terça-feira, 15 de setembro de 2009

“O Homem é criado à imagem e semelhança de Deus?”

Como estudioso do ser humano, ando refletindo, cada vez com mais independência, sobre ensinamentos religiosos, que quase todos nós trazemos em nossa formação e influenciam nossa educação e nossa vida. Aprendemos que Deus é espírito puro, inteligência pura, amor puro, poder puro, beleza pura, perfeição pura, liberdade pura. O filósofo Aristóteles disse que “Deus é ato puro, não tem nenhuma potência a atualizar, senão seria imperfeito e não seria Deus. Sendo assim, Deus não tem imagem ou forma que se possa ver ou perceber pelos nossos órgãos dos sentidos. Deus é Amor. É para ser sentido com o coração e não conhecido pela razão, como diz Leonardo Boff. Sua existência não depende, portanto, de crença, mas de experiência pessoal ou íntima, assim como a poesia não é uma questão de crença, ela está no mundo potencialmente e se concretiza em nossas experiências ou vivências íntimas ou do coração. Quando perguntado se acredita em Deus, Rubem Alves afirma que “a questão não é se, mas como acredito em Deus”. Ele diz que sente Deus na beleza. Há vários jeitos de sentir Deus. Penso que a rigor, não há ateu. Todo homem sente Deus de diferentes modos e com intensidades diferentes, por mais que queira negá-lo. A vida humana sem nenhuma experiência que transcenda a realidade material é para mim impensável.

Assim, dizer que o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus não quer dizer imagem física nem semelhança física. Significa dizer que o homem herda as propriedades de Deus: o espírito, a inteligência, a capacidade de amar, de ter poder, de ser sábio, de ser belo, de se aperfeiçoar sempre e de ser livre.

Quando a criança nasce ela vem ao mundo em estado de total ignorância
ou como uma folha em branco?

Nesta questão, considero o seguinte: Deus não criou o mundo literalmente. Penso que o sentido do verbo criar vai além do de fazer surgir o que não existia. Há uma poesia que diz “eu nasci no dia em que a conheci”. Isso não quer dizer, evidentemente, que o indivíduo não existia antes, mas que ele nasceu de novo ou começou a existir de outro jeito depois que encontrou seu grande amor. Há que se penetrar na linguagem poética. Assim, entendo hoje que Deus, como espírito, não cria nada, não cria cada ser, não cria formas materiais. Ele cria a vida e com sua presença modifica o mundo ou faz renascer de outro jeito o que já existe. O mundo fica melhor se permeado por Deus ou pelo Amor. A esta crença de que “Deus está em tudo” Leonardo Boff chama “panenteísmo”, que é diferente de “panteísmo”, ou seja, a crença segundo a qual “tudo é Deus”. Todos os atributos de Deus – exceto o da eternidade, pois só Ele é eterno ou incriado - estão presentes, potencialmente, nos minerais, nos vegetais, no animais e no homem e se manifestam diferentemente em cada um destes reinos, conforme as leis da evolução.

Assim, tendo hoje a aceitar a tese de que quando uma criança começa ser feita no útero da mãe, sua existência não inicia neste momento, ela apenas está adquirindo ali um novo corpo, no qual habitará por mais um tempo. Sua vida, que é dom de Deus, inicia-se muito antes, tendo habitado outros corpos onde ela vai acumulando atributos: conhecimentos, experiências, dons, caráter etc. Nascer é, na verdade, renascer, reencarnar, retornar a um corpo biológico. Desse modo, a criança não chega ao mundo “zerada” ou como uma “folha em branco”. Ela traz, no inconsciente, o acúmulo de todo o processo da evolução e as experiências de vidas humanas passadas. Um grande cientista ou artista de hoje não é criado com estes dons por Deus ou pela genética. Eles chegaram a ser grandes pelo trabalho feito em diversas vidas e isso continua acontecendo a todos nós. Somos como uma pedra preciosa, que saí da natureza na forma bruta – mas com potencialidades de evoluirmos sempre. Pelo trabalho, esta pedra vai sendo lapidada continuamente. O grande educador Paulo Freire tem uma frase muito repetida onde ele fala da eterna incompletude do ser humano.

Sendo assim, temos que reformular nossa crença de que recebemos de graça determinados dons ou talentos. Penso que a parábola bíblica sobre os talentos quer nos ensinar que recebemos de Deus o dom da vida e germens ou sementes de talentos, mas se não plantarmos e cuidarmos deles, eles não nascerão e não se desenvolverão. Quem tem no bolso uma semente de uma planta, não tem uma planta. Só a terá se plantar e cuidar da semente. Tudo é construído por nosso trabalho ou nossas atividades, entrelaçadas com as atividades ou com o trabalho atual e passado de toda a humanidade. Nossa vida é uma sucessão de atividades que estão sempre inseridas no movimento de todo o universo. Somos parte do todo e não um átomo isolado.

As conclusões acima coincidem com o que diz o psicólogo russo Aléxis Leontiev, que venho estudando há anos. Diz ele:


O ser humano ao nascer possui apenas uma única aptidão que, fundamentalmente, o distingue dos seus antepassados animais: a aptidão para adquirir as aptidões especificamente humanas. São os objetos – que conservam em si os resultados das atividades das gerações passadas – que transmitem ao pequeno ser – na sua atividade - as aptidões do gênero humano”.


Maurílio Nogueira da Silva,
Pedagogo, Mestre em Psicologia Educacional, Prof. da UFJF.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br


. Escrevi outros dois textos que tem a ver com o tema acima:
“O Homem com um ser feito de Barro e de Sopro” e
“O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem”
Quem se interessar, solicite que terei o prazer em compartilhá-los.

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