sábado, 24 de janeiro de 2009

*O Trabalho e seu papel fundamental na Criação do Homem


** Maurilio Nogueira da Silva

“ Tanto a ciência da Natureza, como a Filosofia, descuidaram inteiramente, até agora, de investigar a influência da Atividade humana sobre o Pensamento. Ambas só consideram a Natureza de um lado e o Pensamento do outro Mas é precisamente a modificação da Natureza pelos homens ( e não a Natureza como tal) o que constitui a base mais imediata do pensamento humano. É à medida em que o homem foi aprendendo a transformar a Natureza que sua Inteligência foi se desenvolvendo” ( Engels, l876 ).

Com esse pequeno texto, pretendemos contribuir para as reflexões sobre a importância do Trabalho na vida do Homem, entendendo que ele é mais do que a fonte de toda a riqueza, podendo ser considerado, num certo sentido, como o Criador do Homem.

O primeiro passo na evolução dos animais até o homem – segundo Engels - deve-se, inicialmente, ao surgimento da mão com funções distintas das dos pés, quando os antepassados do homem atingiram a postura ereta e liberaram as mãos para realizar outras atividades. Embora os macacos tenham chegado a usar as mãos para recolher alimentos e tenham atingindo a postura semi-ereta, é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho durante centena de milhares de anos. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra por mais tosco que fosse.

Ao ficarem livres de serem pés, as mãos adquiriram mais destreza e habilidade e esta maior flexibilidade transmitiu-se por herança de geração em geração. Por isso, pode-se dizer que a mão não é apenas um órgão do trabalho; é também produto dele. Assim, ao se desenvolver, a mão do homem atingiu, pelo trabalho, o grau de perfeição atual e continua a se desenvolver, tornando-se capaz de realizar as obras de arte que hoje nos emocionam.

A partir daí, o aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta, desencadearam mudanças em todo o seu o organismo e no seu psiquismo, permitindo-lhe realizar trabalhos cada vez mais complexos.

Com o desenvolvimento do trabalho surgiu cérebro humano, que supera em tamanho e perfeição o cérebro do macaco mais desenvolvido. E, à medida que se desenvolvia o cérebro humano, desenvolviam-se, também, seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos humanos.

_______

· Texto baseado num artigo (inacabado) de Friedrich Engels: Humanização do Macaco pelo Trabalho, produzido em l876 e publicado na obra Dialética da Natureza, Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

** Mestre em Educação,UNICAMP, Campinas, SP, l986.
Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
O trabalho criou os demais órgãos do homem, inclusive os órgãos responsáveis pela fala., dando origem à linguagem humana.

Assim, com o desenvolvimento do cérebro, dos órgãos dos sentidos e da linguagem foram surgindo a capacidade de abstração e de discernimento, a consciência e as formas de comunicação humanas.

No princípio, atividade do homem limitava-se à busca da sobrevivência imediata, começando pela colheita de alimentos e isso não era trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa realmente com a produção de instrumentos. Os animais podem chegar a utilizar instrumentos, mas não chegam a produzi-los ou modifica-los.

Ao começar a produzir e utilizar conscientemente os instrumentos de trabalho, inicialmente de caça, pesca e armas de ataque e defesa, o homem passou a sofrer modificações profundas em seu modo de vida. Passou da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, incluindo-se a carne. A partir daí sua alimentação passou a oferecer ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. O hábito de combinar a carne com outros alimentos de origem vegetal contribuiu para dar ao homem mais força física. Mas onde a influência da alimentação com a carne mais se manifestou foi no seu cérebro, que recebeu assim uma quantidade muito maior do que antes de proteínas.

O crescente consumo da carne na alimentação teve papel importante na descoberta e o uso do fogo e no surgimento da atividade de domesticação de animais. O primeiro reduziu o processo de digestão, permitindo levar a comida à boca já meio digerida. O segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte de obtê-la de forma mais regular. Apareceu, assim, o trabalho de domesticação de animais para aumentar e facilitar o acesso à carne, ao leite e seus derivados.

