Método Dialético Marxista de Conhecimento e de Transformação da Realidade
Uma superação do Materialismo Vulgar e do Idealismo como visões de
Uma superação do Materialismo Vulgar e do Idealismo como visões de
mundo, em busca de um “meta ponto de vista”*
** Maurílio Nogueira da Silva
"O principal defeito de todo o materialismo do passado é que ele concebe o objeto, a realidade, o mundo sensível apenas sob a forma de objeto ou intuição e não como atividade humana sensível, como práxis... Isso explica por que o lado ativo da atividade humana foi desenvolvido pelo idealismo, mas apenas de forma abstrata, pois o idealismo não conhece, naturalmente, a atividade real, concreta, como tal...” ( Tese I de Marx sobre Feuerbach, in: A Ideologia Alemã e outros Escritos, l965, p. 87).
** Maurílio Nogueira da Silva
"O principal defeito de todo o materialismo do passado é que ele concebe o objeto, a realidade, o mundo sensível apenas sob a forma de objeto ou intuição e não como atividade humana sensível, como práxis... Isso explica por que o lado ativo da atividade humana foi desenvolvido pelo idealismo, mas apenas de forma abstrata, pois o idealismo não conhece, naturalmente, a atividade real, concreta, como tal...” ( Tese I de Marx sobre Feuerbach, in: A Ideologia Alemã e outros Escritos, l965, p. 87).
Introdução
Nosso objetivo com esse pequeno texto não é trazer novas contribuições teóricas ao estudo do método dialético-marxista., que entendemos ser uma superação do materialismo vulgar e do idealismo como visões de mundo. O que queremos é compartilhar nossa visão desse método, adquirida através de leituras, discussões e experiências ao longo de nossa vida. Desejamos também nos inserir nas questões que hoje têm sido levantadas sobre a validade do método dialético marxista, tais como:
-As superações ou verificações de limites nas conclusões de Marx e Engels sobre o que estudaram – a sociedade capitalista - utilizando o método dialético – podem nos levar a negar a validade desse método como instrumento de conhecimento e de mediação das transformações da realidade? Não seria essa uma postura conservadora?
-Deve-se abandonar as análises macro e substituí-las pelas análises micro, como quer o chamado“pensamento pós-moderno”? Uma pode subsistir sem a outra? Não seria essa uma postura reducionista e portanto conservadora?
-A crise da razão capitalista significa a derrota da razão em geral? Devemos abandonar a
razão ou vê-la com outros olhos, superando nossa visão Cartesiana?Ir para a descrença
total na razão não seria uma postura conservadora?
-É correta a aplicação do método dialético marxista a outros objetos de estudo que não à política, à economia, à história? Na questão “tese-antitese-síntese” não deveríamos insistir na provisoriedade ou historicidade das sínteses, não absolutizando-as?
Julgamos que essas e outras questões estão presentes em nosso meio acadêmico e devem ser discutidas entre os professores e com nossos alunos das diversas áreas do conhecimento, como uma contribuição importante para sua formação enquanto futuros professores e pesquisadores.
_________
* Texto apresentado no Congresso de Pedagogia, em Havana, Cuba, em 2001 e atualizado em
abril de 2009.( No subtítulo o termo “ meta ponto de vista” tomei-o emprestado do pensador e educador Edgar Morin).
** Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, SP, l986
Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG, desde l997.
E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br - Blog: maurilio-dialogoscommaurilio.blogspot.com
Nosso objetivo com esse pequeno texto não é trazer novas contribuições teóricas ao estudo do método dialético-marxista., que entendemos ser uma superação do materialismo vulgar e do idealismo como visões de mundo. O que queremos é compartilhar nossa visão desse método, adquirida através de leituras, discussões e experiências ao longo de nossa vida. Desejamos também nos inserir nas questões que hoje têm sido levantadas sobre a validade do método dialético marxista, tais como:
-As superações ou verificações de limites nas conclusões de Marx e Engels sobre o que estudaram – a sociedade capitalista - utilizando o método dialético – podem nos levar a negar a validade desse método como instrumento de conhecimento e de mediação das transformações da realidade? Não seria essa uma postura conservadora?
