* Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental
**Maurilio Nogueira da Silva
“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.(...) Olhe o caminho com cuidado e atenção. Tente quantas vezes for necessário . Então, faça a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma” (Carlos Castañeda, The Teachings of Don Juan).
A Física Moderna ou Física Quântica, nascida no século XXI, tem exercido uma profunda influência sobre quase todos os aspectos da sociedade humana. Acabou por tornar-se a base da ciência natural, e a combinação da ciência técnica e natural transformou, fundamentalmente, as condições de Vida na Terra, tanto no sentido positivo, quanto no sentido negativo. Isso passou a exigir uma profunda revisão acerca do universo e do relacionamento do indivíduo com este último.
Os fundamentos dessa Física moderna – a teoria quântica e a teoria da relatividade – levam-nos a encarar o mundo de forma bastante semelhante à maneira como um hindu, um budista ou um taoísta o vê.
As raízes da Física, como de toda ciência ocidental, podem ser encontradas no período inicial da filosofia grega do século VI a.C. , numa cultura onde a ciência , a filosofia e a religião não se encontravam separadas. Seu objetivo girava em torno da descoberta da natureza essencial ou da constituição real das coisas, a que denominam “physis”. O termo Física deriva dessa palavra grega e significava, originalmente, a tentativa de ver a natureza essencial de todas as coisas.
Este, naturalmente, é o objetivo central de todos os místicos , e a filosofia da escola de
Mileto possuía feições nitidamente místicas. Os adeptos dessa escola chamados “hilozoístas”, ou seja, “aqueles que pensam que a matéria é viva”. Esta denominação, estabelecida pelos gregos do século subsequentes, derivava do fato de que esses sábios não viam distinção alguma entre o animado e o inanimado, entre o espírito e a matéria. De fato, eles não possuíam sequer uma palavra para designar a matéria na medida que consideram todas as formas de existência como manifestações da physis, dotadas de vida e espiritualidade. Assim, ele declarava que todas as coisas estavam cheias de deuses e Anaximandro encarava o universo como uma espécie de organismo mantido pelo “pneuma”, a respiração cósmica, à semelhança do corpo humano mantido pelo ar.
Heráclito de Éfeso partilhava também de idéias semelhantes. Ele acreditava num mundo orgânico em perpétua mudança, num eterno vir-a-ser. Para ele todo ser estático baseava-se num logro. Para ele o princípio universal do mundo era o fogo, um símbolo para o contínuo fluxo e permanente mudança em todas as coisas. Ele ensinava que todas as transformações no mundo derivam da interação dinâmica dos opostos, vendo qualquer par de opostos como um unidade. A essa unidade, que contém e transcende todas as forças opostas, denominava “logos”.
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· Um resumo do Cap I do Livro O Tao da Física: um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental, de Fritjof Capra, São Paulo, Ed. Cultrix, l983.
**. Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora - E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br
A divisão dessa unidade deu-se a partir da escola eleática que pressupunha um Princípio Divino posicionado acima de todos os deuses e dos homens. Esse princípio foi inicialmente identificado como a unidade do universo; mais tarde, entretanto, passou a ser encarado como um Deus pessoal e inteligente, situado acima do mundo e o dirigindo. Dessa forma , originou-se uma tendência do pensamento responsável, mais tarde, pela separação entre espírito e matéria, gerando o dualismo que se tornou a marca característica da filosofia ocidental.
Um passo decisivo nessa direção foi dado por Parmênides de Ekéia. Em nítida oposição a Heráclito, Parmênides denominava seu princípio básico como o “Ser”, afirmando-o o único e invariável. Considerava impossível a mudança, encarando aquelas que presumimos perceber no mundo como ilusões dos sentidos. O conceito de uma substância indestrutível como sujeito de propriedades diversas originou-se dessa filosofia , vindo mais tarde a tornar-se um dos conceitos fundamentais do pensamento ocidental. No século a V. a. C, os filósofos gregos tentaram superar o agudo contraste entre as visões de Parmênides e Heráclito. Com a finalidade de reconciliar a idéia de um Ser imutável ( de Parmênides) com a de um eterno vir-a-ser ( de Heráclito), partiram do pressuposto de que o Ser acha-se manifesto em determinadas substâncias invariáveis, cuja mistura e separação dá origem às mudanças no mundo. Essa tentativa de reconciliação deu lugar ao conceito de “átomo”, a menor unidade indivisível da matéria, cuja expressão mais clara pode ser encontrada na filosofia de Leucipo e Demócrito. Os atomistas gregos estabeleceram uma linha demarcatória bastante nítida entre espírito e matéria, retratando esta última como sendo formada de inúmeros “blocos básicos de construção” . Tais blocos não passavam de partículas puramente passivas e, intrinsecamente mortas, movendo-se no vácuo. Não era explicada a causa de seu movimento, embora este fosse frequentemente associado a forças externas que se supunham provir de um ser espiritual, sendo fundamentalmente diferentes da matéria. Nos séculos que se seguiram, esta acabou por se tornar um elemento essencial do pensamento ocidental, do dualismo entre mente e matéria, entre alma e corpo.
Essa idéia da divisão entre espírito e matéria ou alma e corpo foi desenvolvendo-se até ser sistematizada e organizada por Aristóteles, nos séculos V e VI a C., passando a constituir-se a base do pensamento ocidental durante aproximadamente dois mil anos. Sustentando essa divisão, Aristóteles acreditava que as questões espirituais eram muito mais valiosas do que as investigações em torno do mundo material.
