terça-feira, 15 de setembro de 2009

*O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem


** Maurilio Nogueira da Silva

“ Tanto a ciência da Natureza, como a Filosofia, descuidaram inteiramente, até agora, de investigar a influência da Atividade Humana sobre o Pensamento. Ambas só consideram a Natureza de um lado e o Pensamento do outro Mas é precisamente a modificação da Natureza pelos homens ( e não a Natureza como tal) o que constitui a base mais imediata do pensamento humano. É à medida em que o homem foi aprendendo a transformar a Natureza que sua Inteligência foi se desenvolvendo” ( Engels, l876 ).

Com esse pequeno texto pretendemos contribuir para as reflexões sobre a importância do Trabalho na vida do Homem, entendendo que ele é mais do que a fonte de toda a riqueza, podendo ser considerado, em certo sentido, como o Criador do Homem, o que lhe confere a hominização.

O primeiro passo do animal ao homem – segundo Engels - deve-se, inicialmente, ao surgimento da mão com funções distintas das dos pés, quando os antepassados do homem atingiram a postura ereta e liberaram as mãos para realizar outras atividades. Embora os macacos tenham chegado a usar as mãos para recolher alimentos e tenham atingindo a postura semi-ereta, é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, criada e aperfeiçoada pelo trabalho durante centena de milhares de anos. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra por mais tosco que fosse.

Ao ficarem livres de serem pés, as mãos adquiriram mais destreza e habilidade e esta maior flexibilidade transmitiu-se por herança de geração em geração. Por isso, pode-se dizer que a mão não é apenas um órgão do trabalho; é também produto dele. Assim, ao se desenvolver, a mão do homem atingiu, pelo trabalho, o grau de perfeição atual e continua a se aperfeiçoar, tornando-se capaz de realizar as obras de arte que hoje nos emocionam.

A partir daí, o aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta, desencadearam mudanças em todo o seu o organismo e no seu psiquismo, permitindo-lhe realizar trabalhos cada vez mais complexos.

Com o desenvolvimento do trabalho desenvolveu-se o cérebro humano, que supera o cérebro do macaco mais desenvolvido. E, à medida que se desenvolvia o cérebro humano, desenvolviam-se, também, seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos.
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· O texto acima destina-se aos meus alunos da disciplina Trabalho e Educação na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ele foi inspirado num artigo (inacabado) de Friedrich Engels: Humanização do Macaco pelo Trabalho, produzido em l876 e publicado na obra Dialética da Natureza, Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

** Mestre em Educação pela UNICAMP, Campinas, SP
Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora,MG.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
O trabalho criou também os órgãos responsáveis pela fala., dando origem à linguagem humana.

Assim, o trabalho é responsável pelo desenvolvimento do cérebro, dos órgãos dos sentidos e da linguagem, da capacidade de abstração e de discernimento, da consciência, das formas de comunicação humanas., enfim do Homem.

No princípio, atividade do homem limitava-se à busca da sobrevivência imediata, começando pela colheita de alimentos e outras operações simples. Essas atividades, segundo os estudiosos de hoje, não podem ser denominadas trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa realmente com a produção de instrumentos. Os animais chegam a utilizar instrumentos, mas não são capazes de produzi-los ou modificá-los.

Ao começar a produzir e utilizar, conscientemente, os instrumentos de trabalho, inicialmente de caça, pesca e armas de ataque e defesa, o homem passou a sofrer modificações profundas em seu corpo, sua mente e seu modo de vida. Passou da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, incluindo-se a carne. A partir daí, sua alimentação passou a oferecer ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. O hábito de combinar a carne com outros alimentos de origem vegetal contribuiu para dar ao homem mais força física. Mas onde a influência da alimentação com a carne mais se manifestou foi no seu cérebro, que recebeu assim uma quantidade muito maior do que antes de proteínas. ( Hoje se sabe que ela pode ser obtida da soja e outros vegetais).

O crescente consumo da carne na alimentação teve papel importante na descoberta e o uso do fogo e no surgimento da atividade de domesticação de animais. O primeiro reduziu o processo de digestão, permitindo levar a comida à boca já meio digerida. O segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte de obtê-la de forma mais regular. Apareceu, assim, o trabalho de domesticação de animais para aumentar e facilitar o acesso à carne, ao leite e seus derivados.

Depois de haver aprendido a produzir alimento, não se limitando a comer o que encontrava pronto, o homem aprendeu também a produzir suas condições de vida, não se restringindo às que encontrava prontas. De animal que se adapta à natureza, o homem passou a transformar o meio, ajustando-o às suas necessidades. Diante das variações climáticas, o homem foi se preparando, cobrindo o corpo, fazendo habitações, surgindo, assim, novas esferas de trabalho e com elas novas atividades que foram o afastando cada vez mais de seus antepassados animais.

Sempre, graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, propondo-se a alcançar objetivos cada vez mais variados. À caça e à pesca vieram se juntar a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a olaria, o trabalho com metais, a navegação e assim por diante. Aparecem depois os ofícios, o comércio, as artes e as ciências.

Esse desenvolvimento, que começou na antiguidade pelo trabalho, foi separando o homem do animal e não cessou com o passar dos tempos. Ele continua num grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido às vezes por retrocessos de caráter local e temporário, mas sempre avançando, com suas contradições e impulsionado e orientado em determinado sentido por um novo elemento que surge com o apareciment o da vida e em sociedade. De seres que viviam gregariamente ou em grupos, mas sem ter consciência disso, os homens passaram a viver, conscientemente, em sociedade.