-Deve-se abandonar as análises macro e substituí-las pelas análises micro, como quer o chamado“pensamento pós-moderno”? Uma pode subsistir sem a outra? Não seria essa uma postura reducionista e portanto conservadora?
-A crise da razão capitalista significa a derrota da razão em geral? Devemos abandonar a
razão ou vê-la com outros olhos, superando nossa visão Cartesiana?Ir para a descrença
total na razão não seria uma postura conservadora?
-É correta a aplicação do método dialético marxista a outros objetos de estudo que não à política, à economia, à história? Na questão “tese-antitese-síntese” não deveríamos insistir na provisoriedade ou historicidade das sínteses, não absolutizando-as?
Julgamos que essas e outras questões estão presentes em nosso meio acadêmico e devem ser discutidas entre os professores e com nossos alunos das diversas áreas do conhecimento, como uma contribuição importante para sua formação enquanto futuros professores e pesquisadores.
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* Texto apresentado no Congresso de Pedagogia, em Havana, Cuba, em 2001 e atualizado em
abril de 2009.( No subtítulo o termo “ meta ponto de vista” tomei-o emprestado do pensador e educador Edgar Morin).
** Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, SP, l986
Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG, desde l997.
E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br - Blog: maurilio-dialogoscommaurilio.blogspot.com
Estamos conscientes das limitações e riscos ao tratar tão resumidamente de um assunto extremamente complexo e controvertido. Mas, mesmo assim, esperamos atingir nosso objetivo, que é fazer chegar nossas reflexões a um público que não tem - ou ainda não teve - contato com essas questões e com as obras aqui citadas. De modo particular, queremos dialogar sobre essas questões com os colegas que atuam na área da Educação.
1. O que é Método?
Etimologicamente, a palavra método vem de “meta” ou objetivo e de “hodos” que quer dizer caminho. Durante toda a nossa vida estamos sempre estabelecendo objetivos ou caminhos que possam nos levar a satisfazer nossas necessidades. Os métodos se constituem de recursos, meios ou instrumentos teóricos e práticos que utilizamos para lidar com a realidade.
Os métodos têm sempre uma natureza sócio-histórica, ou seja, eles nascem e se desenvolvem no interior da sociedade, com suas contradições, e são repassados aos indivíduos pela família, pela escola e demais instituições sociais, pelos meios de comunicação, pelo trabalho, enfim, por todas as instâncias onde haja interação humana. Desde a infância, vamos aprendendo o que é o conhecimento, como se chega ao conhecimento e para quê serve o conhecimento.
Nenhum método é uma receita definitiva, infalível ou plenamente suficiente para apreender a totalidade da realidade. Métodos são ferramentas teóricas e práticas produzidas pelos homens para lidar com a realidade. E esta é sempre mais rica, mais abrangente e disforme, exigindo que atualizemos sempre nossa maneira de atuar frente a ela.
2. Como se classificam os Métodos?
Aproximadamente a partir dos anos 500 a.C. surgiram duas perspectivas de se conhecer a realidade: a teoria de Parmênides (c.540-480 a.C.) e a teoria de Heráclito (c.540-480 a.C.).
Parmênides defendia a idéia de que nada pode mudar, tudo que existe sempre existiu, nada se transforma e, por isso não devemos confiar em nossos sentidos que nos enganam ao nos mostrar transformações no mundo real. A essência da realidade para Parmênides é una e imutável. Apesar de detectarmos na realidade o movimento das coisas, como o nosso próprio crescimento e todas as transformações da realidade, para Parmênides apenas a razão poderia conhecer a verdade do mundo, e sua razão dizia que nada se transforma. Para ele as transformações são ilusões dos sentidos. Vê-se, portanto, que Parmênides era um filósofo que representava os setores conservadores da sociedade de então, que não desejavam mudanças na realidade.
Heráclito, ao contrário de Parmênides, defendia a idéia da constante transformação da realidade. Para Heráclito tudo está em movimento, conforme nos atestam os sentidos. Além de sua concepção de que nada é, tudo está sendo, ele afirmava que o mundo está cheio de contrastes: a noite e o dia, a doença e a saúde, a guerra e a paz, ou seja, ou ser e o não ser de um mesmo objeto. Com Heráclito, concluímos que ele se posicionava a serviço das transformações da sociedade.