Depois de haver aprendido a produzir alimento, não se limitando a comer o que encontrava pronto, o homem aprendeu também a produzir as condições para viver em qualquer clima. De animal que se adapta à natureza, o homem passou a transformar o meio, ajustando-o às suas necessidades. Diante das variações climáticas, o homem foi se preparando, cobrindo o corpo, fazendo habitações, surgindo, assim, novas esferas de trabalho e com elas novas atividades que foram o afastando cada vez mais de seus antepassados animais.

Sempre, graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, propondo-se a alcançar objetivos cada vez mais variados. À caça e à pesca vieram se juntar a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a olaria, o trabalho com metais, a navegação e assim por diante. Aparecem depois os ofícios, o comércio, as artes e as ciências.

Esse desenvolvimento, que começou na antiguidade, pelo trabalho, separando o homem do animal, não cessou de modo algum. Ele continua num grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido às vezes por retrocessos de caráter local e temporário, mas sempre avançando, com suas contradições e impulsionado e orientado em determinado sentido por um novo elemento que surge com o aparecimento do homem acabado: a sociedade.

Como o trabalho é uma atividade eminentemente social, os homens foram criando suas instituições sociais. Das tribos sairam as nações e os estados. Isso levou ao aparecimento do direito e da política, e com eles, do reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião.

Essas criações, originadas das necessidades de organizar a produção material e a vida social como um todo, foram sendo, posteriormente, consideradas produtos do trabalho do cérebro isoladas do trabalho prático e se sobrepondo às produções mais modestas – fruto do trabalho da mão – que ficaram relegadas a segundo plano. A cabeça ou cérebro planejava o trabalho e obrigava mãos alheias a realizá-lo por ela. E os homens foram passando a achar isso muito natural, respaldados por ideologias conservadoras que se serviam de argumentos genéticos, filosóficos e religiosos para justificar a separação entre o trabalho teórico e o prático.

O progresso da civilização passou a ser atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento da atividade do cérebro. Os homens foram sendo levados a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar essa explicação em suas necessidades (refletidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire consciência delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu a concepção idealista do mundo, que dominou o cérebro dos homens, sobretudo, a partir do desaparecimento do mundo antigo e ainda continua a dominá-lo até hoje. Mesmo os materialistas naturalistas da escola darwiniana são incapazes de formar uma idéia clara sobre a origem do homem. Eles foram também influenciados pelo idealismo ao considerarem a matéria ou a natureza, em si mesma, como criadora do homem, não percebendo o papel decisivo desempenhado pelo trabalho na passagem do animal ao homem.

Outro aspecto importante a se considerar aqui é que quanto mais os homens se afastam dos animais, mais seu trabalho sobre a natureza adquire um caráter de uma ação intencional e planejada, buscando alcançar objetivos projetados de antemão.

A ação planificada, conforme observou Engels, existe, em germe, onde quer que o protoplasma – a albumina viva – exista e reaja, isto é, realize determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz não digamos já na célula nervosa, mas inclusive quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas carnívoras se apoderam de sua presa aparece também, de certo modo, como um ato planejado, embora se realize de modo instintivo e totalmente inconsciente. Nos animais superiores, os mamíferos por exemplo, as ações intencionais já apresentam níveis bem mais elevados.

Nos animais domesticados, que chegaram a um grau mais alto de desenvolvimento graças à convivência com o homem podem ser observados diariamente atos de astúcia equiparados aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual ou intelectual da criança representa uma réplica, ainda que mais abreviada do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos. Mas nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pode fazê-lo. O Homem modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, segundo um plano intencional e sua atividade tem um caráter social. Aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, a diferença que, mais uma vez, resulta do Trabalho.

Para lidar com a natureza de modo planificado, homem teve que procurar aprender suas leis e conhecer tanto os efeitos imediatos quanto os efeitos remotos de sua intromissão no curso natural de seu desenvolvimento.

