terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Homem como um Ser feito de “Barro e de Sopro”

** Maurílio Nogueira da Silva

“O homem é feito de barro e de sopro”(Bíblia Sagrada)
“A natureza não se aventurou a criar homens.“O homem é síntese
de múltiplas determinações” (Karl Marx).

Com este pequeno texto pretendemos fazer algumas reflexões sobre as duas citações acima, que tratam da criação do homem, por considerar que elas têm um interessante ponto em comum, no sentido de dizerem que o homem não é apenas um animal mais desenvolvido, como afirmam os materialistas ou evolucionistas mais afoitos, que têm uma visão reducionista do homem. Para a Bíblia, assim como para Marx, o Homem transcende sua natureza animal.

Quanto à frase bíblica segundo a qual o homem é feito de “sopro” e não apenas de “barro”, nossa interpretação é que o “sopro” quer dizer vida e esta não é feita pela natureza. O desenvolvimento da matéria ou da natureza, por si só, não produz a vida, pelo que se sabe. A alma (anima do latim) ou a vida não vem da matéria ou da natureza. Podemos dizer que ela pré-existe ao corpo material como uma planta ou um projeto de uma casa preexiste à casa. Sendo assim, podemos afirmar que na gestação o indivíduo recebe de Deus a “planta ou o projeto do seu ser”, que vai se materializando na genética, na convivência na barriga da mãe e depois nas relações ele que vai tendo com as pessoas e com o mundo. Assim se desenvolve o “eu” do indivíduo, tornando-o um ser único, irrepetível e que transcende seu corpo material.

Sobre a frase do filósofo Karl Marx, dizendo que “a natureza não se aventurou a criar homens e que este é síntese de múltiplas determinações”, parece-me confirmar, de certo modo, a afirmação bíblica acima, segundo a qual o homem vem de uma base inicial que é natureza, mas necessita de algo que vem de fora – ou que não vem da natureza – para se hominizar. Talvez se possa entender que esse elemento que vem de fora sejam as atividades educativas às quais ele se submete desde criança. É nas suas atividades com outros seres humanos que o indivíduo passa a se diferenciar dos demais seres vivos, desenvolve sua natureza humana, constroi seu “eu”, sua consciência e auto-consciência. Os animais também se desenvolvem ou são também educáveis, mas, ao que se sabe, não atingem o pensamento reflexivo, a consciência e muito menos a auto-consciência ou consciência de si. Não têm um “eu” único e irrepetível, como o ser humano. ( Não estou aqui fazendo um juízo moral ou afirmando os animais são inferiores ao homem. Apenas estou dizendo que eles não têm pensamento reflexivo, segundo o que se sabe deles. É verdade que muitas vezes nós homens, com todo nosso potencial, sentimos vergonha dos animais pela maneira como nos comportamos).

Para um melhor entendimento do que estamos afirmando, julgamos necessário explicitar um pouco mais os conceitos de corpo, alma e espírito.

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(*) Este texto tem um formato didático e destina-se estudiosos de filosofia, antropologia, psicologia,
religião e outras áreas afins. Essa é uma versão de set de 2009.
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** Mestre em Psicologia Educacional, UNICAMP, l986.
Professor da Universidade Federal Juiz de Fora- MG - E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br

O corpo é a matéria densa – a natureza, ou o “barro” - do qual é feito o mundo físico. Essa base material, inicialmente inanimada, é a primeira forma de existência do mundo e de tudo que nele habita.

A alma – ou “anima”(do latim)– significa vida e esta se constitui numa nova forma de existência da matéria ( denominada matéria animada). Não há uma explicação científica, pelo menos ainda, para o surgimento da alma, anima ou vida. Segundo os religiosos, a vida vem de Deus. Há ainda muitas lacunas nas explicações darwinianas sobre a origem da vida.

O espírito pode ser concebido como uma alma mais desenvolvida qualitativamente, que permite a construção do “eu” de cada indivíduo, que torna possível sua consciência e auto-consciência. É o espírito que permite ao indivíduo reconhecer a si, transcender sua natureza animal, tornando-o um ser que é parte da natureza, mas, ao mesmo tempo, dela se distancia; um ser que é parte da sociedade humana , mas que tem uma individualidade que o torna único e irrepetível. Por isso, diga-se de passagem, não há possibilidade de se clonar um ser humano. O que se pode fazer é tão somente um corpo semelhante a outro geneticamente, mas não um ser humano igual a outro. Não há possibilidade de se fazer clonagem do espírito, pois isso significaria clonar todas as experiências vividas pelo indivíduo em sua vida, o que é absolutamente impossível .

Em nossa opinião, a maioria das pessoas – e até religiosos e teólogos - toma como sinônimos os conceitos de “alma” e “espírito”. Quase sempre ouvimos referência à alma quando se deveria dizer espírito. É comum ouvirmos dizer que uma pessoa é uma “alma boa”, quando na verdade se deveria dizer “um espírito bom”. A alma é simplesmente a vida e não cabe atribuir a ela qualidades ou juízos de valor. Ou se está vivo ou não se está. Já o espírito tem qualidades. Talvez, por isso, diz a Bíblia que “o que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito”. E que “ o homem tem que nascer de novo”. Dizendo de outro modo, a natureza faz a base física do indivíduo, mas é a sociedade, a cultura onde ele vive, que desenvolve sua hominização, sua individualidade, sua subjetividade ou, em outras palavras, seu espírito, que ele herda de Deus na forma de um projeto ou de uma planta. Mas ele terá que realizar esse projeto em sua vida, juntamente com as pessoas que o cercam.