Saber qual pensamento está correto, se o de Parmênides ou o de Heráclito ou qual devemos tomar como método eficaz para o conhecimento de um objeto, não é um questionamento epistemológico que faz sentido, pois há verdade em ambas as posições. No mundo estão presentes, ao mesmo tempo, a permanência e a mudança, a razão e as experiências dos sentidos. E ambas podem enganar-se. A questão é ver que interesses estão por detrás desses posicionamentos, que se opõem apenas aparentemente.
Podemos concluir que a teoria de Parmênides foi precursora da Lógica Formal e a teoria de Heráclito, da Lógica Dialética. Como se observa, foi com estes dois filósofos da Idade Antiga que surgiram os primeiros pensamentos sobre a Metodologia do Conhecimento, que foram aperfeiçoadas ao longo de séculos, cada corrente de pensamento com seus filósofos: a Lógica Formal (com Aristóteles, Platão, Kant) e a Lógica Dialética ( com Hegel, Marx, Engels).
2.1. Lógica Formal ou Clássica
A Lógica Formal ou lógica clássica, sistematizada por Aristóteles, é uma forma de pensar, de conhecer, de organizar o raciocínio abstraído da realidade concreta, sem interesse em transformá-la. É uma lógica das idéias ou dos conceitos. Segundo ela, raciocínio se faz com o relacionamento de duas idéias: as premissas e a conclusão, que nessa lógica denomina-se inferência.
Segundo Aristóteles, para um raciocínio ser lógico é necessário atender a três princípios: princípio da identidade, o princípio da não-contradição e o princípio do terceiro excluído.
O princípio da identidade afirma a identificação de um objeto com a idéia que temos dele. Algo é o que é, conceitualmente: uma cadeira é uma cadeira, um livro é um livro, a vida é a vida. Baseado neste princípio, não podemos afirmar que um óvulo fecundado é um futuro ser humano. Um óvulo fecundado é um óvulo fecundado, um ser humano é um ser humano. Esse princípio não estuda o movimento, mas o fenômeno tal qual se apresenta.
O princípio da não-contradição afirma que nenhum pensamento pode ser, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso. A idéia não pode ser e não ser - não podemos conceber a vida como bela e como não bela, ao mesmo tempo.
O princípio do terceiro excluído deriva dos dois primeiros e exclui a contradição das idéias. Uma idéia ou é verdadeira ou é falsa, não existindo uma terceira possibilidade. Não podemos afirmar que a vida é longa, mas pode ser curta . Para ele ou a vida é longa ou a vida é curta. As duas afirmativas são excludentes.
Essa lógica é pura forma, não tendo qualquer conteúdo ou relação com a realidade concreta. Por isso é denominada lógica formal.
2.1.1 A validade da Lógica Formal ou Lógica Clássica
O argumento é a exteriorização do raciocínio, realizado através de conjunto de proposições encadeadas por inferência (premissas e conclusão).
Os argumentos podem ser válidos ou inválidos. Para que os argumentos sejam válidos têm que atender aos princípios da identidade, da não contradição e do terceiro excluído. Caso contrário, eles serão inválidos.
Já a condição de verdadeiro ou falso só é aplicada às premissas e à conclusão, ou seja, às proposições. Cada proposição pode ser falsa ou verdadeira. Para que a conclusão seja verdadeira, as premissas têm que ser verdadeiras e as inferências válidas; esta é a única forma em que o raciocínio lógico nos garante uma conclusão verdadeira..
Em resumo, os argumentos são válidos ou inválidos e as proposições são verdadeiras ou falsas. A validade ou invalidade dos argumentos e a veracidade das proposições não têm relação direta. Posso ter argumentos válidos com preposições falsas ou argumentos inválidos com proposições verdadeiras.
Essa lógica está presente na filosofia metafísica ou especulativa, por exemplo, na matemática, na estatística, na informática, que são saberes eminentemente formais ou abstratos.
