. Seu objetivo girava em torno da descoberta da natureza essencial ou da constituição real das coisas, a que denominam “physis”. O termo Física deriva dessa palavra grega e significava, originalmente, a tentativa de ver a natureza essencial de todas as coisas.

Este, naturalmente, é o objetivo central de todos os místicos , e a filosofia da escola de
Mileto possuía feições nitidamente místicas. Os adeptos dessa escola chamados “hilozoístas”, ou seja, “aqueles que pensam que a matéria é viva”. Esta denominação, estabelecida pelos gregos do século subsequentes, derivava do fato de que esses sábios não viam distinção alguma entre o animado e o inanimado, entre o espírito e a matéria. De fato, eles não possuíam sequer uma palavra para designar a matéria na medida que consideram todas as formas de existência como manifestações da physis, dotadas de vida e espiritualidade. Assim, ele declarava que todas as coisas estavam cheias de deuses e Anaximandro encarava o universo como uma espécie de organismo mantido pelo “pneuma”, a respiração cósmica, à semelhança do corpo humano mantido pelo ar.

Heráclito de Éfeso partilhava também de idéias semelhantes. Ele acreditava num mundo orgânico em perpétua mudança, num eterno vir-a-ser. Para ele todo ser estático baseava-se num logro. Para ele o princípio universal do mundo era o fogo, um símbolo para o contínuo fluxo e permanente mudança em todas as coisas. Ele ensinava que todas as transformações no mundo derivam da interação dinâmica dos opostos, vendo qualquer par de opostos como um unidade. A essa unidade, que contém e transcende todas as forças opostas, denominava “logos”.
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· Um resumo do Cap I do Livro O Tao da Física: um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental, de Fritjof Capra, São Paulo, Ed. Cultrix, l983.
**. Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora - E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br

A divisão dessa unidade deu-se a partir da escola eleática que pressupunha um Princípio Divino posicionado acima de todos os deuses e dos homens. Esse princípio foi inicialmente identificado como a unidade do universo; mais tarde, entretanto, passou a ser encarado como um Deus pessoal e inteligente, situado acima do mundo e o dirigindo. Dessa forma , originou-se uma tendência do pensamento responsável, mais tarde, pela separação entre espírito e matéria, gerando o dualismo que se tornou a marca característica da filosofia ocidental.

Um passo decisivo nessa direção foi dado por Parmênides de Ekéia. Em nítida oposição a Heráclito, Parmênides denominava seu princípio básico como o “Ser”, afirmando-o o único e invariável. Considerava impossível a mudança, encarando aquelas que presumimos perceber no mundo como ilusões dos sentidos. O conceito de uma substância indestrutível como sujeito de propriedades diversas originou-se dessa filosofia , vindo mais tarde a tornar-se um dos conceitos fundamentais do pensamento ocidental. No século a V. a. C, os filósofos gregos tentaram superar o agudo contraste entre as visões de Parmênides e Heráclito. Com a finalidade de reconciliar a idéia de um Ser imutável ( de Parmênides) com a de um eterno vir-a-ser ( de Heráclito), partiram do pressuposto de que o Ser acha-se manifesto em determinadas substâncias invariáveis, cuja mistura e separação dá origem às mudanças no mundo. Essa tentativa de reconciliação deu lugar ao conceito de “átomo”, a menor unidade indivisível da matéria, cuja expressão mais clara pode ser encontrada na filosofia de Leucipo e Demócrito. Os atomistas gregos estabeleceram uma linha demarcatória bastante nítida entre espírito e matéria, retratando esta última como sendo formada de inúmeros “blocos básicos de construção” . Tais blocos não passavam de partículas puramente passivas e, intrinsecamente mortas, movendo-se no vácuo. Não era explicada a causa de seu movimento, embora este fosse frequentemente associado a forças externas que se supunham provir de um ser espiritual, sendo fundamentalmente diferentes da matéria. Nos séculos que se seguiram, esta acabou por se tornar um elemento essencial do pensamento ocidental, do dualismo entre mente e matéria, entre alma e corpo.

Essa idéia da divisão entre espírito e matéria ou alma e corpo foi desenvolvendo-se até ser sistematizada e organizada por Aristóteles, nos séculos V e VI a C., passando a constituir-se a base do pensamento ocidental durante aproximadamente dois mil anos. Sustentando essa divisão, Aristóteles acreditava que as questões espirituais eram muito mais valiosas do que as investigações em torno do mundo material.

O desenvolvimento posterior da ciência ocidental teve de aguardar o Renascimento para que os homens começassem a se livrar das influências de Aristóteles e da Igreja que seguia suas idéias, passando a apresentar um novo interesse em torno do estudo da Natureza. No fim do século XV, aparece Galileu, combinando conhecimento empírico com a matemática, o que lhe confere o título de “pai da ciência moderna”

O nascimento da Ciência moderna foi, portanto precedido e acompanhado por um desenvolvimento do pensamento filosófico baseado no dualismo espírito/matéria. Essa formulação veio à tona com a filosofia de René Descartes. Para este filósofo, a visão da natureza derivava de uma divisão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente ( “res cogitans”) e o da matéria ( “res extensa). Essa divisão permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e inteiramente apartado de si mesmos, vendo o mundo material como uma vasta quantidade de objetos reunidos numa máquina de grandes proporções. Essa “visão mecanicista” do universo foi sustentada, posteriormente, por Isaac Newton, que elaborou sua Mecânica, tornando-se o alicerce da Física clássica. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza objeto de pesquisa científica, eram então encaradas com as leis de Deus, ou seja, invariáveis e eternas, às quais o mundo acha-se submetido. Com Descartes, a mente foi separada do corpo, recebendo a tarefa única de controlá-lo, causando assim um conflito entre a vontade consciente e os instintos involuntários. Posteriormente cada indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu talento, seus sentimentos, suas crenças etc., todos engajados em conflitos intermináveis , geradores de constante confusão metafísica e frustração.

Essa fragmentação interna evidencia nossa visão do mundo “exterior” como sendo constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. O ambiente natural é tratado como se constituísse em partes isoladas a serem exploradas por diferentes grupos de interesses.

Em contraste com essa visão dualista e mecanicista ocidental, a visão oriental do mundo é “orgânica”. Para ela, todas as coisas e todos os fatos percebidos pelos sentidos acham-se inter-relacionados , unidos entre si, constituindo tão simplesmente aspectos ou manifestações diversos da mesma realidade última. Os místicos orientais afirmam que essa visão dualista e fragmentada do mundo é uma ilusão proveniente de nossa mente voltada para a mensuração e categorização. Essa tendência e denominada “avidya”( ignorância) na filosofia budista, sendo considerada como o estado de uma mente perturbada que necessita ser superada.