Só que o homem não existe fora da sociedade onde predomina um modo de produção que determina a maneira como os homens devem trabalhar, relacionar entre si e com a natureza. É no interior de determinado modo de produção que surge o trabalho da Educação, visando preparar as gerações do futuro.

Todos os modos de produção que existiram até hoje, infelizmente, enfatizam apenas o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e imediata. Não educam as pessoas para perceberam as consequências remotas, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal.

Posteriormente, todas as formas seguintes de produção mais modernas conduziram à divisão da população em grupos e, mais tarde, em classes diferentes, criando o antagonismo entre a classe dominante e a classe oprimida. Em consequência os interesses da classe dominante converteram-se mais decisivamente no elemento propulsor da produção e da educação. Isso encontra sua expressão mais acabada no modo de produção capitalista. Os capitalistas que dominam a produção e a troca, só podem ocupar-se da utilidade mais imediata dos seus atos. Mais ainda, mesmo essa utilidade – porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada – passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

Por tudo isso, temos que superar a ciência social da burguesia, a economia política clássica, que se ocupa preferentemente daquelas consequências sociais que constituem os objetivos imediatos do trabalho realizado pelos homens na produção e na troca.

Para que seja eliminado esse imediatismo na relação dos homens com a natureza e com seus semelhantes, com todos os resultados negativos que daí advêm, é necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.

Concluindo, afirmamos que a superação do Capitalismo por uma nova ordem social mais justa e democrática é uma condição indispensável – mesmo que não suficiente – para fazer com que o Trabalho seja, de fato, um aliado permanente da Educação e ambos possam criar as condições para o desenvolvimento harmônico do ser humano.

Hoje, apesar dos contratempos e da hegemonia do capital, podemos notar em todo o mundo avanços na direção de uma crítica cada vez mais consistente à ordem social dominante, seguidas de renovadas esperanças de construção de uma nova ordem social. Crescem as lutas dos setores progressistas: partidos identificados com as causas dos trabalhadores e oprimidos em geral, sindicatos, associações, segmentos avançados de igrejas, organizações ligadas às lutas pela reforma agrária, pela preservação do meio ambiente e por um desenvolvimento sustentável, bem como outros tantos movimentos liderados por educadores, cientistas, artistas e intelectuais em geral que lutam pela emancipação humana. Essas atividades, que se desenvolvem em todo o mundo, têm um caráter eminentemente político-educativo. Elas desempenham papel fundamental para a superação da sociedade de classes e a criação de um mundo verdadeiramente democrático, onde o trabalho deixe de ser um fator de exploração e a alienação e passe a ser uma atividade que produz riqueza material e espiritual para todos, cumprindo, assim, seu papel criador do homem em todas as suas dimensões.

Leituras sugeridas:

1. ALVIM, Célia. M. A Natureza Humana e o Conteúdo do Trabalho – Um estudo sobre a crítica
ao projeto de escola profissionalizante de 2º grau ( Dissertação de Mestrado, UFSCar, l986).

2. ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho. São Paulo, Boitempo Editorial, 2000.

3. ENGELS, F. Dialética da Natureza. Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

4._______ A Origem da Família e da Propriedade Privada. São Paulo, Global, l985.

5 FRIGOTTO, Gaudêncio et. alii. Educação e Crise do Trabalho. Petrópolis, Vozes, l998

6. HILTON, R. et alii. A Transição do Feudalismo para o Capitalismo – Um Debate. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, l977.

7. IANNI, Octavio. Dialética e Capitalismo: Ensaio sobre o Pensamento de Marx. Petrópolis,
Vozes, l982.

8. KOVALEV, V. D. A Sociedade Primitiva. São Paulo, Global, l982.

9. LAFARGUE, Paul. O Direito à Preguiça. São Paulo, UCITEC, 2000.

10. LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad. Buenos Aires, Ciencias del
Hombre, l978

11. MARX, K. e ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo, Cortez, l998.

12.NETTO, José Paulo. Democracia e Transição Socialista. Belo Horizonte, Oficina de Livros,
l990

13. NETTO, Antonio J. de M. Globalização do Capital na Agricultura e o Projeto Educativo
do MST. Univ. soc. , Brasília, v. 9, no. 20, set/dez/l999.