2.2. A Lógica Dialética
Enquanto a Lógica Formal interessa-se pela forma abstraída do conteúdo, ou pela idéia abstraída do objeto, a Lógica Dialética estuda a realidade como uma totalidade, não separando forma e conteúdo, essência e aparência, dimensões externas e internas da realidade, vendo esses dois polos como o motor do desenvolvimento dos objetos ou fenômenos. A dialética é também chamada ciência das contradições por perceber que tudo se move choque dos opostos.
A lógica dialética aplicou-se primeiramente ao mundo das idéias ou do pensamento e por isso foi denominada Lógica Dialética Idealista.
2.2.1. Lógica Dialética Idealista ( ou Lógica Dialética Hegeliana)
A Lógica Dialética Idealista ou Lógica do Pensamento é também conhecida como “Lógica Hegeliana”. Seu sistematizador, Friederich Hegel (1770-1831), nasceu em Stuttgart, na Alemanha e foi um grande inovador da teoria do conhecimento, pois antes da expansão de sua teoria dialética, a metodologia da Lógica Formal era a forma de pensar usual do seu tempo.
Hegel surge como um contestador do seu tempo e foi marcado pelo otimismo na força da razão. Ele afirmava que, através da razão tudo poderia ser conhecido. Uma frase típica de sua teoria é que "tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real", ou seja, tudo é apreendido pela razão humana, o mundo coincide com a razão.
Outro aspecto peculiar de sua teoria é a tríade dialética, que expressa o movimento do pensamento em busca do conhecimento. Hegel concluiu que o pensamento é composto de três estádios: a tese, a antítese e a síntese. Primeiro surge uma teoria, ou a tese. Depois, em virtude da existência de contradições da tese, surge a antítese. Para solucionar o impasse entre a tese e a antítese, preserva-se o que há de melhor em cada uma e soluciona-se o problema da contradição formulando a síntese. Esta, por sua vez transforma-se em nova tese e assim, sucessivamente.
2.2.2. Lógica Dialética Concreta ( ou Lógica Dialética Marxista)
Para evitar as controvérsias que o termo “materialista” suscita em nosso meio, onde se acaba perdendo o termo dialética em detrimento do termo materialista , preferimos utilizar aqui o termo Lógica Dialética Marxista e não Lógica Dialética Materialista como a denominou Marx e Engels. Essa lógica surgiu no início do século XIX com os estudos filosóficos e científicos de Karl Marx, seguido por Friederich Engels e representa um passo à frente em relação à lógica dialética idealista ou lógica hegeliana, na medida em que supera a divisão clássica que separa o mundo material do mundo das idéias, vendo essas duas dimensões como partes de um todo em movimento.
Marx percebeu que as idéias originam-se da vida real dos homens, onde eles produzem e reproduzem sua existência – que é, ao mesmo tempo, material e espiritual.
Os objetivos do método dialético marxista não se confundem, portanto, com o do método lógico formal, que visa descrever a essência da realidade, separando o mundo das idéias e o mundo material e concebendo-os com algo fixo ou imutável.
O método dialético, desenvolvido por Marx e Engels, teve como objeto de estudo o modo de produção capitalista ou a sociedade burguesa, tal como se apresentava no seu tempo. Esses autores estudaram as forças materiais desse modo produção, bem como as idéias que lhe davam (e ainda dão) sustentação. Daí ser um equívoco tomar o marxismo como uma mera teoria econômica da sociedade burguesa. O “marxismo economicista” é uma criação de intelectuais que não compreenderam a dialética de Marx.
Nessa época, início do século XIX, a burguesia emergia como uma classe revolucionária ao derrotar o feudalismo – que impedia o progresso social. Nessa situação, ela tinha todo interesse nas transformações e no desenvolvimento das ciências da natureza e da sociedade, possibilitando o aparecimento de novas visões de mundo mais condizentes com o progresso da época. Diga-se de passagem, a revolução burguesa havia sido preparada ou antecipada, em grande parte, pela ciência e pela filosofia da Idade Moderna. Cientistas como Copérnico, Newton, Galileu e filósofos como Descartes, Locke, Spinoza e Kant, assim como pensadores chamados “iluministas”, como Rousseau, Voltaire e Diderot tiveram papel de destaque no preparo da revolução burguesa. Esses estudiosos, do século XVIII, foram fundamentais para a burguesia, pois pregavam a clareza das idéias e a luta contra o obscurantismo feudal que impedia ou tutelava o avanço do progresso da sociedade.