Na visão oriental do mundo a divisão da natureza em objetos separados está longe de ser fundamental e tais objetos possuem um caráter fluido e em eterna mudança. A visão oriental do mundo é, pois intrinsecamente dinâmica, contendo o tempo e a mudança como características fundamentais. O cosmo é visto como um todo inseparável, em eterno movimento, vivo, orgânico, espiritual e material a mesmo tempo.

Sendo o movimento e a mudança propriedades essenciais das coisas, as forças geradoras do movimento não são exteriores aos objetos ( como na visão grega clássica) mas, sendo ao contrário, são uma propriedade intrínseca da matéria. De forma correspondente, a imagem oriental do Divino não é a de um governante que, das alturas, dirige o mundo, mas de um princípio que tudo controla a partir de dentro:

“Aquele que, habitando em todas as coisas, é no entanto, diversos de todas a coisas.
Aquele a quem todas as coisas não conhecem, cujo corpo é feito de todas as coisas.
Aqueles que controla todas as coisas a partir de dentro.
Aquele que é a sua a Alma, o Controlador interior, o Imortal”.(Brihad-aranyaka Upanishad)

Conclusão:

Quanto mais a ciência penetra no mundo microscópico, mais ela compreende a forma pela qual o físico moderno, à semelhança do místico oriental, passa a perceber o mundo como um sistema de componentes inseparáveis, em permanente interação e movimento, sendo o homem parte integrante desse sistema.
Saúde como equilíbrio psicossomático

* Maurilio Nogueira da Silva

Numa visão mais ampla do que seja a saúde, podemos dizer que estamos saudáveis quando temos um bom equilíbrio psicossomático, ou quando nosso corpo e nossa mente estão em harmonia.

Certas doenças têm início no corpo e reverberam na mente ou na alma. Outras têm início na mente ou na alma e reverberam no corpo. Não há, portanto, doenças físicas ou psíquicas isoladamente e sim doenças psicofísicas ou psicossomáticas.

Os males que têm início no corpo são mais fáceis de serem identificados, suportados e tratados. Os males que se iniciam na mente ou na alma são mais difíceis de serem diagnosticados, suportados e tratados.

Por exemplo, quando quebramos uma perna, quebra-se também o nosso equilíbrio psíquico. A perna quebrada traz consequências para o desenrolar de nossas atividades diárias e isso pode nos levar à tristeza e até à depressão, caracterizando assim um problema psicossomático. Inversamente, um estado de tristeza, pessimismo ou negativismo pode causar a paralisia de uma perna, passando a ser um problema psicossomático.

A medicina tradicional, de tradição positivista e, portanto reducionista, tem a pretensão de diagnosticar e tratar das doenças humanas partindo sempre da premissa de que as doenças sempre começam no corpo, como se este pudesse existir separado da mente ou da alma. E aí está seu grande equívoco. Hoje são bastante conhecidos outros enfoques da medicina, tais como a homeopatia, a medicina holística e a antroposófica que tratam o homem como um todo psicossomático.

Essas correntes de medicina apoiam-se numa filosofia segundo a qual o ser humano se constitui numa totalidade psicossomática, ou seja, seu corpo ou o “soma” existe numa unidade inseparável com sua alma ou a psiquê. Assim, tudo que acontece num desses polos ressoa no outro, tornando mais complexo identificar as causas e mesmo tratar os seus males. Não há como isolar esses polos a não ser no nível da abstração, mas aí se perde o homem como ele é, ou de modo concreto.

Do mesmo modo essa filosofia considera que cada indivíduo não é um átomo isolado do mundo e dos outros indivíduos que o cercam. Existimos sempre em interação com o meio físico e com o meio social. E é nessa interação que vamos sendo o que somos.

Essa filosofia considera também que as leis da natureza são dinâmicas ou dialéticas. Elas se compõem de energia positiva e energia negativa e é essa polaridade que permite seu desenvolvimento. Tudo existe num eterno movimento, possibilitado pela interação das forças contrárias que estão na estrutura contraditória do mundo. Basta olharmos a nossa volta para vermos como isso é verdade: a lâmpada se acende pela interação da energia positiva e a negativa, a planta se desenvolve pela interação do sol e da
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* Maurilio Nogueira da Silva, Mestre em Psicologia Educacional, Prof. da UFJF
E Mail nmaurilio@yahoo.com.br


chuva, o seres vivos se multiplicam pela interpenetração do macho e a fêmea e até mesmo o pensamento e as idéias se desenvolvem ao interagirem com outros pensamentos e idéias contrárias ou graças às contradições que vão aparecendo em seu interior.

Nesse sentido, as chamadas ciências naturais já deram grandes passos na direção de compreender como as leis da química, da física, da biologia se manifestam no nosso corpo em sua interação com todo o ecossistema que nos envolve.

Por outro lado, as chamadas ciências humanas e sociais têm apresentado também importantes estudos na área da antropologia, da sociologia, da psicologia, da psiquiatria, da parapsicologia e outras áreas afins, com importantes conclusões sobre a vida humana.

Superando o dualismo corpo-alma, existem hoje importantes estudos que vêm confirmando o fato de que o homem é uma unidade psicossomática, que resulta da interação das forças da natureza ou materiais com as forças sociais e as forças psíquicas ou interiores, que passam a dirigir sua vida.

Assim, as pesquisas científicas apontam, cada vez mais, para a importância de que o homem tome consciência de fazer parte da natureza e do meio sócio-histórico ou cultural onde ele desenvolve seu ser físico e psíquico.
Morrer é preciso

Num artigo muito interessante, Paulo Angelim, que é arquiteto, pós-graduado em marketing, dizia mais ou menos o seguinte:
Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas a ausência de vida e isso é um erro
Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todo dia
A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação.
Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião
sem a morte do óvulo
e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio
A morte nada mais é que o ponto de partida para o início da fronteira
entre o passado e o futuro
Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente
Quer ser um bom profissional?Então mate dentro de você
o universitário descomprometido que acha que a vida se resume
a estudar só o suficiente para fazer as provas
Quer ter um bom relacionamento?Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta ou o solteiro solto que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projeto e tempo com mais
Quer ter boas amizades?
Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de tentar manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos
Enfim todo processo de evolução exige que matemos o nosso "eu" passado, inferior
E qual o risco de não agirmos assim?O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo essa produtividade, e, por fim prejudicando nosso sucesso
Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser
Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam
Acabam se transformando em projetos acabados, híbridos, adultos infantilizados
Podemos até agir, às vezes, como meninos, de tal forma que não mantemos as virtudes de criança
que também são necessários anos,
adultos, como: brincadeira, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância etc.
Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes
infantis, para passarmos a agir como adultos
Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga)
melhor e evoluído?
Então, o que você precisa matar em si, ainda hoje, é o "egoísmo" é o "egocentrismo", para que nasça o ser que você tanto deseja ser
O valor das coisas não está no tempo em
que elas duram, mas na intensidade
com que acontecem
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis
Pense nisso e morra.
Mas, não esqueça de nascer melhor ainda

