Paranóia?
Maurílio Nogueira
Minha casa é uma cadeia. Aliás, estamos todos presos. Meu molho de chaves tá cada vez mais pesado.
Quero portas abertas, janelas sem grades, um quintal sem muros.
A rua é lugar do medo.
Medo dos mal-encarados, medo dos bem-encarados, medo de crianças com cara de trombadinhas, medo de mendigos, medo dos homens de terno e gravata, medo da polícia, medo dos políticos, medo dos trambiques que vêm de todo os lugares, medo dos seqüestros.
Medo de abrir meus e.mails, medo de pegar virus no computador, no hospital, na escola, no ônibus, na rua.
Medo dos carros, medo das motos.
Medo de ataque cardíaco, de câncer, de overdose e efeitos colaterais de medicamentos, medo de álcool, de fumaça, de drogas legítimas e ilegítimas.
Medo da cidade grande, medo da cidade pequena, medo da roça.
Não tenho mais para onde fugir.
Agora, com a gripe suína, tudo fu.
Não posso ir à escola, não posso ir a festas, não posso estar na multidão, não posso ir nem ao motel, tudo tá contaminado. Tudo tá dominado.
Que mundo, seu Raimundo! Que penico, seu Mundico! Que cocô, seu dotô! Botaram merda no meu ventilador.
Quero sair deste atoleiro, desta areia movediça, deste fundo de poço.
“Pousou uma mosca na minha sopa. E não adianta detetizar, por que cê mata uma e vem outra no lugar.”
“Minha piscina tá cheia de ratos. As idéias da burguesia não batem com os fatos.”
“Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. Dança na corda bamba de sombrinha. Em cada passo dessa linha pode se machucar... A esperança é equilibrista. Sabe que o show de todo artista tem que continuar”.
Uma nova sociedade já. Um novo mundo já. Um novo homem já. Tem que haver uma saída.
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”
Não seqüestrem minha esperança.
Tudo não pode ir para os ares, depois de tanta luta, de tantos heróis mortos, de tanta esperança, de tanta fé.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
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