Porém, à medida que a classe burguesa foi se desenvolvendo e se tornando dominante, a classe trabalhadora foi também se desenvolvendo e tomando consciência da exploração a qual estava sendo submetida. Com isso, foram aparecendo as contradições do modo de produção capitalista, criando na classe trabalhadora o desejo de superar essa sociedade, por outra que viesse atender as necessidades de todo o povo e não apenas de uma classe. O método dialético-marxista surge, assim, como um instrumento científico de desvelamento da realidade, através do qual se poderia superar as verdades particulares ou verdades de classe, produzidas e disseminadas para manter o domínio de uma classe sobre a outra. Essas verdades particulares caracterizavam ( e ainda caracterizam) a ideologia burguesa, conforme CHAUI (1986).
É nesse contexto de uma sociedade dominada pela burguesia, tanto no plano material quanto no plano das idéias, mas que já se defrontava com as contradições oriundas do seu próprio modelo de desenvolvimento - que, de um lado, produz riqueza para uns poucos e, do outro, produz a miséria de muitos - que Marx e Engels fizeram seus estudos, utilizando o método dialético. Com esse método eles buscaram conhecer em profundidade os princípios históricos que regem a sociedade capitalista, explicitando suas contradições e apontando para sua superação, que deveria ser impulsionada pela classe trabalhadora ao se dar conta de sua exploração pelos capitalistas.
O Método Dialético Marxista é uma Dialética do Concreto para KOSIK (l976). É uma Filosofia da Práxis”, para GRAMSCI (1979) e VASQUEZ (l977). Segundo esse método o homem conhece o mundo – e a si mesmo - não apenas a partir da sua atividade teórica ou especulativa – como imagina o idealismo – nem apenas da ação direta dos seus órgãos dos sentidos e motores – como prega o materialismo tradicional ou o empirismo – mas a partir da prática social, da qual o homem se apropria através da sua atividade teórica e prática, da sua práxis. Para Marx e Engels, a atividade do indivíduo encontra-se, desde o início, condicionada pela suas possibilidades reais de vida e pelo contexto sócio-histórico onde ele vive. Essa conclusão é uma superação tanto do voluntarismo ou do subjetivismo ingênuo – que joga toda a responsabilidade na atividade do indivíduo ou do sujeito - como do determinismo ou do objetivismo positivista - que vê o movimento da realidade desconsiderando a atividade do sujeito. Marx afirma que “são os homens que fazem a história, mas eles não a fazem livremente ou nas condições por eles escolhidas, mas sim nas condições determinadas e legadas pela tradição”. Assim, não se abstrai ou dicotomiza subjetividade e objetividade, determinismo e voluntarismo, materialismo e idealismo, mas vê sempre essas duas dimensões como partes integrantes da totalidade histórica que compõem a realidade.
3. Resumindo:
Essas breves reflexões levam-nos a reafirmar o seguinte:
- Que os Métodos fundamentados na Lógica Formal ou Clássica e o Método Dialético – fundamentado na Lógica Dialética - não são contrários e sim complementares, como instrumentos de busca de conhecimento da realidade e de mediação de sua transformação.
- Que o Método Dialético leva-nos a rejeitar todo tipo de certeza dogmática, de dualismos ou dicotomias, que estão na aparência dos objetos ou fenômenos, tais como: determinismo-voluntarismo, objetivismo-subjetivismo, teoria-prática, materialismo-idealismo, considerando que esses polos são constitutivos necessários da totalidade da realidade, que se caracteriza pelo seu movimento e desenvolvimento constantes, que não se revela de imediato aos homens, exigindo uma análise sempre mais profunda.
- Que Marx e Engels, ao utilizarem o termo “materialismo” em seus estudos, não tomaram
esta palavra no sentido reducionista ou naturalista, que considera a matéria apenas como uma “coisa” dada pela natureza ou não produzida pelo homem” e, portanto, separada do “sujeito”, com seu pensamento, suas idéias, seu espírito.