O desenvolvimento posterior da ciência ocidental teve de aguardar o Renascimento para que os homens começassem a se livrar das influências de Aristóteles e da Igreja que seguia suas idéias, passando a apresentar um novo interesse em torno do estudo da Natureza. No fim do século XV, aparece Galileu, combinando conhecimento empírico com a matemática, o que lhe confere o título de “pai da ciência moderna”
O nascimento da Ciência moderna foi, portanto precedido e acompanhado por um desenvolvimento do pensamento filosófico baseado no dualismo espírito/matéria. Essa formulação veio à tona com a filosofia de René Descartes. Para este filósofo, a visão da natureza derivava de uma divisão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente ( “res cogitans”) e o da matéria ( “res extensa). Essa divisão permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e inteiramente apartado de si mesmos, vendo o mundo material como uma vasta quantidade de objetos reunidos numa máquina de grandes proporções. Essa “visão mecanicista” do universo foi sustentada, posteriormente, por Isaac Newton, que elaborou sua Mecânica, tornando-se o alicerce da Física clássica. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza objeto de pesquisa científica, eram então encaradas com as leis de Deus, ou seja, invariáveis e eternas, às quais o mundo acha-se submetido. Com Descartes, a mente foi separada do corpo, recebendo a tarefa única de controlá-lo, causando assim um conflito entre a vontade consciente e os instintos involuntários. Posteriormente cada indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu talento, seus sentimentos, suas crenças etc., todos engajados em conflitos intermináveis , geradores de constante confusão metafísica e frustração.
Essa fragmentação interna evidencia nossa visão do mundo “exterior” como sendo constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. O ambiente natural é tratado como se constituísse em partes isoladas a serem exploradas por diferentes grupos de interesses.
Em contraste com essa visão dualista e mecanicista ocidental, a visão oriental do mundo é “orgânica”. Para ela, todas as coisas e todos os fatos percebidos pelos sentidos acham-se inter-relacionados , unidos entre si, constituindo tão simplesmente aspectos ou manifestações diversos da mesma realidade última. Os místicos orientais afirmam que essa visão dualista e fragmentada do mundo é uma ilusão proveniente de nossa mente voltada para a mensuração e categorização. Essa tendência e denominada “avidya”( ignorância) na filosofia budista, sendo considerada como o estado de uma mente perturbada que necessita ser superada.
Na visão oriental do mundo a divisão da natureza em objetos separados está longe de ser fundamental e tais objetos possuem um caráter fluido e em eterna mudança. A visão oriental do mundo é, pois intrinsecamente dinâmica, contendo o tempo e a mudança como características fundamentais. O cosmo é visto como um todo inseparável, em eterno movimento, vivo, orgânico, espiritual e material a mesmo tempo.
Sendo o movimento e a mudança propriedades essenciais das coisas, as forças geradoras do movimento não são exteriores aos objetos ( como na visão grega clássica) mas, sendo ao contrário, são uma propriedade intrínseca da matéria. De forma correspondente, a imagem oriental do Divino não é a de um governante que, das alturas, dirige o mundo, mas de um princípio que tudo controla a partir de dentro:
“Aquele que, habitando em todas as coisas, é no entanto, diversos de todas a coisas.
Aquele a quem todas as coisas não conhecem, cujo corpo é feito de todas as coisas.
Aqueles que controla todas as coisas a partir de dentro.
Aquele que é a sua a Alma, o Controlador interior, o Imortal”.(Brihad-aranyaka Upanishad)
Conclusão:
Quanto mais a ciência penetra no mundo microscópico, mais ela compreende a forma pela qual o físico moderno, à semelhança do místico oriental, passa a perceber o mundo como um sistema de componentes inseparáveis, em permanente interação e movimento, sendo o homem parte integrante desse sistema.
sábado, 29 de agosto de 2009
Saúde como equilíbrio psicossomático
* Maurilio Nogueira da Silva
Numa visão mais ampla do que seja a saúde, podemos dizer que estamos saudáveis quando temos um bom equilíbrio psicossomático, ou quando nosso corpo e nossa mente estão em harmonia.
Certas doenças têm início no corpo e reverberam na mente ou na alma. Outras têm início na mente ou na alma e reverberam no corpo. Não há, portanto, doenças físicas ou psíquicas isoladamente e sim doenças psicofísicas ou psicossomáticas.
Os males que têm início no corpo são mais fáceis de serem identificados, suportados e tratados. Os males que se iniciam na mente ou na alma são mais difíceis de serem diagnosticados, suportados e tratados.
Por exemplo, quando quebramos uma perna, quebra-se também o nosso equilíbrio psíquico. A perna quebrada traz consequências para o desenrolar de nossas atividades diárias e isso pode nos levar à tristeza e até à depressão, caracterizando assim um problema psicossomático. Inversamente, um estado de tristeza, pessimismo ou negativismo pode causar a paralisia de uma perna, passando a ser um problema psicossomático.
A medicina tradicional, de tradição positivista e, portanto reducionista, tem a pretensão de diagnosticar e tratar das doenças humanas partindo sempre da premissa de que as doenças sempre começam no corpo, como se este pudesse existir separado da mente ou da alma. E aí está seu grande equívoco. Hoje são bastante conhecidos outros enfoques da medicina, tais como a homeopatia, a medicina holística e a antroposófica que tratam o homem como um todo psicossomático.
Essas correntes de medicina apoiam-se numa filosofia segundo a qual o ser humano se constitui numa totalidade psicossomática, ou seja, seu corpo ou o “soma” existe numa unidade inseparável com sua alma ou a psiquê. Assim, tudo que acontece num desses polos ressoa no outro, tornando mais complexo identificar as causas e mesmo tratar os seus males. Não há como isolar esses polos a não ser no nível da abstração, mas aí se perde o homem como ele é, ou de modo concreto.
Do mesmo modo essa filosofia considera que cada indivíduo não é um átomo isolado do mundo e dos outros indivíduos que o cercam. Existimos sempre em interação com o meio físico e com o meio social. E é nessa interação que vamos sendo o que somos.