Comparando o homem com um carro, podemos dizer que seu corpo é a parte física do carro. A alma é o combustível que permite o carro se movimentar - mas não o dirige. O espírito é o motorista do carro, que o dirige, utilizando seu cérebro, os órgãos dos sentidos e os órgãos motores, segundo um treinamento,uma orientação ou educação recebida. O motorista é o que conduz o carro para o destino estabelecido, determina a velocidade e o trajeto a ser percorrido. E sabe o que está fazendo. Sem a interligação feita de carro, combustível e motorista não há viagem. Do mesmo modo, sem a interligação do corpo, com a alma e o espírito não há ser humano.

A concepção do espírito como “motorista” do homem está, de certo modo, presente na filosofia clássica, que se inicia com Aristóteles e Platão e tem em Goethe um dos principais expoentes. Ela parte do princípio de que existe nos seres vivos humanos um corpo vital ou “corpo etérico”, que funciona como modelador ou plasmador do corpo material a partir de suas necessidades.

Platão afirmou que “há três níveis da alma que receberam três moradas diferentes e cada um deles tem seus movimento próprios. O primeiro é a “alma epitimética”, a parte mortal, que apenas recebe influências de fora – e tem a ver com a sensação, o prazer, o desejo. Esta parte está relacionada ao baixo ventre (região metabólica-locomotora) e está intimamente ligada ao corpo, sendo responsável pelos seus movimentos. O segundo nível é a “alma timocrática”. Esta é também mortal, mas recebe impulsos da parte mais nobre do homem - e tem a ver com a coragem, o sentimento, o senso de dever e com o intelecto trivial ou terreno. O terceiro nível da alma é superior e imortal e tem a ver os conhecimentos e a sabedoria humana. Sua função é dirigir os demais níveis.

Esse terceiro nível de” alma imortal” , concebido por Platão, penso que significa o espírito ou o “eu” do indivíduo.– o que dá direção aos movimentos que a alma imprime ao corpo humano. Quando o espírito ou o “eu” do indivíduo vai mal a alma fica sem direção e o corpo sofre as consequências. É o que diz, por exemplo, a medicina antroposófica, que hoje vem ganhando espaço. Segundo ela a origem das doenças está no mal funcionamento do espírito ou do “eu” quando ele não administra bem ou não dirige satisfatoriamente a alma ou a energia que flui pelo corpo do indivíduo, vitalizando-o.

Hoje penso que essas conclusões ou hipóteses acerca do homem e do mundo não opõem a ciência e a religião. Não há problema em admitir-se que por detrás de toda a criação do homem e do mundo e das leis que regem todo esse processo há um Deus ou uma Causa Primeira da qual tudo se origina e que está presente nesse processo. Penso que o saber não pode se fechar na linguagem científica, mas incluir as linguagens da filosofia, da religião, da poesia e todas as demais, entendendo que cada uma cumpre objetivos próprios sem competir entre si. Penso que é tão equivocado tomar a Bíblia como um livro de ciência, quanto tomar um livro de Ciência como se fosse uma Bíblia. São duas linguagens com objetivos distintos que se completam ao falar do homem e do mundo. Nem só de matéria, de racionalidade ou de ciência vive o homem, mas também de espiritualidade, emoções, de poesia, de utopia.

Portanto, penso que as duas frases que abrem esse texto não se contradizem. São duas maneiras de falar que a natureza, por si mesma, não cria o homem. Ele é feito de “barro” ou de natureza e de “sopro” ou espírito.


Bibliografia estudada e sugerida:


1. CANEVACCI, Mássimo. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza, na história e na
cultura. SP. Brasiliense, l981

2.FROMM, Erich. Conceito marxista do Homem. RJ, Zahar, l975.

3.__________. Análise do Homem, RJ. Zahar, l978

4.__________. Ter ou Ser ? RJ. Zahar Editores, l979.

5 .KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das idéias, RJ. Nova Fronteira, l984

6 .LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad, Buenos Aires, Ciencias del
Hombre, l978.

7.___________. O Desenvolvimento do Psiquismo, Lisboa, ed. Novo Horizonte, l975.

8 MARX, Karl. Textos Filosóficos. São Paulo, Martins, Fontes, l975.

9. MAY, Rollo, O Homem à Procura de Si Mesmo. Petrópolis, Vozes, l972.

10. MARQUES, A.(médico antroposófico) Repensar a Ciência. Juiz de Fora, Ed. Eletrônica
Helvética, l996.

11. SILVA, Maurílio Nogueira. A Produção Sócio-Histórica Consciência individual
(Dissertação de Mestrado, UNICAMP, em l986).

12. __________. Método dialético-materialista de conhecimento e de transformação da
realidade. Texto apresentado no Congresso de Pedagogia/2001, em Havana-Cuba, revisado
em 2008.

13. VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente- o Desenvolvimento dos Processos
Psicológicos Superiores. São Paulo, Martins Fontes, l984.


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