Por exemplo:
Uma cadeira não é apenas um objeto material, com determinadas propriedades imediatas, visíveis e mensuráveis. Nela está o trabalho teórico e prático da humanidade e, por isso, contem outros atributos que são de natureza não-material – embora sejam atributos reais ou concretos, que não podem ser omitidos ao falar dela. Ela tem um valor de uso e um valor de troca, tem um significado dado a ela pela cultura, tem um sentido para seu dono, que não é o mesmo para outra pessoa. Portanto, conhecer uma cadeira é muito mais do que captar e descrever suas propriedades materiais ou imediatas, como imagina o materialismo vulgar.
- Que o Método Dialético Marxista, como dissemos atrás, é uma Dialética do Concreto para KOSIK (l976). ou uma Filosofia da Práxis”, para GRAMSCI (1979) e VASQUEZ (l977). E que por isso devemos estudar esses autores que atualizaram o pensamento de Marx e Engels e os que continuam atualizando-o através dos tempos.
- Que o Método Dialético Marxista é também uma Teoria do Conhecimento, segundo a qual os homens conhecem o mundo – e a si mesmos - não apenas a partir da sua atividade individual teórica ou especulativa – como o pensa o idealismo - nem da ação direta dos seus órgãos dos sentidos e motores – como imagina o materialismo tradicional ou o empirismo – mas a partir da sua inserção ativa na prática social. Para Marx e Engels, é através das suas atividades – que são sempre de natureza sócio-histórica - que o sujeito se cria como homem e desenvolve seu corpo, suas idéias, seus valores, suas atitudes, condicionadas pela suas possibilidades reais de vida e pelo contexto sócio-histórico onde ele vive.
- Que há uma diferença fundamental entre aceitar como acabadas e definitivas as conclusões de Marx e Engels sobre o que puderam estudar no seu tempo e aceitar o método dialético como uma ferramenta teórica para análise da realidade. Muitas das conclusões de Marx e Engels são hoje refutadas e não há mal nenhum nisso. O conhecimento tem sempre uma validade sócio-histórica. No entanto, o método de estudo utilizado por eles, em nossa opinião, não foi superado – embora possa e deva ser aperfeiçoado - permitindo chegar a resultados totalmente distintos ou mesmo opostos aos que chegaram Marx e Engels. Daí, entendemos que ser marxista é adotar o método dialético, criativamente e chegar às conclusões possíveis num contexto e não congelar as conclusões a que esses estudiosos chegaram no seu tempo.
- Que nenhum método pode ser considerado um instrumento definitivo, ou uma receita plenamente suficiente para se estudar a totalidade da realidade. Esta é sempre mais rica, mais abrangente e disforme, exigindo que atualizemos sempre nossa maneira de atuar frente a ela. Assim, não podemos negar a possibilidade da existência de fenômenos ou realidades que ultrapassam os limites dos instrumentos de conhecimento produzidos até então pela razão, exigindo dos pesquisadores uma mente sempre aberta para incorporar outros saber que são profundos embora considerados não científicos, pela visão Cartesiana que ainda impera em nosso meio. Entendemos que ciência tem que dialogar sempre com as outras linguagens, tais como as da filosofia, das artes, da poesia, da religião e outras, como instrumentos de reflexão e atuação sobre o mundo e o homem.
- Finalmente, que o Marxismo, tal como é comumente conhecido nos meios acadêmico, político, religioso e outras instâncias - que o aceitam ou o rejeitam - precisa ser repensado, sobretudo, no sentido de se expurgar da visão positivista ou Cartesiana que ainda persiste na maioria dos marxistas. Se não fizer isso, ele cairá em descrédito, infelizmente, por uma compreensão dogmatica das teses de Marx que, talvez antevendo o que aconteceria com suas idéias, disse: “ quanto a mim, não sou marxista”.
4. Sugestões para a utilização do Método Dialético Marxista
Henry Lefebvre (1975), dá algumas diretrizes para a aplicação do método dialético marxista:
l. Dirigir-se à raíz da realidade que se pretende conhecer; ser o mais radical possível, sem ser sectário ou dogmático. Não ser radical, neste sentido, é contentar-se em ser superficial, é ficar na aparência dos fatos;
2. Apreender o conjunto das conexões internas da realidade, perceber a relação entre os diversos aspectos que compõem a realidade, superando as tradicionais dicotomias com que, em geral, se analisam os objetos ou fenômenos.