Essa filosofia considera também que as leis da natureza são dinâmicas ou dialéticas. Elas se compõem de energia positiva e energia negativa e é essa polaridade que permite seu desenvolvimento. Tudo existe num eterno movimento, possibilitado pela interação das forças contrárias que estão na estrutura contraditória do mundo. Basta olharmos a nossa volta para vermos como isso é verdade: a lâmpada se acende pela interação da energia positiva e a negativa, a planta se desenvolve pela interação do sol e da
_______
* Maurilio Nogueira da Silva, Mestre em Psicologia Educacional, Prof. da UFJF
E Mail nmaurilio@yahoo.com.br
chuva, o seres vivos se multiplicam pela interpenetração do macho e a fêmea e até mesmo o pensamento e as idéias se desenvolvem ao interagirem com outros pensamentos e idéias contrárias ou graças às contradições que vão aparecendo em seu interior.
Nesse sentido, as chamadas ciências naturais já deram grandes passos na direção de compreender como as leis da química, da física, da biologia se manifestam no nosso corpo em sua interação com todo o ecossistema que nos envolve.
Por outro lado, as chamadas ciências humanas e sociais têm apresentado também importantes estudos na área da antropologia, da sociologia, da psicologia, da psiquiatria, da parapsicologia e outras áreas afins, com importantes conclusões sobre a vida humana.
Superando o dualismo corpo-alma, existem hoje importantes estudos que vêm confirmando o fato de que o homem é uma unidade psicossomática, que resulta da interação das forças da natureza ou materiais com as forças sociais e as forças psíquicas ou interiores, que passam a dirigir sua vida.
Assim, as pesquisas científicas apontam, cada vez mais, para a importância de que o homem tome consciência de fazer parte da natureza e do meio sócio-histórico ou cultural onde ele desenvolve seu ser físico e psíquico.
* Maurilio Nogueira da Silva
Numa visão mais ampla do que seja a saúde, podemos dizer que estamos saudáveis quando temos um bom equilíbrio psicossomático, ou quando nosso corpo e nossa mente estão em harmonia.
Certas doenças têm início no corpo e reverberam na mente ou na alma. Outras têm início na mente ou na alma e reverberam no corpo. Não há, portanto, doenças físicas ou psíquicas isoladamente e sim doenças psicofísicas ou psicossomáticas.
Os males que têm início no corpo são mais fáceis de serem identificados, suportados e tratados. Os males que se iniciam na mente ou na alma são mais difíceis de serem diagnosticados, suportados e tratados.
Por exemplo, quando quebramos uma perna, quebra-se também o nosso equilíbrio psíquico. A perna quebrada traz consequências para o desenrolar de nossas atividades diárias e isso pode nos levar à tristeza e até à depressão, caracterizando assim um problema psicossomático. Inversamente, um estado de tristeza, pessimismo ou negativismo pode causar a paralisia de uma perna, passando a ser um problema psicossomático.
A medicina tradicional, de tradição positivista e, portanto reducionista, tem a pretensão de diagnosticar e tratar das doenças humanas partindo sempre da premissa de que as doenças sempre começam no corpo, como se este pudesse existir separado da mente ou da alma. E aí está seu grande equívoco. Hoje são bastante conhecidos outros enfoques da medicina, tais como a homeopatia, a medicina holística e a antroposófica que tratam o homem como um todo psicossomático.
Essas correntes de medicina apoiam-se numa filosofia segundo a qual o ser humano se constitui numa totalidade psicossomática, ou seja, seu corpo ou o “soma” existe numa unidade inseparável com sua alma ou a psiquê. Assim, tudo que acontece num desses polos ressoa no outro, tornando mais complexo identificar as causas e mesmo tratar os seus males. Não há como isolar esses polos a não ser no nível da abstração, mas aí se perde o homem como ele é, ou de modo concreto.
Do mesmo modo essa filosofia considera que cada indivíduo não é um átomo isolado do mundo e dos outros indivíduos que o cercam. Existimos sempre em interação com o meio físico e com o meio social. E é nessa interação que vamos sendo o que somos.
Essa filosofia considera também que as leis da natureza são dinâmicas ou dialéticas. Elas se compõem de energia positiva e energia negativa e é essa polaridade que permite seu desenvolvimento. Tudo existe num eterno movimento, possibilitado pela interação das forças contrárias que estão na estrutura contraditória do mundo. Basta olharmos a nossa volta para vermos como isso é verdade: a lâmpada se acende pela interação da energia positiva e a negativa, a planta se desenvolve pela interação do sol e da
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* Maurilio Nogueira da Silva, Mestre em Psicologia Educacional, Prof. da UFJF
E Mail nmaurilio@yahoo.com.br
chuva, o seres vivos se multiplicam pela interpenetração do macho e a fêmea e até mesmo o pensamento e as idéias se desenvolvem ao interagirem com outros pensamentos e idéias contrárias ou graças às contradições que vão aparecendo em seu interior.
Nesse sentido, as chamadas ciências naturais já deram grandes passos na direção de compreender como as leis da química, da física, da biologia se manifestam no nosso corpo em sua interação com todo o ecossistema que nos envolve.
Por outro lado, as chamadas ciências humanas e sociais têm apresentado também importantes estudos na área da antropologia, da sociologia, da psicologia, da psiquiatria, da parapsicologia e outras áreas afins, com importantes conclusões sobre a vida humana.
Superando o dualismo corpo-alma, existem hoje importantes estudos que vêm confirmando o fato de que o homem é uma unidade psicossomática, que resulta da interação das forças da natureza ou materiais com as forças sociais e as forças psíquicas ou interiores, que passam a dirigir sua vida.
Assim, as pesquisas científicas apontam, cada vez mais, para a importância de que o homem tome consciência de fazer parte da natureza e do meio sócio-histórico ou cultural onde ele desenvolve seu ser físico e psíquico.
Morrer é preciso
Num artigo muito interessante, Paulo Angelim, que é arquiteto, pós-graduado em marketing, dizia mais ou menos o seguinte:
Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas a ausência de vida e isso é um erro
Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todo dia
A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação.
Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião
sem a morte do óvulo
e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio
A morte nada mais é que o ponto de partida para o início da fronteira
entre o passado e o futuro
Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente
Quer ser um bom profissional?Então mate dentro de você
o universitário descomprometido que acha que a vida se resume
a estudar só o suficiente para fazer as provas
Quer ter um bom relacionamento?Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta ou o solteiro solto que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projeto e tempo com mais
Quer ter boas amizades?
Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de tentar manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos
Enfim todo processo de evolução exige que matemos o nosso "eu" passado, inferior
E qual o risco de não agirmos assim?O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo essa produtividade, e, por fim prejudicando nosso sucesso
Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser
Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam
Acabam se transformando em projetos acabados, híbridos, adultos infantilizados
Podemos até agir, às vezes, como meninos, de tal forma que não mantemos as virtudes de criança
que também são necessários anos,
adultos, como: brincadeira, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância etc.
Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes
infantis, para passarmos a agir como adultos
Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga)
melhor e evoluído?
Então, o que você precisa matar em si, ainda hoje, é o "egoísmo" é o "egocentrismo", para que nasça o ser que você tanto deseja ser
O valor das coisas não está no tempo em
que elas duram, mas na intensidade
com que acontecem
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis
Pense nisso e morra.
Mas, não esqueça de nascer melhor ainda
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Maurilio Nogueira da Silva
Num artigo muito interessante, Paulo Angelim, que é arquiteto, pós-graduado em marketing, dizia mais ou menos o seguinte:
Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas a ausência de vida e isso é um erro
Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todo dia
A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação.
Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião
sem a morte do óvulo
e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio
A morte nada mais é que o ponto de partida para o início da fronteira
entre o passado e o futuro
Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente
Quer ser um bom profissional?Então mate dentro de você
o universitário descomprometido que acha que a vida se resume
a estudar só o suficiente para fazer as provas
Quer ter um bom relacionamento?Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta ou o solteiro solto que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projeto e tempo com mais
Quer ter boas amizades?
Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de tentar manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos
Enfim todo processo de evolução exige que matemos o nosso "eu" passado, inferior
E qual o risco de não agirmos assim?O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo essa produtividade, e, por fim prejudicando nosso sucesso
Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser
Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam
Acabam se transformando em projetos acabados, híbridos, adultos infantilizados
Podemos até agir, às vezes, como meninos, de tal forma que não mantemos as virtudes de criança
que também são necessários anos,
adultos, como: brincadeira, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância etc.
Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes
infantis, para passarmos a agir como adultos
Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga)
melhor e evoluído?
Então, o que você precisa matar em si, ainda hoje, é o "egoísmo" é o "egocentrismo", para que nasça o ser que você tanto deseja ser
O valor das coisas não está no tempo em
que elas duram, mas na intensidade
com que acontecem
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis
Pense nisso e morra.
Mas, não esqueça de nascer melhor ainda
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Maurilio Nogueira da Silva
Algumas reflexões sobre a “Dedicação Exclusiva” e a Especialização (texto de 2002)
“Para se atingir o nível de “grande mestre” no xadrez ou na ciência, é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende se “grande mestre”: lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, conversas no bar, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro. É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o “grande mestre”.
( Rubem Alves,Escritor e Educador)
Valendo-me de um pouco mais de tempo livre, permitido por uma licença médica bastante prolongada, tenho produzido, nos últimos anos, alguns pequenos textos sobre temas variados: educação, trabalho, saúde, violência, terrorismo, política, psicologia, ciência, filosofia, religião, poesia etc.
Hoje, resolvi escrever sobre alguns problemas ligados à “Dedicação Exclusiva” e a Especialização, considerando a importância que essa questão tem, sobretudo, para o meio acadêmico.
O que me levou a esse tema são observações mais atentas que tenho feito sobre o Trabalho Humano e sua relação com a qualidade de vida que ele pode nos proporcionar.
Em função de um tratamento médico, iniciado 2001, quando recebi o diagnóstico de um melanoma ( tumor maligno) no olho esquerdo, tenho passado um grande número de horas no ambiente de um hospital. Nesse tempo, quase não faço outra coisa do que observar pessoas doentes e profissionais da saúde lutando pela vida, cada um a partir da sua situação.
Fico olhando o consultório do meu oftalmologista, o mais graduado e um dos fundadores do hospital Hilton Rocha, em Belo Horizonte. Esse médico é uma grande autoridade na área da oftalmologia e posso atestar sua competência. Ele tem “dedicação exclusiva” ao seu trabalho. Dedica-se inteiramente à sua especialidade: tratar de olhos. Olhando a quantidade de gente na sala de espera e o entra e sai de cada um, fico pensando no seu trabalho, no respeito que ele deve ter no seu meio, na quantidade de dinheiro que ele deve ganhar. Mas penso também na sua vida, na sua qualidade de vida. Ele me parece mais velho do que, na verdade deve ser, sua musculatura é bastante flácida, seu tempo livre deve ser pouco ou quase nenhum. Um dia, flaguei-o comendo uma banana, às pressas, quase engolindo-a inteira, no corredor do hospital. Aí pensei cá comigo: que qualidade de vida ele deve ter? Será que ele encontra tempo para uma refeição tranqüila com a família, para um ”papo furado” , uma piada, uma música, uma dança, uma caminhada, um esporte, uma brincadeira com criança ou com gente comum, um namoro, uma ida ao motel, uma viagem de folga (que não seja ida a congressos)? Acho difícil que ele encontre tempo e disposição para essas coisas dos “normais”.
Penso que os que têm uma dedicação exclusiva ou se dedicam de corpo e alma a um trabalho ou uma causa são, sem dúvida, pessoas especiais, merecedoras de todo o respeito e admiração. Mas hoje, tenho também pena dessas pessoas unidimensionais, como diria Marcuse, que se fecham em seu trabalho e fazem dele o seu mundo. Elas correm o risco de saberem cada vez mais de cada vez menos. Elas passam a ter uma vista apurada para explorar sua “especialização”, mas correm o risco de ficarem alheios a tudo que não faça parte de sua área de atuação.