14. SIQUEIRA, J. Nas Barricadas do Século: A (des)ordem neoliberal. São Paulo, Anita
Garibaldi, l986.

15. SHNEIDER, R. Trabalho, Capital Alegria. São Paulo, Paulinas, l983.

16. SILVA, Maurilio. O Papel do Trabalho e da Escola no Processo de Produção da
Consciência ( Trabalho apresentado na IV Conferência Brasileira de Educação – CBE, em
Goiânia, l986).

17 _______. O Desenvolvimento das Relações Sociais e a Importância do Trabalho na Vida
do Homem ( Palestra feita para trabalhadores da EMATER-MG, em l987).

18. _______. Desemprego e Desumanização no Capitalismo ( Texto apresentado em Mesa
Redonda sobre Neoliberalismo, Globalização e Desemprego, promovida pelo NEETEC, na
UFJF, em l999).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sobre as transformações das idéias – ou por uma Pedagogia do Diálogo

Maurilio Nogueira*

É muito comum querermos arrancar das pessoas determinadas idéias, pretendendo substituí-las pelas nossas, que julgamos melhores. Equivocadamente, agimos, assim muitas vezes, com a melhor das nossas intenções. Precisamos estar conscientes de que a história não é feita pela nossa vontade individual, independente das condições objetivas em que se vive. As pessoas têm certas idéias em função dessas condições e suas idéias só mudam com a transformação das condições concretas em que vivem. E ainda assim, a mudança das idéias não acontece logo em seguida à mudança das condições materiais de vida. Temos que compreender que as pessoas que não compartilham das mesmas condições de vida que nós, têm idéias muito distintas das nossas e até mesmo contrárias. E defendem essas idéias como corretas. Por isso, nossa luta deve ser a de compreender as pessoas no seu contexto, não nos achando superiores, mas ajudando-as nas transformações de suas condições materiais de vida, sem exigir que elas aceitem, previamente, as idéias que julgamos mais acertadas. Essa atitude é valorizar a subjetividade e a objetividade.

Isso não quer dizer, todavia, que esta é uma questão mecânica ou automática, ou seja, que transformadas as suas condições de vida, as pessoas passarão logo a adotar novas idéias. O que ocorre é que sem as transformações materiais de vida não se mudam as idéias de ninguém, embora as transformações materiais não sejam suficientes. As idéias não são destituídas de força e nem as condições materiais agem por conta própria. Admitir isso, significa cair num determinismo absoluto das condições materiais. O que afirmamos é que as idéias se originam e se desenvolvem sobre uma base material sócio-histórica e a partir dos pares que temos. Esses pares são os nossos significantes, ou aquelas pessoas que nos passam os significados acerca da realidade. Não podemos repetir as práticas dos idealistas ingênuos e nem a dos materialistas tradicionais ou vulgares. Os idealistas acreditam que são as idéias, por si mesmas, que mudam o mundo. Os materialistas tradicionais ou vulgares, ao contrário, negam qualquer valor às idéias e pregam o determinismo absoluto das condições materiais. O pensamento dialético nos leva a compreender que as idéias têm um papel mediador importante nas atividades dos homens, mas elas são produzidas e disseminadas num contexto sócio-histórico e tem que estar aliadas a uma atitude, a uma prática. O evangelista, São Paulo, diz algo semelhante com afirma que “a fé sem obras é morta”. Por isso, temos que conhecer a vida real das pessoas, de onde se originam suas idéias, quem são seus pares ou seus significantes. Isso exige uma pedagogia baseada na compreensão, no diálogo e na paciência. Ninguém impõe uma consciência a ninguém. As pessoas se conscientizam em comunhão, como diz Paulo Freire. Guerrear contra as idéias dos outros, utilizando as armas das nossas idéias, sem levar em conta o contexto do outro e o nosso, não é uma atitude acertada. As idéias que ganham força na vida das pessoas são aquelas que caminham junto com as suas condições concretas de vida. Portanto para mudar as idéias de uma pessoa é necessário ajudá-la a mudar suas condições objetivas de vida. Além disso, é preciso sabermos se estamos certos em querer mudar as idéias do outro e se o outro quer realmente mudar suas idéias. Caso contrário, estaremos perdendo nosso tempo e angariando para nós antipatias e rupturas.