3. Analisar o conflito interno das contradições, o movimento, a tendência, o que tende a permanecer e o que tende a mudar. Se o que move o desenvolvimento são as contradições internas da realidade, não se pode deixar de analisá-las para compreender a natureza desse desenvolvimento.
4 .Captar as transições ou transformações, tanto quantitativas como as qualitativas dos objetos ou fenômenos, as transições dos aspectos e contradições; as passagens de uns aos outros. Para o pensamento dialético quantidade e qualidade não são termos excludentes e sim complementares.
5. Estar atento ao fato de que o processo de aprofundamento de conhecimento – que vai do fenômeno à essência e da essência menos profunda à mais profunda – é infinito. Jamais estar plenamente satisfeito com o obtido;
6. Penetrar mais fundo do que a simples coexistência observada; compreender os processos de desenvolvimento dos objetos e fenômenos, buscando toda a riqueza do seu conteúdo e de suas formas; apreender suas conexões internas e suas relações externas;
7. Saber que em certas fases do próprio pensamento, este deverá se transformar, se superar: modificar ou rejeitar sua forma, remanejar seu conteúdo – retomar seus momentos superados, revê-los, repeti-los, mas apenas aparentemente, com o objetivo de aprofundá-los mediante um passo atrás rumo às suas etapas anteriores e, por vezes, até mesmo rumo ao seu ponto de partida.
5. Algumas utilizações do Método Dialético-Marxista:
- O método dialético-marxista é mais conhecido na área da Política e da Economia
Veja a obra de Marx e Engels intitulada “O Capital Crítica da Economia Política”,
abrangendo 3 volumes.
- Na Filosofia, há um interessante livro de Marx intitulado Textos Filosóficos, contendo a
Idéia Geral do Materialismo Dialético, onde ele deixa clara a utilização do método
dialético como o fio condutor de seus estudos sobre a anatomia da sociedade capitalista.
- Na História, há uma excelente obra de Antonio Gramsci denominada “Concepção
Dialética da História” e outras de autores brasileiros que vão nessa direção.
- Na Física, mais precisamente na Física Quântica, notamos a presença do pensamento que podemos chamar de dialético, quando ele afirma que o universo é fundamentalmente constituído de interligações, de componentes interdependentes , inseparáveis e em movimento constante.
- Na medicina, especialmente na medicina holística e outras similares, pode-se perceber a presença de uma metodologia que se aproxima do método dialético. Os médicos dessa tendência têm comprovado a necessidade de se tratar o homem em sua totalidade e chegaram à conclusão de que a cura de uma doença não se deve apenas à ação do medicamento - que vem de fora – mas da resposta interna favorável do organismo, demonstrando sua predisposição para se curar. Isso significa que o medicamento não causa a cura, por si mesmo ou, independentemente da predisposição interna do organismo. Em resumo, eles partem do princípio de que há um movimento dialético entre os fatores externos e os fatores internos e que uns não podem ser analisados abstraídos dos outros.
- Na Educação, temos vários exemplos de educadores brasileiros, como Paulo Freire, Moacir
Gadotti, Dermeval Saviani, Gaudêncio Frigotto e outros que utilizam o Método Dialético
Marxista na Educação.
- Na Psicologia, destacam-se os estudos de Vigotsky e Leontiev, que utilizaram o método dialético marxista em suas pesquisas sobre o psiquismo humano, revolucionando essa área do conhecimento. Para esses psicólogos o estudo do psiquismo humano não pode ser abstraído das atividades que o indivíduo desenvolve na produção de sua existência e nem do contexto sócio-histórico onde ele vive, que são os formadores de sua identidade, sua personalidade e sua consciência.
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política e educação. Petrópolis, Ed. Vozes, l999.
34. SILVA. Maurilio N. A Produção Social da Consciência: uma abordagem sócio-histórica da Consciência como Fenômeno Psíquico (Dissertação de Mestrado, UNICAMP, l986.
35. PRADO Jr. Caio. Dialética do Conhecimento. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1980.
36. VAZQUEZ, A. S. Filosofia da Práxis. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra, l977.
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