_______________________________
Maurilio Nogueira da Silva
Algumas reflexões sobre a “Dedicação Exclusiva” e a Especialização (texto de 2002)

“Para se atingir o nível de “grande mestre” no xadrez ou na ciência, é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende se “grande mestre”: lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, conversas no bar, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro. É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o “grande mestre”.
( Rubem Alves,Escritor e Educador)

Valendo-me de um pouco mais de tempo livre, permitido por uma licença médica bastante prolongada, tenho produzido, nos últimos anos, alguns pequenos textos sobre temas variados: educação, trabalho, saúde, violência, terrorismo, política, psicologia, ciência, filosofia, religião, poesia etc.

Hoje, resolvi escrever sobre alguns problemas ligados à “Dedicação Exclusiva” e a Especialização, considerando a importância que essa questão tem, sobretudo, para o meio acadêmico.

O que me levou a esse tema são observações mais atentas que tenho feito sobre o Trabalho Humano e sua relação com a qualidade de vida que ele pode nos proporcionar.

Em função de um tratamento médico, iniciado 2001, quando recebi o diagnóstico de um melanoma ( tumor maligno) no olho esquerdo, tenho passado um grande número de horas no ambiente de um hospital. Nesse tempo, quase não faço outra coisa do que observar pessoas doentes e profissionais da saúde lutando pela vida, cada um a partir da sua situação.

Fico olhando o consultório do meu oftalmologista, o mais graduado e um dos fundadores do hospital Hilton Rocha, em Belo Horizonte. Esse médico é uma grande autoridade na área da oftalmologia e posso atestar sua competência. Ele tem “dedicação exclusiva” ao seu trabalho. Dedica-se inteiramente à sua especialidade: tratar de olhos. Olhando a quantidade de gente na sala de espera e o entra e sai de cada um, fico pensando no seu trabalho, no respeito que ele deve ter no seu meio, na quantidade de dinheiro que ele deve ganhar. Mas penso também na sua vida, na sua qualidade de vida. Ele me parece mais velho do que, na verdade deve ser, sua musculatura é bastante flácida, seu tempo livre deve ser pouco ou quase nenhum. Um dia, flaguei-o comendo uma banana, às pressas, quase engolindo-a inteira, no corredor do hospital. Aí pensei cá comigo: que qualidade de vida ele deve ter? Será que ele encontra tempo para uma refeição tranqüila com a família, para um ”papo furado” , uma piada, uma música, uma dança, uma caminhada, um esporte, uma brincadeira com criança ou com gente comum, um namoro, uma ida ao motel, uma viagem de folga (que não seja ida a congressos)? Acho difícil que ele encontre tempo e disposição para essas coisas dos “normais”.

Penso que os que têm uma dedicação exclusiva ou se dedicam de corpo e alma a um trabalho ou uma causa são, sem dúvida, pessoas especiais, merecedoras de todo o respeito e admiração. Mas hoje, tenho também pena dessas pessoas unidimensionais, como diria Marcuse, que se fecham em seu trabalho e fazem dele o seu mundo. Elas correm o risco de saberem cada vez mais de cada vez menos. Elas passam a ter uma vista apurada para explorar sua “especialização”, mas correm o risco de ficarem alheios a tudo que não faça parte de sua área de atuação.

Penso que a vida se parece com um grande teatro, com uma infinidade de papéis. Umas pessoas pegam cedo um papel ou uma atividade e se especializam nele, dedicando-se exclusivamente a ele de corpo e alma. Outras desempenam um papel ou uma atividade, mas não como uma atividade exclusiva. Outras passam a vida experimentando o maior número possível de papéis ou atividades, mas não chegam a se identificar com nenhum deles. O primeiro grupo de pessoas desenvolve ao máximo um talento e se fecham para o mundo. O terceiro grupo não desenvolve talento algum. Passa a vida pulando de um galho para outro. Enquanto isso, o segundo, além de desenvolver um talento especial, vai em busca de novos talentos – mesmo que com menor intensidade – e, desse modo, vive mais a vida em suas múltiplas dimensões. Acho esse grupo mais interessante e me identifico com ele.

Como educador, há quase três décadas, não considero que eu tenha uma especialidade ou um dedicação exclusiva à uma área. Sou mais generalista do que especialista. Dentro do campo da educação – que é bem amplo – pertenço à área das chamadas ciências humanas. Dentro dela, tenho percorrido diversos caminhos. Fiz minha Graduação em Pedagogia, a Pós-graduação em Psicologia Educacional, transitei pela Filosofia da Ciência, Política Educacional e Educação e Trabalho. Quando me perguntam qual é a minha especialidade, não consigo dar uma resposta muito clara. Com o passar dos anos, fui me dedicando a tantas tarefas que não me considero um especialista. Só sei que sou educador. Esta é a minha identidade principal e a ela me dedico de modo especial, embora de modo não tão exclusivo, pois faço também outras coisas. Às vezes, sou músico. Não passo um dia sem tocar um instrumental musical – transitando das cordas, para as teclas e o canto. Também me dedico ao computador, onde escrevo meus textos e troco idéias e brincadeiras com amigos reais e virtuais. Dedico-me, também, atividade política, militando em um partido político. Além disso, leio muito, conto piadas, namoro, ajudo nos trabalhos domésticos da casa, cuido de plantas e animais, sei manejar diversos instrumentos de trabalho, enfim, faço atividades das mais variadas e todas elas me ensinam muito.

Vivendo desse jeito, sem aderir aos rigores da dedicação exclusiva ou à dedicação de corpo e alma a apenas uma atividade, chego à seguinte conclusão: não sou, nem serei um “grande mestre da ciência”. Gasto tempo com “atividades não científicas e consideradas “não sérias”. No entanto, acumulo sabedoria da vida e partilho essa sabedoria com as pessoas com quem troco idéias. Assim vou sendo apenas um aprendiz da vida, confrontando teoria e prática e entrelaçando os vários saberes que a vida me oferece.

Quanto aos “grandes mestres da ciência”, que vivem sob os rigores da dedicação exclusiva , desempenhando apenas uma atividade, penso que eles têm grandes lucros acadêmicos e o ego lustrado no seu meio. Mas concluo, também, que eles têm muitos prejuízos: não têm tempo de buscar o saber da vida em suas multidimensões e, com isso, correm o risco de acabar míopes ou cegos em relação a tudo que não seja sua especialidade. Eles podem ser grandes especialistas, cientistas e até professores, mas não acho que possam ser “grandes mestres em educação”.