Penso que a vida se parece com um grande teatro, com uma infinidade de papéis. Umas pessoas pegam cedo um papel ou uma atividade e se especializam nele, dedicando-se exclusivamente a ele de corpo e alma. Outras desempenam um papel ou uma atividade, mas não como uma atividade exclusiva. Outras passam a vida experimentando o maior número possível de papéis ou atividades, mas não chegam a se identificar com nenhum deles. O primeiro grupo de pessoas desenvolve ao máximo um talento e se fecham para o mundo. O terceiro grupo não desenvolve talento algum. Passa a vida pulando de um galho para outro. Enquanto isso, o segundo, além de desenvolver um talento especial, vai em busca de novos talentos – mesmo que com menor intensidade – e, desse modo, vive mais a vida em suas múltiplas dimensões. Acho esse grupo mais interessante e me identifico com ele.
Como educador, há quase três décadas, não considero que eu tenha uma especialidade ou um dedicação exclusiva à uma área. Sou mais generalista do que especialista. Dentro do campo da educação – que é bem amplo – pertenço à área das chamadas ciências humanas. Dentro dela, tenho percorrido diversos caminhos. Fiz minha Graduação em Pedagogia, a Pós-graduação em Psicologia Educacional, transitei pela Filosofia da Ciência, Política Educacional e Educação e Trabalho. Quando me perguntam qual é a minha especialidade, não consigo dar uma resposta muito clara. Com o passar dos anos, fui me dedicando a tantas tarefas que não me considero um especialista. Só sei que sou educador. Esta é a minha identidade principal e a ela me dedico de modo especial, embora de modo não tão exclusivo, pois faço também outras coisas. Às vezes, sou músico. Não passo um dia sem tocar um instrumental musical – transitando das cordas, para as teclas e o canto. Também me dedico ao computador, onde escrevo meus textos e troco idéias e brincadeiras com amigos reais e virtuais. Dedico-me, também, atividade política, militando em um partido político. Além disso, leio muito, conto piadas, namoro, ajudo nos trabalhos domésticos da casa, cuido de plantas e animais, sei manejar diversos instrumentos de trabalho, enfim, faço atividades das mais variadas e todas elas me ensinam muito.
Vivendo desse jeito, sem aderir aos rigores da dedicação exclusiva ou à dedicação de corpo e alma a apenas uma atividade, chego à seguinte conclusão: não sou, nem serei um “grande mestre da ciência”. Gasto tempo com “atividades não científicas e consideradas “não sérias”. No entanto, acumulo sabedoria da vida e partilho essa sabedoria com as pessoas com quem troco idéias. Assim vou sendo apenas um aprendiz da vida, confrontando teoria e prática e entrelaçando os vários saberes que a vida me oferece.
Quanto aos “grandes mestres da ciência”, que vivem sob os rigores da dedicação exclusiva , desempenhando apenas uma atividade, penso que eles têm grandes lucros acadêmicos e o ego lustrado no seu meio. Mas concluo, também, que eles têm muitos prejuízos: não têm tempo de buscar o saber da vida em suas multidimensões e, com isso, correm o risco de acabar míopes ou cegos em relação a tudo que não seja sua especialidade. Eles podem ser grandes especialistas, cientistas e até professores, mas não acho que possam ser “grandes mestres em educação”.
Para terminar, sugiro ao leitor que releia o epígrafe de Rubem Alves, com o qual iniciei esse papo e tire suas conclusões.
Maurílio Nogueira da Silva
Jan/2002 E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br
“Para se atingir o nível de “grande mestre” no xadrez ou na ciência, é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende se “grande mestre”: lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, conversas no bar, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro. É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o “grande mestre”.
( Rubem Alves,Escritor e Educador)
Valendo-me de um pouco mais de tempo livre, permitido por uma licença médica bastante prolongada, tenho produzido, nos últimos anos, alguns pequenos textos sobre temas variados: educação, trabalho, saúde, violência, terrorismo, política, psicologia, ciência, filosofia, religião, poesia etc.
Hoje, resolvi escrever sobre alguns problemas ligados à “Dedicação Exclusiva” e a Especialização, considerando a importância que essa questão tem, sobretudo, para o meio acadêmico.
O que me levou a esse tema são observações mais atentas que tenho feito sobre o Trabalho Humano e sua relação com a qualidade de vida que ele pode nos proporcionar.
Em função de um tratamento médico, iniciado 2001, quando recebi o diagnóstico de um melanoma ( tumor maligno) no olho esquerdo, tenho passado um grande número de horas no ambiente de um hospital. Nesse tempo, quase não faço outra coisa do que observar pessoas doentes e profissionais da saúde lutando pela vida, cada um a partir da sua situação.
Fico olhando o consultório do meu oftalmologista, o mais graduado e um dos fundadores do hospital Hilton Rocha, em Belo Horizonte. Esse médico é uma grande autoridade na área da oftalmologia e posso atestar sua competência. Ele tem “dedicação exclusiva” ao seu trabalho. Dedica-se inteiramente à sua especialidade: tratar de olhos. Olhando a quantidade de gente na sala de espera e o entra e sai de cada um, fico pensando no seu trabalho, no respeito que ele deve ter no seu meio, na quantidade de dinheiro que ele deve ganhar. Mas penso também na sua vida, na sua qualidade de vida. Ele me parece mais velho do que, na verdade deve ser, sua musculatura é bastante flácida, seu tempo livre deve ser pouco ou quase nenhum. Um dia, flaguei-o comendo uma banana, às pressas, quase engolindo-a inteira, no corredor do hospital. Aí pensei cá comigo: que qualidade de vida ele deve ter? Será que ele encontra tempo para uma refeição tranqüila com a família, para um ”papo furado” , uma piada, uma música, uma dança, uma caminhada, um esporte, uma brincadeira com criança ou com gente comum, um namoro, uma ida ao motel, uma viagem de folga (que não seja ida a congressos)? Acho difícil que ele encontre tempo e disposição para essas coisas dos “normais”.
