sábado, 29 de agosto de 2009

Algumas reflexões sobre a “Dedicação Exclusiva” e a Especialização (texto de 2002)

“Para se atingir o nível de “grande mestre” no xadrez ou na ciência, é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende se “grande mestre”: lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, conversas no bar, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro. É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o “grande mestre”.
( Rubem Alves,Escritor e Educador)

Valendo-me de um pouco mais de tempo livre, permitido por uma licença médica bastante prolongada, tenho produzido, nos últimos anos, alguns pequenos textos sobre temas variados: educação, trabalho, saúde, violência, terrorismo, política, psicologia, ciência, filosofia, religião, poesia etc.

Hoje, resolvi escrever sobre alguns problemas ligados à “Dedicação Exclusiva” e a Especialização, considerando a importância que essa questão tem, sobretudo, para o meio acadêmico.

O que me levou a esse tema são observações mais atentas que tenho feito sobre o Trabalho Humano e sua relação com a qualidade de vida que ele pode nos proporcionar.

Em função de um tratamento médico, iniciado 2001, quando recebi o diagnóstico de um melanoma ( tumor maligno) no olho esquerdo, tenho passado um grande número de horas no ambiente de um hospital. Nesse tempo, quase não faço outra coisa do que observar pessoas doentes e profissionais da saúde lutando pela vida, cada um a partir da sua situação.

Fico olhando o consultório do meu oftalmologista, o mais graduado e um dos fundadores do hospital Hilton Rocha, em Belo Horizonte. Esse médico é uma grande autoridade na área da oftalmologia e posso atestar sua competência. Ele tem “dedicação exclusiva” ao seu trabalho. Dedica-se inteiramente à sua especialidade: tratar de olhos. Olhando a quantidade de gente na sala de espera e o entra e sai de cada um, fico pensando no seu trabalho, no respeito que ele deve ter no seu meio, na quantidade de dinheiro que ele deve ganhar. Mas penso também na sua vida, na sua qualidade de vida. Ele me parece mais velho do que, na verdade deve ser, sua musculatura é bastante flácida, seu tempo livre deve ser pouco ou quase nenhum. Um dia, flaguei-o comendo uma banana, às pressas, quase engolindo-a inteira, no corredor do hospital. Aí pensei cá comigo: que qualidade de vida ele deve ter? Será que ele encontra tempo para uma refeição tranqüila com a família, para um ”papo furado” , uma piada, uma música, uma dança, uma caminhada, um esporte, uma brincadeira com criança ou com gente comum, um namoro, uma ida ao motel, uma viagem de folga (que não seja ida a congressos)? Acho difícil que ele encontre tempo e disposição para essas coisas dos “normais”.

Penso que os que têm uma dedicação exclusiva ou se dedicam de corpo e alma a um trabalho ou uma causa são, sem dúvida, pessoas especiais, merecedoras de todo o respeito e admiração. Mas hoje, tenho também pena dessas pessoas unidimensionais, como diria Marcuse, que se fecham em seu trabalho e fazem dele o seu mundo. Elas correm o risco de saberem cada vez mais de cada vez menos. Elas passam a ter uma vista apurada para explorar sua “especialização”, mas correm o risco de ficarem alheios a tudo que não faça parte de sua área de atuação.

Penso que a vida se parece com um grande teatro, com uma infinidade de papéis. Umas pessoas pegam cedo um papel ou uma atividade e se especializam nele, dedicando-se exclusivamente a ele de corpo e alma. Outras desempenam um papel ou uma atividade, mas não como uma atividade exclusiva. Outras passam a vida experimentando o maior número possível de papéis ou atividades, mas não chegam a se identificar com nenhum deles. O primeiro grupo de pessoas desenvolve ao máximo um talento e se fecham para o mundo. O terceiro grupo não desenvolve talento algum. Passa a vida pulando de um galho para outro. Enquanto isso, o segundo, além de desenvolver um talento especial, vai em busca de novos talentos – mesmo que com menor intensidade – e, desse modo, vive mais a vida em suas múltiplas dimensões. Acho esse grupo mais interessante e me identifico com ele.

Como educador, há quase três décadas, não considero que eu tenha uma especialidade ou um dedicação exclusiva à uma área. Sou mais generalista do que especialista. Dentro do campo da educação – que é bem amplo – pertenço à área das chamadas ciências humanas. Dentro dela, tenho percorrido diversos caminhos. Fiz minha Graduação em Pedagogia, a Pós-graduação em Psicologia Educacional, transitei pela Filosofia da Ciência, Política Educacional e Educação e Trabalho. Quando me perguntam qual é a minha especialidade, não consigo dar uma resposta muito clara. Com o passar dos anos, fui me dedicando a tantas tarefas que não me considero um especialista. Só sei que sou educador. Esta é a minha identidade principal e a ela me dedico de modo especial, embora de modo não tão exclusivo, pois faço também outras coisas. Às vezes, sou músico. Não passo um dia sem tocar um instrumental musical – transitando das cordas, para as teclas e o canto. Também me dedico ao computador, onde escrevo meus textos e troco idéias e brincadeiras com amigos reais e virtuais. Dedico-me, também, atividade política, militando em um partido político. Além disso, leio muito, conto piadas, namoro, ajudo nos trabalhos domésticos da casa, cuido de plantas e animais, sei manejar diversos instrumentos de trabalho, enfim, faço atividades das mais variadas e todas elas me ensinam muito.

Vivendo desse jeito, sem aderir aos rigores da dedicação exclusiva ou à dedicação de corpo e alma a apenas uma atividade, chego à seguinte conclusão: não sou, nem serei um “grande mestre da ciência”. Gasto tempo com “atividades não científicas e consideradas “não sérias”. No entanto, acumulo sabedoria da vida e partilho essa sabedoria com as pessoas com quem troco idéias. Assim vou sendo apenas um aprendiz da vida, confrontando teoria e prática e entrelaçando os vários saberes que a vida me oferece.

Quanto aos “grandes mestres da ciência”, que vivem sob os rigores da dedicação exclusiva , desempenhando apenas uma atividade, penso que eles têm grandes lucros acadêmicos e o ego lustrado no seu meio. Mas concluo, também, que eles têm muitos prejuízos: não têm tempo de buscar o saber da vida em suas multidimensões e, com isso, correm o risco de acabar míopes ou cegos em relação a tudo que não seja sua especialidade. Eles podem ser grandes especialistas, cientistas e até professores, mas não acho que possam ser “grandes mestres em educação”.

Para terminar, sugiro ao leitor que releia o epígrafe de Rubem Alves, com o qual iniciei esse papo e tire suas conclusões.

Maurílio Nogueira da Silva
Jan/2002 E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br

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