Para terminar, sugiro ao leitor que releia o epígrafe de Rubem Alves, com o qual iniciei esse papo e tire suas conclusões.

Maurílio Nogueira da Silva
Jan/2002 E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br
Algumas reflexões em torno da palavra Ruptura

Maurilio Nogueira da Silva *

A vida constitui-se de sucessivas e inevitáveis rupturas. Cada ser humano começa a existir no útero da mãe graças à ruptura do hímen que permite a passagem da semente do homem para dentro da mulher. A seguir essa semente fecundada vai sofrendo sucessivas rupturas e bipartições e assim vamos sendo feitos de ruptura em ruptura. Ao nascermos fazemos a ruptura com o cordão umbilical nos liga mãe . Mais tarde, rompemos com nossa família, nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado, nosso país, nosso continente e alguns chegam a romper até mesmo com o planeta e buscam viver em outros mundos. Nem mesmo os vegetais escapam a essa sucessão de rupturas. Se a semente não sofrer uma ruptura, abrindo-se para deixar sair o broto, não se transformara numa nova planta. E se a planta não romper com a terra que lhe cobre não continuará viva.

E assim, toda a vida é uma sucessão de rupturas. Rompemos com amizades, rompemos com namoros casamentos, rompemos com empregos, rompemos com estilos de vida, rompemos com idéias e crenças, sempre que estes se tornam inadequados à nossa caminhada pela vida.

Por mais que se tente evitar as rupturas chega a hora dela com todas as suas consequências. Impérios e modelos de sociedades que pareciam eternos, ao acumularem contradições, sofrem rupturas e dão lugar a outros que lhes sucedem. É a lei da vida.

____________
*Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
Sobre as transformações das idéias – ou por uma Pedagogia do Diálogo

Maurilio Nogueira*

É muito comum querermos arrancar das pessoas determinadas idéias, pretendendo substituí-las pelas nossas, que julgamos melhores. Equivocadamente, agimos, assim muitas vezes, com a melhor das nossas intenções. Precisamos estar conscientes de que a história não é feita pela nossa vontade individual, independente das condições objetivas em que se vive.

As pessoas têm certas idéias em função de suas condições de vida e suas idéias só mudam com a transformação dessas condições. E ainda assim, a mudança das idéias não acontece logo em seguida à mudança das condições materiais de vida. Temos que compreender que as pessoas que não compartilham das mesmas condições de vida que nós, têm idéias muito distintas das nossas e até mesmo contrárias. E defendem essas idéias como corretas. Por isso, nossa luta deve ser a de compreender as pessoas no seu contexto, não nos achando perfeitos, mas ajudando-as nas transformações de suas condições de vida, sem exigir que elas aceitem, previamente e passivamente, as idéias que julgamos mais acertadas. Essa atitude é valorizar a subjetividade e a objetividade.

Isso não quer dizer, todavia, que esta é uma questão mecânica ou automática, ou seja, que transformadas as suas condições de vida, as pessoas passarão logo a adotar novas idéias. O que ocorre é que sem as transformações materiais de vida não se mudam as idéias de ninguém, embora as transformações materiais não sejam suficientes. As idéias não são destituídas de força e nem as condições materiais agem por conta própria. Admitir isso, significa cair num determinismo absoluto das condições materiais. O que afirmamos é que as idéias se originam e se desenvolvem sobre uma base material sócio-histórica e a partir dos pares que temos. Esses pares são os nossos significantes, ou aquelas pessoas que nos passam os significados acerca da realidade.

Não podemos repetir as práticas dos idealistas ingênuos e nem a dos materialistas tradicionais ou vulgares. Os idealistas acreditam que são as idéias, por si mesmas, que mudam o mundo. Os materialistas tradicionais ou vulgares, ao contrário, negam qualquer valor às idéias e pregam o determinismo absoluto das condições materiais.

O pensamento dialético nos leva a compreender que as idéias têm um papel mediador importante nas atividades dos homens, mas elas são produzidas e disseminadas num contexto sócio-histórico e quase sempre não podem ser transplantadas para outro contexto sem os devidos ajustes, feitos com atitudes práticas Para conhecermos as idéias das pessoas, temos que conhecer sua vida real, de onde se originam suas idéias, quem são seus pares ou seus significantes. Isso exige uma pedagogia baseada na compreensão, no diálogo e na paciência. Ninguém impõe uma consciência a ninguém. As pessoas se conscientizam em comunhão, como diz Paulo Freire. Guerrear contra as idéias dos outros, utilizando as armas das nossas idéias, sem levar em conta o contexto do outro e o nosso, não é uma atitude acertada. As idéias que ganham força na vida das pessoas são aquelas que caminham junto com as suas condições concretas de vida. Portanto para mudar as idéias de uma pessoa é necessário ajudá-la a mudar suas condições objetivas de vida. Além disso, é preciso sabermos se estamos certos em querer mudar as idéias do outro e se o outro quer realmente mudar suas idéias. Caso contrário, estaremos perdendo nosso tempo e angariando para nós antipatias e rupturas.

* Maurilio Nogueira da Silva - Prof. da UFJF - E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Paranoia?

Paranóia?

Maurílio Nogueira

Minha casa é uma cadeia. Aliás, estamos todos presos. Meu molho de chaves tá cada vez mais pesado.
Quero portas abertas, janelas sem grades, um quintal sem muros.
A rua é lugar do medo.
Medo dos mal-encarados, medo dos bem-encarados, medo de crianças com cara de trombadinhas, medo de mendigos, medo dos homens de terno e gravata, medo da polícia, medo dos políticos, medo dos trambiques que vêm de todo os lugares, medo dos seqüestros.
Medo de abrir meus e.mails, medo de pegar virus no computador, no hospital, na escola, no ônibus, na rua.
Medo dos carros, medo das motos.
Medo de ataque cardíaco, de câncer, de overdose e efeitos colaterais de medicamentos, medo de álcool, de fumaça, de drogas legítimas e ilegítimas.
Medo da cidade grande, medo da cidade pequena, medo da roça.
Não tenho mais para onde fugir.
Agora, com a gripe suína, tudo fu.
Não posso ir à escola, não posso ir a festas, não posso estar na multidão, não posso ir nem ao motel, tudo tá contaminado. Tudo tá dominado.
Que mundo, seu Raimundo! Que penico, seu Mundico! Que cocô, seu dotô! Botaram merda no meu ventilador.
Quero sair deste atoleiro, desta areia movediça, deste fundo de poço.
“Pousou uma mosca na minha sopa. E não adianta detetizar, por que cê mata uma e vem outra no lugar.”
“Minha piscina tá cheia de ratos. As idéias da burguesia não batem com os fatos.”
“Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. Dança na corda bamba de sombrinha. Em cada passo dessa linha pode se machucar... A esperança é equilibrista. Sabe que o show de todo artista tem que continuar”.
Uma nova sociedade já. Um novo mundo já. Um novo homem já. Tem que haver uma saída.
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”
Não seqüestrem minha esperança.
Tudo não pode ir para os ares, depois de tanta luta, de tantos heróis mortos, de tanta esperança, de tanta fé.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Método Dialético Marxista de Conhecimento e de Transformação da Realidade
Uma superação do Materialismo Vulgar e do Idealismo como visões de
mundo, em busca de um “meta ponto de vista”*