Ao se tornar cada vez mais uma atividade social, o trabalho foi criando as instituições sociais. Das tribos sairam as nações e os estados. A partir daí foram surgindo o direito, a política, as religiões, que passaram regulamentar a vida em sociedade.

Essas criações no campo das idéias iriginam-se, portanto, das necessidades de organizar a produção material e a vida social como um todo. Posteriormente e por razões ideológicas, é que as idéias passaram a ser consideradas um produto do trabalho do cérebro isolado do trabalho prático e a ele se sobrepondo, como muitas pessoas ainda hoje acreditam. O trabalho do cérebro de alguns homens, agora planejava e obrigava as mãos de outros a realizar as tarefas práticas. E os homens foram passando a achar isso natural, respaldados por ideologias conservadoras que se serviam de argumentos genéticos, filosóficos e religiosos para justificar a separação entre o trabalho teórico ou do cérebro e o trabalho prático ou das mãos.

O desenvolvimento da sociedade passou a ser atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento da atividade do cérebro. Os homens foram sendo levados a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar explicar seus pensamentos pelos seus atose formas concretas de vida. Foi assim que surgiu a concepção idealista do mundo, que passou a dominar, sobretudo, a partir do desaparecimento do mundo antigo e ainda continua a dominar até hoje. Mesmo os materialistas tradicionais e os evolucionistas darwinianos foram influenciados por essa concepção idealista do mundo, com suas idéias de que a matéria ou a natureza, em si mesma, era a criadora do homem, não percebendo que era a atividade do homem sobre a natureza e não a natureza como tal a responsável pela passagem do animal ao homem. Esse evolucionismo linear ou vulgar não explica o aparecimento do homem.

Outro aspecto importante a se considerar aqui é que quanto mais os homens foram se se afastando dos animais, mais seu trabalho foi adquirindo um caráter de uma ação intencional e planejada, buscando alcançar objetivos dos mais variados não presentes nas atividades dos animais.

A ações intencionais, em germe, estão presente nos animais. Segundo observou Engels, elas estão presentes já no protoplasma – a albumina viva por exemplo– quando ela realiza determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz n na célula nervosa e mesmo quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas carnívoras se apoderam de sua presa aparece também, de certo modo, como um ato planejado, embora se realize de modo instintivo e inconsciente. Nos animais superiores as ações intencionais apresentam níveis cada vez mais complexos ou elevados.

Nos animais domesticados, que sofrem transformações pela convivência com o homem, podem ser observados atos de astúcia equiparados aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual ou intelectual da criança representa uma réplica, ainda que mais abreviada do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos.

No entanto, nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pode fazê-lo. O Homem modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, segundo um plano intencional e sua atividade tem para ele um caráter social Aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, a diferença que, mais uma vez, resulta do Trabalho.

Para lidar com a natureza de modo planificado, homem teve que procurar aprender suas leis e conhecer tanto os efeitos imediatos quanto os efeitos remotos de sua intromissão no curso natural de seu desenvolvimento.

Só que o homem não existe fora da sociedade onde predomina um modo de produção que determina a maneira como os homens devem trabalhar, relacionar entre si e com a natureza. É no interior de determinado modo de produção que surge o trabalho da Educação, visando preparar as gerações do futuro.

Todos os modos de produção que existiram até hoje, infelizmente, enfatizam apenas o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e imediata. Não educam as pessoas para perceberam as consequências futuras, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal.

Posteriormente, todas as formas seguintes de produção mais modernas conduziram à divisão da população em grupos e, mais tarde, em classes econômica e politicamente distintas, criando o antagonismo entre a classe dominante e a classe dominada. Em conseqüência, os interesses da classe dominante converteram-se mais decisivamente no elemento propulsor da produção e da educação. Isso encontra sua expressão mais acentuada no modo de produção capitalista. Os capitalistas, que dominam a produção e a troca, ocupam-se, cada vez mais, da utilidade mais imediata dos seus atos, como observamos hoje. Mais ainda, mesmo essa utilidade – porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada – passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

Por tudo isso, temos que superar o modelo de sociedade atual, com seu espírito utilitarista e imediatista, gerando todo de tipo de problemas nas relações dos homens entre si e destes com a natureza.

Essa superação do Capitalismo por uma nova ordem social mais equilibrada é uma condição indispensável – mesmo que não suficiente – para fazer com que o Trabalho e a Educação possa criar as condições para o desenvolvimento harmônico do ser humano.

Hoje, apesar dos contratempos, podemos notar em todo o mundo avanços na direção de uma crítica cada vez mais consistente, à sociedade capitalista, seguida de renovadas esperanças de construção de uma nova ordem social. Crescem as lutas dos setores progressistas: partidos identificados com as causas dos trabalhadores e oprimidos em geral, sindicatos, associações, segmentos avançados de igrejas, organizações ligadas às lutas pela reforma agrária, pela preservação do meio ambiente e por um desenvolvimento sustentável, bem como outros tantos movimentos liderados por educadores, cientistas, artistas e intelectuais em geral que lutam pela emancipação humana. Essas atividades, que se desenvolvem em todo o mundo, têm um caráter eminentemente político-educativo. Elas desempenham papel fundamental para a superação dessa sociedade desumana e a criação de um mundo verdadeiramente humano, onde o trabalho possa retomar seu papel educativo, deixando de ser um fator de exploração e a alienação e passando a ser uma atividade que produz riqueza material e espiritual para todos e seja, e fato, uma atividade que desenvolve o homem em todas as suas dimensões.


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