* Maurilio Nogueira da Silva - Prof. da UFJF - E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br
O Homem como um Ser feito de “Barro e de Sopro”

** Maurílio Nogueira da Silva

“O homem é feito de barro e de sopro”(Bíblia Sagrada)
“A natureza não se aventurou a criar homens.“O homem é síntese
de múltiplas determinações” (Karl Marx).

Com este pequeno texto pretendemos fazer algumas reflexões sobre as duas citações acima, que tratam da criação do homem, por considerar que elas têm um interessante ponto em comum, no sentido de dizerem que o homem não é apenas um animal mais desenvolvido, como afirmam os materialistas ou evolucionistas tradicionais.

Quanto à frase bíblica segundo a qual “o homem é feito de barro e sopro”, nos permitimos apenas um reparo. Para nós o que o “sopro” produz não é a alma, como se costuma afirmar, mas o espírito. Hoje a ciência afirma que a vida ou a alma não vem de fora, mas origina-se do desenvolvimento da matéria ou da própria natureza, com suas leis próprias, através das quais a matéria inanimada, em certas condições, chega à condição de matéria animada ou que tem alma. Já o espírito não é obra da natureza. Ele é imaterial e existe – potencialmente - antes da existência do indivíduo, como uma planta de uma casa existe antes da casa construída. Desde o nascimento o indivíduo vai construindo seu ser a partir da planta que recebeu da genética, da convivência na barriga da mãe, das relações que vai tendo com as pessoas e com o mundo. Tudo isso cria e educa o “eu” do indivíduo, produz sua consciência, faz emergir sua espiritualidade, tornando-o um ser que transcende sua animalidade.

Sobre a frase do filósofo Karl Marx, dizendo que “a natureza não se aventurou a criar homens e que este é síntese de múltiplas determinações”, nossa interpretação é que o homem é, inicialmente, parte da natureza e está submetido às leis que a regem, participando do mundo mineral, vegetal e animal. E como todo ser ele tem um corpo que, em certas condições, chega a ter uma alma, tornando-se um ser animado. No entanto, não lhe basta ter corpo e alma. Ele necessita de um espírito e este não lhe é dado pela natureza. É nas suas atividades com outros seres humanos que o indivíduo desenvolve seu espírito e constroi seu “eu” , passa a se diferenciar dos demais seres vivos, tornando-se humano. Os animais são também educados ou educáveis, mas apenas dentro dos limites das suas possibilidades corporais e, sobretudo do seu cérebro. Eles não atingem o pensamento reflexivo, a consciência e muito menos a auto-consciência ou consciência de si. Não têm um “eu” único e irrepetível, como o ser humano.

Para um melhor entendimento do que estamos afirmando, julgamos necessário explicitar um pouco mais os conceitos de corpo, alma e espírito.

O corpo é a matéria prima – a natureza, ou o “barro” - do qual é feito o mundo. Essa base material, inicialmente inanimada, é a primeira forma de existência do mundo e de tudo
__________
(*) Este texto tem um formato didático e destina-se estudiosos de filosofia, antropologia, psicologia,
religião e outras áreas afins. Essa é uma versão de janeiro de 2009.
__________

** Mestre em Psicologia Educacional, UNICAMP, l986.
Professor da Universidade Federal Juiz de Fora- MG - E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
que nele habita. O que vem depois supõe essa base material – o que não quer dizer que vem dela, tal como prega o materialismo vulgar. Por exemplo, a inteligência supõe um cérebro, mas ela não vem do cérebro, como pensam os materialistas vulgares.