** Maurílio Nogueira da Silva

"O principal defeito de todo o materialismo do passado é que ele concebe o objeto, a realidade, o mundo sensível apenas sob a forma de objeto ou intuição e não como atividade humana sensível, como práxis... Isso explica por que o lado ativo da atividade humana foi desenvolvido pelo idealismo, mas apenas de forma abstrata, pois o idealismo não conhece, naturalmente, a atividade real, concreta, como tal...” ( Tese I de Marx sobre Feuerbach, in: A Ideologia Alemã e outros Escritos, l965, p. 87).
Introdução

Nosso objetivo com esse pequeno texto não é trazer novas contribuições teóricas ao estudo do método dialético-marxista., que entendemos ser uma superação do materialismo vulgar e do idealismo como visões de mundo. O que queremos é compartilhar nossa visão desse método, adquirida através de leituras, discussões e experiências ao longo de nossa vida. Desejamos também nos inserir nas questões que hoje têm sido levantadas sobre a validade do método dialético marxista, tais como:

-As superações ou verificações de limites nas conclusões de Marx e Engels sobre o que estudaram – a sociedade capitalista - utilizando o método dialético – podem nos levar a negar a validade desse método como instrumento de conhecimento e de mediação das transformações da realidade? Não seria essa uma postura conservadora?

-Deve-se abandonar as análises macro e substituí-las pelas análises micro, como quer o chamado“pensamento pós-moderno”? Uma pode subsistir sem a outra? Não seria essa uma postura reducionista e portanto conservadora?

-A crise da razão capitalista significa a derrota da razão em geral? Devemos abandonar a
razão ou vê-la com outros olhos, superando nossa visão Cartesiana?Ir para a descrença
total na razão não seria uma postura conservadora?

-É correta a aplicação do método dialético marxista a outros objetos de estudo que não à política, à economia, à história? Na questão “tese-antitese-síntese” não deveríamos insistir na provisoriedade ou historicidade das sínteses, não absolutizando-as?

Julgamos que essas e outras questões estão presentes em nosso meio acadêmico e devem ser discutidas entre os professores e com nossos alunos das diversas áreas do conhecimento, como uma contribuição importante para sua formação enquanto futuros professores e pesquisadores.
_________
* Texto apresentado no Congresso de Pedagogia, em Havana, Cuba, em 2001 e atualizado em
abril de 2009.( No subtítulo o termo “ meta ponto de vista” tomei-o emprestado do pensador e educador Edgar Morin).

** Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, SP, l986
Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG, desde l997.
E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br - Blog: maurilio-dialogoscommaurilio.blogspot.com


Estamos conscientes das limitações e riscos ao tratar tão resumidamente de um assunto extremamente complexo e controvertido. Mas, mesmo assim, esperamos atingir nosso objetivo, que é fazer chegar nossas reflexões a um público que não tem - ou ainda não teve - contato com essas questões e com as obras aqui citadas. De modo particular, queremos dialogar sobre essas questões com os colegas que atuam na área da Educação.

1. O que é Método?

Etimologicamente, a palavra método vem de “meta” ou objetivo e de “hodos” que quer dizer caminho. Durante toda a nossa vida estamos sempre estabelecendo objetivos ou caminhos que possam nos levar a satisfazer nossas necessidades. Os métodos se constituem de recursos, meios ou instrumentos teóricos e práticos que utilizamos para lidar com a realidade.

Os métodos têm sempre uma natureza sócio-histórica, ou seja, eles nascem e se desenvolvem no interior da sociedade, com suas contradições, e são repassados aos indivíduos pela família, pela escola e demais instituições sociais, pelos meios de comunicação, pelo trabalho, enfim, por todas as instâncias onde haja interação humana. Desde a infância, vamos aprendendo o que é o conhecimento, como se chega ao conhecimento e para quê serve o conhecimento.

Nenhum método é uma receita definitiva, infalível ou plenamente suficiente para apreender a totalidade da realidade. Métodos são ferramentas teóricas e práticas produzidas pelos homens para lidar com a realidade. E esta é sempre mais rica, mais abrangente e disforme, exigindo que atualizemos sempre nossa maneira de atuar frente a ela.

2. Como se classificam os Métodos?

Aproximadamente a partir dos anos 500 a.C. surgiram duas perspectivas de se conhecer a realidade: a teoria de Parmênides (c.540-480 a.C.) e a teoria de Heráclito (c.540-480 a.C.).
Parmênides defendia a idéia de que nada pode mudar, tudo que existe sempre existiu, nada se transforma e, por isso não devemos confiar em nossos sentidos que nos enganam ao nos mostrar transformações no mundo real. A essência da realidade para Parmênides é una e imutável. Apesar de detectarmos na realidade o movimento das coisas, como o nosso próprio crescimento e todas as transformações da realidade, para Parmênides apenas a razão poderia conhecer a verdade do mundo, e sua razão dizia que nada se transforma. Para ele as transformações são ilusões dos sentidos. Vê-se, portanto, que Parmênides era um filósofo que representava os setores conservadores da sociedade de então, que não desejavam mudanças na realidade.
Heráclito, ao contrário de Parmênides, defendia a idéia da constante transformação da realidade. Para Heráclito tudo está em movimento, conforme nos atestam os sentidos. Além de sua concepção de que nada é, tudo está sendo, ele afirmava que o mundo está cheio de contrastes: a noite e o dia, a doença e a saúde, a guerra e a paz, ou seja, ou ser e o não ser de um mesmo objeto. Com Heráclito, concluímos que ele se posicionava a serviço das transformações da sociedade.
Saber qual pensamento está correto, se o de Parmênides ou o de Heráclito ou qual devemos tomar como método eficaz para o conhecimento de um objeto, não é um questionamento epistemológico que faz sentido, pois há verdade em ambas as posições. No mundo estão presentes, ao mesmo tempo, a permanência e a mudança, a razão e as experiências dos sentidos. E ambas podem enganar-se. A questão é ver que interesses estão por detrás desses posicionamentos, que se opõem apenas aparentemente.
Podemos concluir que a teoria de Parmênides foi precursora da Lógica Formal e a teoria de Heráclito, da Lógica Dialética. Como se observa, foi com estes dois filósofos da Idade Antiga que surgiram os primeiros pensamentos sobre a Metodologia do Conhecimento, que foram aperfeiçoadas ao longo de séculos, cada corrente de pensamento com seus filósofos: a Lógica Formal (com Aristóteles, Platão, Kant) e a Lógica Dialética ( com Hegel, Marx, Engels).