Penso que os que têm uma dedicação exclusiva ou se dedicam de corpo e alma a um trabalho ou uma causa são, sem dúvida, pessoas especiais, merecedoras de todo o respeito e admiração. Mas hoje, tenho também pena dessas pessoas unidimensionais, como diria Marcuse, que se fecham em seu trabalho e fazem dele o seu mundo. Elas correm o risco de saberem cada vez mais de cada vez menos. Elas passam a ter uma vista apurada para explorar sua “especialização”, mas correm o risco de ficarem alheios a tudo que não faça parte de sua área de atuação.
Penso que a vida se parece com um grande teatro, com uma infinidade de papéis. Umas pessoas pegam cedo um papel ou uma atividade e se especializam nele, dedicando-se exclusivamente a ele de corpo e alma. Outras desempenam um papel ou uma atividade, mas não como uma atividade exclusiva. Outras passam a vida experimentando o maior número possível de papéis ou atividades, mas não chegam a se identificar com nenhum deles. O primeiro grupo de pessoas desenvolve ao máximo um talento e se fecham para o mundo. O terceiro grupo não desenvolve talento algum. Passa a vida pulando de um galho para outro. Enquanto isso, o segundo, além de desenvolver um talento especial, vai em busca de novos talentos – mesmo que com menor intensidade – e, desse modo, vive mais a vida em suas múltiplas dimensões. Acho esse grupo mais interessante e me identifico com ele.
Como educador, há quase três décadas, não considero que eu tenha uma especialidade ou um dedicação exclusiva à uma área. Sou mais generalista do que especialista. Dentro do campo da educação – que é bem amplo – pertenço à área das chamadas ciências humanas. Dentro dela, tenho percorrido diversos caminhos. Fiz minha Graduação em Pedagogia, a Pós-graduação em Psicologia Educacional, transitei pela Filosofia da Ciência, Política Educacional e Educação e Trabalho. Quando me perguntam qual é a minha especialidade, não consigo dar uma resposta muito clara. Com o passar dos anos, fui me dedicando a tantas tarefas que não me considero um especialista. Só sei que sou educador. Esta é a minha identidade principal e a ela me dedico de modo especial, embora de modo não tão exclusivo, pois faço também outras coisas. Às vezes, sou músico. Não passo um dia sem tocar um instrumental musical – transitando das cordas, para as teclas e o canto. Também me dedico ao computador, onde escrevo meus textos e troco idéias e brincadeiras com amigos reais e virtuais. Dedico-me, também, atividade política, militando em um partido político. Além disso, leio muito, conto piadas, namoro, ajudo nos trabalhos domésticos da casa, cuido de plantas e animais, sei manejar diversos instrumentos de trabalho, enfim, faço atividades das mais variadas e todas elas me ensinam muito.
Vivendo desse jeito, sem aderir aos rigores da dedicação exclusiva ou à dedicação de corpo e alma a apenas uma atividade, chego à seguinte conclusão: não sou, nem serei um “grande mestre da ciência”. Gasto tempo com “atividades não científicas e consideradas “não sérias”. No entanto, acumulo sabedoria da vida e partilho essa sabedoria com as pessoas com quem troco idéias. Assim vou sendo apenas um aprendiz da vida, confrontando teoria e prática e entrelaçando os vários saberes que a vida me oferece.
Quanto aos “grandes mestres da ciência”, que vivem sob os rigores da dedicação exclusiva , desempenhando apenas uma atividade, penso que eles têm grandes lucros acadêmicos e o ego lustrado no seu meio. Mas concluo, também, que eles têm muitos prejuízos: não têm tempo de buscar o saber da vida em suas multidimensões e, com isso, correm o risco de acabar míopes ou cegos em relação a tudo que não seja sua especialidade. Eles podem ser grandes especialistas, cientistas e até professores, mas não acho que possam ser “grandes mestres em educação”.
Para terminar, sugiro ao leitor que releia o epígrafe de Rubem Alves, com o qual iniciei esse papo e tire suas conclusões.
Maurílio Nogueira da Silva
Jan/2002 E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br
Algumas reflexões em torno da palavra Ruptura
Maurilio Nogueira da Silva *
A vida constitui-se de sucessivas e inevitáveis rupturas. Cada ser humano começa a existir no útero da mãe graças à ruptura do hímen que permite a passagem da semente do homem para dentro da mulher. A seguir essa semente fecundada vai sofrendo sucessivas rupturas e bipartições e assim vamos sendo feitos de ruptura em ruptura. Ao nascermos fazemos a ruptura com o cordão umbilical nos liga mãe . Mais tarde, rompemos com nossa família, nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado, nosso país, nosso continente e alguns chegam a romper até mesmo com o planeta e buscam viver em outros mundos. Nem mesmo os vegetais escapam a essa sucessão de rupturas. Se a semente não sofrer uma ruptura, abrindo-se para deixar sair o broto, não se transformara numa nova planta. E se a planta não romper com a terra que lhe cobre não continuará viva.
E assim, toda a vida é uma sucessão de rupturas. Rompemos com amizades, rompemos com namoros casamentos, rompemos com empregos, rompemos com estilos de vida, rompemos com idéias e crenças, sempre que estes se tornam inadequados à nossa caminhada pela vida.
Por mais que se tente evitar as rupturas chega a hora dela com todas as suas consequências. Impérios e modelos de sociedades que pareciam eternos, ao acumularem contradições, sofrem rupturas e dão lugar a outros que lhes sucedem. É a lei da vida.