A alma – ou “anima”(do latim)– significa a vida e esta se constitui numa nova forma mais desenvolvida que a matéria adquire, em certas condições e por um período de tempo, pois os seres vivos morrem e voltam à condição de seres inanimados. Como diz a Bíblia “ somos pó e ao pó retornaremos”.

O espírito é o “eu” de cada indivíduo, que torna possível sua consciência e auto-consciência. É o espírito que permite ao indivíduo reconhecer a si, transcender sua natureza animal, tornando-o um ser que é parte da natureza, mas, ao mesmo tempo, dela se distancia; um ser que é parte da sociedade humana , mas que tem uma individualidade que o torna único e irrepetível . Por isso, diga-se de passagem, não há possibilidade de se clonar um ser humano. O que se pode fazer é tão somente um corpo semelhante a outro geneticamente, mas não um ser humano igual a outro. Não há possibilidade de se fazer clonagem do espírito, pois isso significaria clonar todas as experiências vividas pelo indivíduo em sua vida, o que é absolutamente impossível.

Em nossa opinião, a maioria das pessoas – e até religiosos e teólogos - toma como sinônimos os conceitos de “alma” e “espírito”. Quase sempre ouvimos referência à alma quando se deveria dizer espírito. É comum ouvirmos dizer que uma pessoa é uma “alma boa”, quando na verdade se deveria dizer “um espírito bom”. A alma é simplesmente a vida e não cabe atribuir a ela qualidades ou juízos de valor. Os estudos da alma ou da vida, a nosso ver, pertencem aos biólogos. Já o espírito não é de natureza material. Seu estudo pertence à psicologia, à teologia e áreas afins, embora não possa ser compreendido abstraído do corpo ou da matéria. Talvez, por isso, diz a Bíblia que “o que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito”. E que “ o homem tem que nascer de novo”. Dizendo de outro modo, a natureza faz a base física do indivíduo, mas é a sociedade, a cultura onde ele vive, que desenvolve sua hominização, sua individualidade, sua subjetividade ou, em outras palavras, seu espírito.

Comparando o homem com um carro, podemos dizer que seu corpo é a parte física do carro. A alma é o combustível que permite o carro se movimentar - mas não o dirige. O espírito é o motorista do carro, que o dirige, utilizando seu cérebro, os órgãos dos sentidos e os órgãos motores, segundo um treinamento,uma orientação ou educação recebida. O motorista é o que conduz o carro para o destino estabelecido, determina a velocidade e o trajeto a ser percorrido. E sabe o que está fazendo. Sem a interligação feita de carro, combustível e motorista não há viagem. Do mesmo modo, sem a interligação do corpo, com a alma e o espírito não há ser humano.

A concepção do espírito como “motorista” do homem está, de certo modo, presente na filosofia clássica, que se inicia com Aristóteles e Platão e tem em Goethe um dos principais expoentes. Ela parte do princípio de que existe nos seres vivos humanos um corpo vital ou “corpo etérico”, que funciona como modelador ou plasmador do corpo material a partir de suas necessidades. Segundo Aristóteles “o corpo é posto em movimento pela alma”. Mas “o homem não possui apenas uma alma, mas também um espírito”. Platão concluiu algo semelhante quando afirmou que “há três níveis da alma que receberam três moradas diferentes e cada um deles tem seus movimento próprios. O primeiro é a “alma epitimética”, a parte mortal, que apenas recebe influências de fora – e tem a ver com a sensação, o prazer, o desejo. Esta parte está relacionada ao baixo ventre (região metabólica-locomotora) e está intimamente ligada ao corpo, sendo responsável pelos seus movimentos. O segundo nível é a “alma timocrática”. Esta é também mortal, mas recebe impulsos da parte mais nobre do homem - e tem a ver com a coragem, o sentimento, o senso de dever e com o intelecto trivial ou terreno. O terceiro nível da alma é superior e imortal e tem a ver os conhecimentos e a sabedoria humana. Sua função é dirigir os demais níveis.