2.1. Lógica Formal ou Clássica
A Lógica Formal ou lógica clássica, sistematizada por Aristóteles, é uma forma de pensar, de conhecer, de organizar o raciocínio abstraído da realidade concreta, sem interesse em transformá-la. É uma lógica das idéias ou dos conceitos. Segundo ela, raciocínio se faz com o relacionamento de duas idéias: as premissas e a conclusão, que nessa lógica denomina-se inferência.
Segundo Aristóteles, para um raciocínio ser lógico é necessário atender a três princípios: princípio da identidade, o princípio da não-contradição e o princípio do terceiro excluído.
O princípio da identidade afirma a identificação de um objeto com a idéia que temos dele. Algo é o que é, conceitualmente: uma cadeira é uma cadeira, um livro é um livro, a vida é a vida. Baseado neste princípio, não podemos afirmar que um óvulo fecundado é um futuro ser humano. Um óvulo fecundado é um óvulo fecundado, um ser humano é um ser humano. Esse princípio não estuda o movimento, mas o fenômeno tal qual se apresenta.
O princípio da não-contradição afirma que nenhum pensamento pode ser, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso. A idéia não pode ser e não ser - não podemos conceber a vida como bela e como não bela, ao mesmo tempo.
O princípio do terceiro excluído deriva dos dois primeiros e exclui a contradição das idéias. Uma idéia ou é verdadeira ou é falsa, não existindo uma terceira possibilidade. Não podemos afirmar que a vida é longa, mas pode ser curta . Para ele ou a vida é longa ou a vida é curta. As duas afirmativas são excludentes.
Essa lógica é pura forma, não tendo qualquer conteúdo ou relação com a realidade concreta. Por isso é denominada lógica formal.
2.1.1 A validade da Lógica Formal ou Lógica Clássica
O argumento é a exteriorização do raciocínio, realizado através de conjunto de proposições encadeadas por inferência (premissas e conclusão).
Os argumentos podem ser válidos ou inválidos. Para que os argumentos sejam válidos têm que atender aos princípios da identidade, da não contradição e do terceiro excluído. Caso contrário, eles serão inválidos.
Já a condição de verdadeiro ou falso só é aplicada às premissas e à conclusão, ou seja, às proposições. Cada proposição pode ser falsa ou verdadeira. Para que a conclusão seja verdadeira, as premissas têm que ser verdadeiras e as inferências válidas; esta é a única forma em que o raciocínio lógico nos garante uma conclusão verdadeira..
Em resumo, os argumentos são válidos ou inválidos e as proposições são verdadeiras ou falsas. A validade ou invalidade dos argumentos e a veracidade das proposições não têm relação direta. Posso ter argumentos válidos com preposições falsas ou argumentos inválidos com proposições verdadeiras.
Essa lógica está presente na filosofia metafísica ou especulativa, por exemplo, na matemática, na estatística, na informática, que são saberes eminentemente formais ou abstratos.

2.2. A Lógica Dialética

Enquanto a Lógica Formal interessa-se pela forma abstraída do conteúdo, ou pela idéia abstraída do objeto, a Lógica Dialética estuda a realidade como uma totalidade, não separando forma e conteúdo, essência e aparência, dimensões externas e internas da realidade, vendo esses dois polos como o motor do desenvolvimento dos objetos ou fenômenos. A dialética é também chamada ciência das contradições por perceber que tudo se move choque dos opostos.
A lógica dialética aplicou-se primeiramente ao mundo das idéias ou do pensamento e por isso foi denominada Lógica Dialética Idealista.
2.2.1. Lógica Dialética Idealista ( ou Lógica Dialética Hegeliana)
A Lógica Dialética Idealista ou Lógica do Pensamento é também conhecida como “Lógica Hegeliana”. Seu sistematizador, Friederich Hegel (1770-1831), nasceu em Stuttgart, na Alemanha e foi um grande inovador da teoria do conhecimento, pois antes da expansão de sua teoria dialética, a metodologia da Lógica Formal era a forma de pensar usual do seu tempo.
Hegel surge como um contestador do seu tempo e foi marcado pelo otimismo na força da razão. Ele afirmava que, através da razão tudo poderia ser conhecido. Uma frase típica de sua teoria é que "tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real", ou seja, tudo é apreendido pela razão humana, o mundo coincide com a razão.
Outro aspecto peculiar de sua teoria é a tríade dialética, que expressa o movimento do pensamento em busca do conhecimento. Hegel concluiu que o pensamento é composto de três estádios: a tese, a antítese e a síntese. Primeiro surge uma teoria, ou a tese. Depois, em virtude da existência de contradições da tese, surge a antítese. Para solucionar o impasse entre a tese e a antítese, preserva-se o que há de melhor em cada uma e soluciona-se o problema da contradição formulando a síntese. Esta, por sua vez transforma-se em nova tese e assim, sucessivamente.


2.2.2. Lógica Dialética Concreta ( ou Lógica Dialética Marxista)

Para evitar as controvérsias que o termo “materialista” suscita em nosso meio, onde se acaba perdendo o termo dialética em detrimento do termo materialista , preferimos utilizar aqui o termo Lógica Dialética Marxista e não Lógica Dialética Materialista como a denominou Marx e Engels. Essa lógica surgiu no início do século XIX com os estudos filosóficos e científicos de Karl Marx, seguido por Friederich Engels e representa um passo à frente em relação à lógica dialética idealista ou lógica hegeliana, na medida em que supera a divisão clássica que separa o mundo material do mundo das idéias, vendo essas duas dimensões como partes de um todo em movimento.

Marx percebeu que as idéias originam-se da vida real dos homens, onde eles produzem e reproduzem sua existência – que é, ao mesmo tempo, material e espiritual.

Os objetivos do método dialético marxista não se confundem, portanto, com o do método lógico formal, que visa descrever a essência da realidade, separando o mundo das idéias e o mundo material e concebendo-os com algo fixo ou imutável.