____________
*Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
Maurilio Nogueira da Silva *
A vida constitui-se de sucessivas e inevitáveis rupturas. Cada ser humano começa a existir no útero da mãe graças à ruptura do hímen que permite a passagem da semente do homem para dentro da mulher. A seguir essa semente fecundada vai sofrendo sucessivas rupturas e bipartições e assim vamos sendo feitos de ruptura em ruptura. Ao nascermos fazemos a ruptura com o cordão umbilical nos liga mãe . Mais tarde, rompemos com nossa família, nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado, nosso país, nosso continente e alguns chegam a romper até mesmo com o planeta e buscam viver em outros mundos. Nem mesmo os vegetais escapam a essa sucessão de rupturas. Se a semente não sofrer uma ruptura, abrindo-se para deixar sair o broto, não se transformara numa nova planta. E se a planta não romper com a terra que lhe cobre não continuará viva.
E assim, toda a vida é uma sucessão de rupturas. Rompemos com amizades, rompemos com namoros casamentos, rompemos com empregos, rompemos com estilos de vida, rompemos com idéias e crenças, sempre que estes se tornam inadequados à nossa caminhada pela vida.
Por mais que se tente evitar as rupturas chega a hora dela com todas as suas consequências. Impérios e modelos de sociedades que pareciam eternos, ao acumularem contradições, sofrem rupturas e dão lugar a outros que lhes sucedem. É a lei da vida.
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*Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
Sobre as transformações das idéias – ou por uma Pedagogia do Diálogo
Maurilio Nogueira*
É muito comum querermos arrancar das pessoas determinadas idéias, pretendendo substituí-las pelas nossas, que julgamos melhores. Equivocadamente, agimos, assim muitas vezes, com a melhor das nossas intenções. Precisamos estar conscientes de que a história não é feita pela nossa vontade individual, independente das condições objetivas em que se vive.
As pessoas têm certas idéias em função de suas condições de vida e suas idéias só mudam com a transformação dessas condições. E ainda assim, a mudança das idéias não acontece logo em seguida à mudança das condições materiais de vida. Temos que compreender que as pessoas que não compartilham das mesmas condições de vida que nós, têm idéias muito distintas das nossas e até mesmo contrárias. E defendem essas idéias como corretas. Por isso, nossa luta deve ser a de compreender as pessoas no seu contexto, não nos achando perfeitos, mas ajudando-as nas transformações de suas condições de vida, sem exigir que elas aceitem, previamente e passivamente, as idéias que julgamos mais acertadas. Essa atitude é valorizar a subjetividade e a objetividade.
Isso não quer dizer, todavia, que esta é uma questão mecânica ou automática, ou seja, que transformadas as suas condições de vida, as pessoas passarão logo a adotar novas idéias. O que ocorre é que sem as transformações materiais de vida não se mudam as idéias de ninguém, embora as transformações materiais não sejam suficientes. As idéias não são destituídas de força e nem as condições materiais agem por conta própria. Admitir isso, significa cair num determinismo absoluto das condições materiais. O que afirmamos é que as idéias se originam e se desenvolvem sobre uma base material sócio-histórica e a partir dos pares que temos. Esses pares são os nossos significantes, ou aquelas pessoas que nos passam os significados acerca da realidade.
Não podemos repetir as práticas dos idealistas ingênuos e nem a dos materialistas tradicionais ou vulgares. Os idealistas acreditam que são as idéias, por si mesmas, que mudam o mundo. Os materialistas tradicionais ou vulgares, ao contrário, negam qualquer valor às idéias e pregam o determinismo absoluto das condições materiais.
O pensamento dialético nos leva a compreender que as idéias têm um papel mediador importante nas atividades dos homens, mas elas são produzidas e disseminadas num contexto sócio-histórico e quase sempre não podem ser transplantadas para outro contexto sem os devidos ajustes, feitos com atitudes práticas Para conhecermos as idéias das pessoas, temos que conhecer sua vida real, de onde se originam suas idéias, quem são seus pares ou seus significantes. Isso exige uma pedagogia baseada na compreensão, no diálogo e na paciência. Ninguém impõe uma consciência a ninguém. As pessoas se conscientizam em comunhão, como diz Paulo Freire. Guerrear contra as idéias dos outros, utilizando as armas das nossas idéias, sem levar em conta o contexto do outro e o nosso, não é uma atitude acertada. As idéias que ganham força na vida das pessoas são aquelas que caminham junto com as suas condições concretas de vida. Portanto para mudar as idéias de uma pessoa é necessário ajudá-la a mudar suas condições objetivas de vida. Além disso, é preciso sabermos se estamos certos em querer mudar as idéias do outro e se o outro quer realmente mudar suas idéias. Caso contrário, estaremos perdendo nosso tempo e angariando para nós antipatias e rupturas.
* Maurilio Nogueira da Silva - Prof. da UFJF - E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br
Maurilio Nogueira*
É muito comum querermos arrancar das pessoas determinadas idéias, pretendendo substituí-las pelas nossas, que julgamos melhores. Equivocadamente, agimos, assim muitas vezes, com a melhor das nossas intenções. Precisamos estar conscientes de que a história não é feita pela nossa vontade individual, independente das condições objetivas em que se vive.
As pessoas têm certas idéias em função de suas condições de vida e suas idéias só mudam com a transformação dessas condições. E ainda assim, a mudança das idéias não acontece logo em seguida à mudança das condições materiais de vida. Temos que compreender que as pessoas que não compartilham das mesmas condições de vida que nós, têm idéias muito distintas das nossas e até mesmo contrárias. E defendem essas idéias como corretas. Por isso, nossa luta deve ser a de compreender as pessoas no seu contexto, não nos achando perfeitos, mas ajudando-as nas transformações de suas condições de vida, sem exigir que elas aceitem, previamente e passivamente, as idéias que julgamos mais acertadas. Essa atitude é valorizar a subjetividade e a objetividade.
Isso não quer dizer, todavia, que esta é uma questão mecânica ou automática, ou seja, que transformadas as suas condições de vida, as pessoas passarão logo a adotar novas idéias. O que ocorre é que sem as transformações materiais de vida não se mudam as idéias de ninguém, embora as transformações materiais não sejam suficientes. As idéias não são destituídas de força e nem as condições materiais agem por conta própria. Admitir isso, significa cair num determinismo absoluto das condições materiais. O que afirmamos é que as idéias se originam e se desenvolvem sobre uma base material sócio-histórica e a partir dos pares que temos. Esses pares são os nossos significantes, ou aquelas pessoas que nos passam os significados acerca da realidade.