Esse terceiro nível de” alma imortal” , concebido por Platão, penso que significa o espírito ou o “eu” do indivíduo.– o que dá direção aos movimentos que a alma imprime ao corpo humano. Quando o espírito ou o “eu” do indivíduo vai mal a alma fica sem direção e o corpo sofre as consequências. É o que diz, por exemplo, a medicina antroposófica, que hoje vem ganhando espaço. Segundo ela a origem das doenças está no mal funcionamento do espírito ou do “eu” quando ele não administra bem ou não dirige satisfatoriamente a alma ou a energia que flui pelo corpo do indivíduo, vitalizando-o.

Quanto às origens do espírito ou do “eu”, uns acreditam que ele pré-existe ao corpo físico – constituindo um “corpo etérico” ou um “projeto do corpo futuro”, que vai se plasmando, se atualizando ou se encarnando ao longo da vida do indivíduo. Parece-me que esse é o pensamento da filosofia antroposófica, como já dissemos acima, e também da filosofia espírita. Outros acreditam que o espírito vai se construindo na vida do indivíduo, sem um projeto prévio ou como uma “folha em branco”. Ele seria um produto do meio. Eu tendo a ficar , hoje, com a primeira explicação. Cada indivíduo trás, ao nascer, o germe do seu espírito, que é seu verdadeiro “eu”. A sociedade com sua cultura ou sua riqueza material e espiritual cria as condições para que ele se desenvolva. Uma sociedade não se restringe à sua base material, tem também sua riqueza espiritual, da qual o indivíduo se apropria para se “hominizar”. Toda sociedade tem sua concepção de educação, seus valores, costumes e hábitos, que ela transmite aos indivíduos que a compõem. Isso seria a sociedade criando as condições para o surgimento do espírito ou o “eu” dos indivíduos, através da educação na família, da escola, da igreja, do trabalho e outras formas de interação humanas.

Enfim, essas são as reflexões que me propus a fazer sobre a frase “ o homem como um ser feito de barro e de sopro”. Hoje, eu tendo a achar que pode mesmo haver um Deus por detrás de tudo, sem que isso signifique negar a liberdade do homem, as leis da natureza e a Ciência que busca conhecer o homem e o mundo.


Bibliografia estudada e sugerida:


1. CANEVACCI, Mássimo. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza, na história e na
cultura. SP. Brasiliense, l981

2.FROMM, Erich. Conceito marxista do Homem. RJ, Zahar, l975.

3.__________. Análise do Homem, RJ. Zahar, l978

4.__________. Ter ou Ser ? RJ. Zahar Editores, l979.

5 .KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das idéias, RJ. Nova Fronteira, l984

6 .LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad, Buenos Aires, Ciencias del
Hombre, l978.

7.___________. O Desenvolvimento do Psiquismo, Lisboa, ed. Novo Horizonte, l975.

8 MARX, Karl. Textos Filosóficos. São Paulo, Martins, Fontes, l975.

9. MAY, Rollo, O Homem à Procura de Si Mesmo. Petrópolis, Vozes, l972.

10.. MARQUES, A.(médico antroposófico) Repensar a Ciência. Juiz de Fora, Ed. Eletrônica
Helvética, l996.

11. NIETZCHE, Friederich. Assim falava Zaratrustra. São Paulo. Hemus, l977.

12. SILVA, Maurílio Nogueira. A Produção Sócio-Histórica Consciência individual
(Dissertação de Mestrado, UNICAMP, em l986).

13. __________. Método dialético-materialista de conhecimento e de transformação da
realidade. Texto apresentado no Congresso de Pedagogia/2001, em Havana-Cuba, revisado
em 2008.

14. VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente- o Desenvolvimento dos Processos
Psicológicos Superiores. São Paulo, Martins Fontes, l984.


­­­­­­­­­­­­­­­­­­­___________________________________________________________________________