O método dialético, desenvolvido por Marx e Engels, teve como objeto de estudo o modo de produção capitalista ou a sociedade burguesa, tal como se apresentava no seu tempo. Esses autores estudaram as forças materiais desse modo produção, bem como as idéias que lhe davam (e ainda dão) sustentação. Daí ser um equívoco tomar o marxismo como uma mera teoria econômica da sociedade burguesa. O “marxismo economicista” é uma criação de intelectuais que não compreenderam a dialética de Marx.

Nessa época, início do século XIX, a burguesia emergia como uma classe revolucionária ao derrotar o feudalismo – que impedia o progresso social. Nessa situação, ela tinha todo interesse nas transformações e no desenvolvimento das ciências da natureza e da sociedade, possibilitando o aparecimento de novas visões de mundo mais condizentes com o progresso da época. Diga-se de passagem, a revolução burguesa havia sido preparada ou antecipada, em grande parte, pela ciência e pela filosofia da Idade Moderna. Cientistas como Copérnico, Newton, Galileu e filósofos como Descartes, Locke, Spinoza e Kant, assim como pensadores chamados “iluministas”, como Rousseau, Voltaire e Diderot tiveram papel de destaque no preparo da revolução burguesa. Esses estudiosos, do século XVIII, foram fundamentais para a burguesia, pois pregavam a clareza das idéias e a luta contra o obscurantismo feudal que impedia ou tutelava o avanço do progresso da sociedade.

Porém, à medida que a classe burguesa foi se desenvolvendo e se tornando dominante, a classe trabalhadora foi também se desenvolvendo e tomando consciência da exploração a qual estava sendo submetida. Com isso, foram aparecendo as contradições do modo de produção capitalista, criando na classe trabalhadora o desejo de superar essa sociedade, por outra que viesse atender as necessidades de todo o povo e não apenas de uma classe. O método dialético-marxista surge, assim, como um instrumento científico de desvelamento da realidade, através do qual se poderia superar as verdades particulares ou verdades de classe, produzidas e disseminadas para manter o domínio de uma classe sobre a outra. Essas verdades particulares caracterizavam ( e ainda caracterizam) a ideologia burguesa, conforme CHAUI (1986).

É nesse contexto de uma sociedade dominada pela burguesia, tanto no plano material quanto no plano das idéias, mas que já se defrontava com as contradições oriundas do seu próprio modelo de desenvolvimento - que, de um lado, produz riqueza para uns poucos e, do outro, produz a miséria de muitos - que Marx e Engels fizeram seus estudos, utilizando o método dialético. Com esse método eles buscaram conhecer em profundidade os princípios históricos que regem a sociedade capitalista, explicitando suas contradições e apontando para sua superação, que deveria ser impulsionada pela classe trabalhadora ao se dar conta de sua exploração pelos capitalistas.

O Método Dialético Marxista é uma Dialética do Concreto para KOSIK (l976). É uma Filosofia da Práxis”, para GRAMSCI (1979) e VASQUEZ (l977). Segundo esse método o homem conhece o mundo – e a si mesmo - não apenas a partir da sua atividade teórica ou especulativa – como imagina o idealismo – nem apenas da ação direta dos seus órgãos dos sentidos e motores – como prega o materialismo tradicional ou o empirismo – mas a partir da prática social, da qual o homem se apropria através da sua atividade teórica e prática, da sua práxis. Para Marx e Engels, a atividade do indivíduo encontra-se, desde o início, condicionada pela suas possibilidades reais de vida e pelo contexto sócio-histórico onde ele vive. Essa conclusão é uma superação tanto do voluntarismo ou do subjetivismo ingênuo – que joga toda a responsabilidade na atividade do indivíduo ou do sujeito - como do determinismo ou do objetivismo positivista - que vê o movimento da realidade desconsiderando a atividade do sujeito. Marx afirma que “são os homens que fazem a história, mas eles não a fazem livremente ou nas condições por eles escolhidas, mas sim nas condições determinadas e legadas pela tradição”. Assim, não se abstrai ou dicotomiza subjetividade e objetividade, determinismo e voluntarismo, materialismo e idealismo, mas vê sempre essas duas dimensões como partes integrantes da totalidade histórica que compõem a realidade.

3. Resumindo:

Essas breves reflexões levam-nos a reafirmar o seguinte:
- Que os Métodos fundamentados na Lógica Formal ou Clássica e o Método Dialético – fundamentado na Lógica Dialética - não são contrários e sim complementares, como instrumentos de busca de conhecimento da realidade e de mediação de sua transformação.
- Que o Método Dialético leva-nos a rejeitar todo tipo de certeza dogmática, de dualismos ou dicotomias, que estão na aparência dos objetos ou fenômenos, tais como: determinismo-voluntarismo, objetivismo-subjetivismo, teoria-prática, materialismo-idealismo, considerando que esses polos são constitutivos necessários da totalidade da realidade, que se caracteriza pelo seu movimento e desenvolvimento constantes, que não se revela de imediato aos homens, exigindo uma análise sempre mais profunda.

- Que Marx e Engels, ao utilizarem o termo “materialismo” em seus estudos, não tomaram
esta palavra no sentido reducionista ou naturalista, que considera a matéria apenas como uma “coisa” dada pela natureza ou não produzida pelo homem” e, portanto, separada do “sujeito”, com seu pensamento, suas idéias, seu espírito.

Por exemplo:
Uma cadeira não é apenas um objeto material, com determinadas propriedades imediatas, visíveis e mensuráveis. Nela está o trabalho teórico e prático da humanidade e, por isso, contem outros atributos que são de natureza não-material – embora sejam atributos reais ou concretos, que não podem ser omitidos ao falar dela. Ela tem um valor de uso e um valor de troca, tem um significado dado a ela pela cultura, tem um sentido para seu dono, que não é o mesmo para outra pessoa. Portanto, conhecer uma cadeira é muito mais do que captar e descrever suas propriedades materiais ou imediatas, como imagina o materialismo vulgar.

- Que o Método Dialético Marxista, como dissemos atrás, é uma Dialética do Concreto para KOSIK (l976). ou uma Filosofia da Práxis”, para GRAMSCI (1979) e VASQUEZ (l977). E que por isso devemos estudar esses autores que atualizaram o pensamento de Marx e Engels e os que continuam atualizando-o através dos tempos.

- Que o Método Dialético Marxista é também uma Teoria do Conhecimento, segundo a qual os homens conhecem o mundo – e a si mesmos - não apenas a partir da sua atividade individual teórica ou especulativa – como o pensa o idealismo - nem da ação direta dos seus órgãos dos sentidos e motores – como imagina o materialismo tradicional ou o empirismo – mas a partir da sua inserção ativa na prática social. Para Marx e Engels, é através das suas atividades – que são sempre de natureza sócio-histórica - que o sujeito se cria como homem e desenvolve seu corpo, suas idéias, seus valores, suas atitudes, condicionadas pela suas possibilidades reais de vida e pelo contexto sócio-histórico onde ele vive.