Não podemos repetir as práticas dos idealistas ingênuos e nem a dos materialistas tradicionais ou vulgares. Os idealistas acreditam que são as idéias, por si mesmas, que mudam o mundo. Os materialistas tradicionais ou vulgares, ao contrário, negam qualquer valor às idéias e pregam o determinismo absoluto das condições materiais.
O pensamento dialético nos leva a compreender que as idéias têm um papel mediador importante nas atividades dos homens, mas elas são produzidas e disseminadas num contexto sócio-histórico e quase sempre não podem ser transplantadas para outro contexto sem os devidos ajustes, feitos com atitudes práticas Para conhecermos as idéias das pessoas, temos que conhecer sua vida real, de onde se originam suas idéias, quem são seus pares ou seus significantes. Isso exige uma pedagogia baseada na compreensão, no diálogo e na paciência. Ninguém impõe uma consciência a ninguém. As pessoas se conscientizam em comunhão, como diz Paulo Freire. Guerrear contra as idéias dos outros, utilizando as armas das nossas idéias, sem levar em conta o contexto do outro e o nosso, não é uma atitude acertada. As idéias que ganham força na vida das pessoas são aquelas que caminham junto com as suas condições concretas de vida. Portanto para mudar as idéias de uma pessoa é necessário ajudá-la a mudar suas condições objetivas de vida. Além disso, é preciso sabermos se estamos certos em querer mudar as idéias do outro e se o outro quer realmente mudar suas idéias. Caso contrário, estaremos perdendo nosso tempo e angariando para nós antipatias e rupturas.
* Maurilio Nogueira da Silva - Prof. da UFJF - E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Paranoia?
Paranóia?
Maurílio Nogueira
Minha casa é uma cadeia. Aliás, estamos todos presos. Meu molho de chaves tá cada vez mais pesado.
Quero portas abertas, janelas sem grades, um quintal sem muros.
A rua é lugar do medo.
Medo dos mal-encarados, medo dos bem-encarados, medo de crianças com cara de trombadinhas, medo de mendigos, medo dos homens de terno e gravata, medo da polícia, medo dos políticos, medo dos trambiques que vêm de todo os lugares, medo dos seqüestros.
Medo de abrir meus e.mails, medo de pegar virus no computador, no hospital, na escola, no ônibus, na rua.
Medo dos carros, medo das motos.
Medo de ataque cardíaco, de câncer, de overdose e efeitos colaterais de medicamentos, medo de álcool, de fumaça, de drogas legítimas e ilegítimas.
Medo da cidade grande, medo da cidade pequena, medo da roça.
Não tenho mais para onde fugir.
Agora, com a gripe suína, tudo fu.
Não posso ir à escola, não posso ir a festas, não posso estar na multidão, não posso ir nem ao motel, tudo tá contaminado. Tudo tá dominado.
Que mundo, seu Raimundo! Que penico, seu Mundico! Que cocô, seu dotô! Botaram merda no meu ventilador.
Quero sair deste atoleiro, desta areia movediça, deste fundo de poço.
“Pousou uma mosca na minha sopa. E não adianta detetizar, por que cê mata uma e vem outra no lugar.”
“Minha piscina tá cheia de ratos. As idéias da burguesia não batem com os fatos.”
“Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. Dança na corda bamba de sombrinha. Em cada passo dessa linha pode se machucar... A esperança é equilibrista. Sabe que o show de todo artista tem que continuar”.
Uma nova sociedade já. Um novo mundo já. Um novo homem já. Tem que haver uma saída.
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”
Não seqüestrem minha esperança.
Tudo não pode ir para os ares, depois de tanta luta, de tantos heróis mortos, de tanta esperança, de tanta fé.
Maurílio Nogueira
Minha casa é uma cadeia. Aliás, estamos todos presos. Meu molho de chaves tá cada vez mais pesado.
Quero portas abertas, janelas sem grades, um quintal sem muros.
A rua é lugar do medo.
Medo dos mal-encarados, medo dos bem-encarados, medo de crianças com cara de trombadinhas, medo de mendigos, medo dos homens de terno e gravata, medo da polícia, medo dos políticos, medo dos trambiques que vêm de todo os lugares, medo dos seqüestros.
Medo de abrir meus e.mails, medo de pegar virus no computador, no hospital, na escola, no ônibus, na rua.
Medo dos carros, medo das motos.
Medo de ataque cardíaco, de câncer, de overdose e efeitos colaterais de medicamentos, medo de álcool, de fumaça, de drogas legítimas e ilegítimas.
Medo da cidade grande, medo da cidade pequena, medo da roça.
Não tenho mais para onde fugir.
Agora, com a gripe suína, tudo fu.
Não posso ir à escola, não posso ir a festas, não posso estar na multidão, não posso ir nem ao motel, tudo tá contaminado. Tudo tá dominado.
Que mundo, seu Raimundo! Que penico, seu Mundico! Que cocô, seu dotô! Botaram merda no meu ventilador.
Quero sair deste atoleiro, desta areia movediça, deste fundo de poço.
“Pousou uma mosca na minha sopa. E não adianta detetizar, por que cê mata uma e vem outra no lugar.”
“Minha piscina tá cheia de ratos. As idéias da burguesia não batem com os fatos.”
“Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. Dança na corda bamba de sombrinha. Em cada passo dessa linha pode se machucar... A esperança é equilibrista. Sabe que o show de todo artista tem que continuar”.
Uma nova sociedade já. Um novo mundo já. Um novo homem já. Tem que haver uma saída.
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”
Não seqüestrem minha esperança.
Tudo não pode ir para os ares, depois de tanta luta, de tantos heróis mortos, de tanta esperança, de tanta fé.
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