- Que há uma diferença fundamental entre aceitar como acabadas e definitivas as conclusões de Marx e Engels sobre o que puderam estudar no seu tempo e aceitar o método dialético como uma ferramenta teórica para análise da realidade. Muitas das conclusões de Marx e Engels são hoje refutadas e não há mal nenhum nisso. O conhecimento tem sempre uma validade sócio-histórica. No entanto, o método de estudo utilizado por eles, em nossa opinião, não foi superado – embora possa e deva ser aperfeiçoado - permitindo chegar a resultados totalmente distintos ou mesmo opostos aos que chegaram Marx e Engels. Daí, entendemos que ser marxista é adotar o método dialético, criativamente e chegar às conclusões possíveis num contexto e não congelar as conclusões a que esses estudiosos chegaram no seu tempo.

- Que nenhum método pode ser considerado um instrumento definitivo, ou uma receita plenamente suficiente para se estudar a totalidade da realidade. Esta é sempre mais rica, mais abrangente e disforme, exigindo que atualizemos sempre nossa maneira de atuar frente a ela. Assim, não podemos negar a possibilidade da existência de fenômenos ou realidades que ultrapassam os limites dos instrumentos de conhecimento produzidos até então pela razão, exigindo dos pesquisadores uma mente sempre aberta para incorporar outros saber que são profundos embora considerados não científicos, pela visão Cartesiana que ainda impera em nosso meio. Entendemos que ciência tem que dialogar sempre com as outras linguagens, tais como as da filosofia, das artes, da poesia, da religião e outras, como instrumentos de reflexão e atuação sobre o mundo e o homem.

- Finalmente, que o Marxismo, tal como é comumente conhecido nos meios acadêmico, político, religioso e outras instâncias - que o aceitam ou o rejeitam - precisa ser repensado, sobretudo, no sentido de se expurgar da visão positivista ou Cartesiana que ainda persiste na maioria dos marxistas. Se não fizer isso, ele cairá em descrédito, infelizmente, por uma compreensão dogmatica das teses de Marx que, talvez antevendo o que aconteceria com suas idéias, disse: “ quanto a mim, não sou marxista”.




4. Sugestões para a utilização do Método Dialético Marxista

Henry Lefebvre (1975), dá algumas diretrizes para a aplicação do método dialético marxista:

l. Dirigir-se à raíz da realidade que se pretende conhecer; ser o mais radical possível, sem ser sectário ou dogmático. Não ser radical, neste sentido, é contentar-se em ser superficial, é ficar na aparência dos fatos;

2. Apreender o conjunto das conexões internas da realidade, perceber a relação entre os diversos aspectos que compõem a realidade, superando as tradicionais dicotomias com que, em geral, se analisam os objetos ou fenômenos.

3. Analisar o conflito interno das contradições, o movimento, a tendência, o que tende a permanecer e o que tende a mudar. Se o que move o desenvolvimento são as contradições internas da realidade, não se pode deixar de analisá-las para compreender a natureza desse desenvolvimento.

4 .Captar as transições ou transformações, tanto quantitativas como as qualitativas dos objetos ou fenômenos, as transições dos aspectos e contradições; as passagens de uns aos outros. Para o pensamento dialético quantidade e qualidade não são termos excludentes e sim complementares.

5. Estar atento ao fato de que o processo de aprofundamento de conhecimento – que vai do fenômeno à essência e da essência menos profunda à mais profunda – é infinito. Jamais estar plenamente satisfeito com o obtido;

6. Penetrar mais fundo do que a simples coexistência observada; compreender os processos de desenvolvimento dos objetos e fenômenos, buscando toda a riqueza do seu conteúdo e de suas formas; apreender suas conexões internas e suas relações externas;

7. Saber que em certas fases do próprio pensamento, este deverá se transformar, se superar: modificar ou rejeitar sua forma, remanejar seu conteúdo – retomar seus momentos superados, revê-los, repeti-los, mas apenas aparentemente, com o objetivo de aprofundá-los mediante um passo atrás rumo às suas etapas anteriores e, por vezes, até mesmo rumo ao seu ponto de partida.

5. Algumas utilizações do Método Dialético-Marxista:

- O método dialético-marxista é mais conhecido na área da Política e da Economia
Veja a obra de Marx e Engels intitulada “O Capital Crítica da Economia Política”,
abrangendo 3 volumes.

- Na Filosofia, há um interessante livro de Marx intitulado Textos Filosóficos, contendo a
Idéia Geral do Materialismo Dialético, onde ele deixa clara a utilização do método
dialético como o fio condutor de seus estudos sobre a anatomia da sociedade capitalista.

- Na História, há uma excelente obra de Antonio Gramsci denominada “Concepção
Dialética da História” e outras de autores brasileiros que vão nessa direção.

- Na Física, mais precisamente na Física Quântica, notamos a presença do pensamento que podemos chamar de dialético, quando ele afirma que o universo é fundamentalmente constituído de interligações, de componentes interdependentes , inseparáveis e em movimento constante.

- Na medicina, especialmente na medicina holística e outras similares, pode-se perceber a presença de uma metodologia que se aproxima do método dialético. Os médicos dessa tendência têm comprovado a necessidade de se tratar o homem em sua totalidade e chegaram à conclusão de que a cura de uma doença não se deve apenas à ação do medicamento - que vem de fora – mas da resposta interna favorável do organismo, demonstrando sua predisposição para se curar. Isso significa que o medicamento não causa a cura, por si mesmo ou, independentemente da predisposição interna do organismo. Em resumo, eles partem do princípio de que há um movimento dialético entre os fatores externos e os fatores internos e que uns não podem ser analisados abstraídos dos outros.

- Na Educação, temos vários exemplos de educadores brasileiros, como Paulo Freire, Moacir
Gadotti, Dermeval Saviani, Gaudêncio Frigotto e outros que utilizam o Método Dialético
Marxista na Educação.

- Na Psicologia, destacam-se os estudos de Vigotsky e Leontiev, que utilizaram o método dialético marxista em suas pesquisas sobre o psiquismo humano, revolucionando essa área do conhecimento. Para esses psicólogos o estudo do psiquismo humano não pode ser abstraído das atividades que o indivíduo desenvolve na produção de sua existência e nem do contexto sócio-histórico onde ele vive, que são os formadores de sua identidade, sua personalidade e sua consciência.

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