Minha visão atual sobre Religião, Deus, o Mundo e o Homem
Maurílio Nogueira da Silva*
Hoje não tenho uma religião e nem acho que deva ter. O que tenho é um sentimento religioso do mundo. Procuro conhecer os diversos caminhos e, a partir deles, fazer o meu percurso. Concordo com o grande pensador Leonardo Boff, quando diz que “a tarefa de cada um de nós é fazer seu caminho, de tal forma que melhore e aprofunde o caminho recebido, distorça o torto e o legue aos futuros caminhantes enriquecidos com sua marca pessoal”.
Nesse sentido, concordo, também, com meu mestre Rubem Alves, quando afirma que não gosta da idéia de um “deus engarrafado”, ou que traz o rótulo de uma religião. Diz ele: “ Deus é Amor. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus fará morada em nossos corpos e nossas almas. Então não teremos mais medo, porque o perfeito amor lança fora o medo (1ª. Carta de João)”.Em outro lugar ele diz “Meu Deus é a Beleza”. Esse olhar poético muito me comove.
Nutro-me, também, do pensamento do filósofo Nietzsche, que não matou Deus, conforme as religiões costumam afirmar. Um deus que pode ser morto por um pobre homem mortal não é Deus. Portanto, Nietzsche não matou Deus, porque Deus é imortal. O que ele teve foi a coragem de gritar bem alto que o deus das religiões estava morto. Segundo Boff, Nietzsche prenunciara a morte do Deus fabricado pelo homem, que reside em seu pensamento, sendo produção exclusivamente intelectual humana. Um Deus que tem que morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo.''' (obra citada, editora Sextante, pág 84). Penso que Nietzsche estava certo e suas palavras servem para os dias atuais. É só ver as notícias sobre o que fazem as igrejas, que, aliás, me motivaram a fazer essas reflexões.
Carrego comigo, ainda, as influências de outro pensador alemão, Karl Marx, um grande incompreendido pelas religiões. Ele disse que “a religião é um ópio do povo” e tinha lá suas razões. O que não se pode é pegar esta afirmativa isolada da sua obra. Ele é o criador de uma filosofia denominada “materialismo dialético”, que é uma crítica tanto ao materialismo tradicional ou vulgar quanto ao idealismo, como visões de mundo. Marx concluiu que o materialismo tradicional é vulgar, pobre, reducionista e que o idealismo metafísico é também uma filosofia especulativa que não dá conta da realidade. Isso está resumido em sua Tese I contra o filósofo Feuerbach. Ele disse também que “entre o materialismo vulgar e o idealismo, há mais mérito no idealismo, pois este reconhece o lado ativo do ser humano”. Em outra passagem, ele disse, ainda, que “a natureza não se aventurou a criar o homem”, que este é resultado de múltiplas determinações. E há ainda muitos que o têm como um pregador do materialismo tradicional ou vulgar ou como um defensor da tese do segundo a qual o homem é determinado apenas pelo fator econômico. Isso é o que pensavam e pensam os filósofos e economistas burgueses, que ele sabiamente criticou. Para Marx, a base econômica, a natureza ou a matéria é o meio concreto através do qual os homens produzem e se reproduzem suas condições de existência, mas ela não atua isolada de outros fatores igualmente importantes. Fazendo uma analogia, podemos dizer que o leito do rio ou o encanamento é o meio através do
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*Mestre em Educação, UNICAMP, l986. Estudioso de filosofia, marxismo, psicologia, espiritualidade e áreas afins.
Professor da UFJF
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
qual a água chega até nós. Mas a água não se origina desse leito ou do cano. Ela vem de uma nascente, muitas vezes longínqua, que a gente não vê. Igualmente, o homem não se origina da
matéria. Seu corpo físico é uma das suas maneiras através da qual ele existe concretamente neste
mundo, mas o homem não se reduz a um corpo. Utilizando outra analogia, o homem é como um computador: feito de hardware e software, ou parte física e parte virtual, que atuam como um todo inseparável feito de corpo e espírito, sendo que o corpo não cria o espírito. Daí, entendemos que a natureza não cria o homem, mas apenas lhe dá um corpo que serve de base física para o espírito. Numa analogia bem atual, podemos dizer que o corpo físico do homem é a carcaça do telefone celular e o chip é o espírito que armazena as informações que darão a identidade ao aparelho. Sem o chip o telefone não funciona. Sem o espírito o homem não é um ser humano. E esse chip ou espírito chega ao indivíduo através do processo educativo ou das suas relações com os homens e com o mundo, onde desde criança ele vai internalizando conteúdos educacionais e formando sua conduta, sua personalidade, sua identidade.
Esta visão do Homem e do Mundo me leva a concluir que realidade que nos cerca transcende o imediato, o que podemos captar com nossos órgãos dos sentidos e com os instrumentos de observação produzidos pela ciência, por mais que ela avance. Temos que ter um olhar do artista, do escultor, que antevê sua obra num pedaço de madeira antes de trazê-la para sua existência concreta. Ele vê o produto, antecipadamente, na matéria bruta sobre a qual atuará. Para mim, isso é transcendência. Isso é ter um sentimento religioso do mundo. E eu tenho isso.
Trago comigo, também, as influências de outro grande educador, Paulo Freire, que era um marxista-cristão, embora muitos achem isso impossível. Ele me marcou muito pelo que disse e pelo seu exemplo de vida, defendendo e praticando sempre o diálogo e a relação amorosa entre os homens. Muito me honra ter sido seu discípulo na UNICAMP.
Desse modo, ao trazer em minha formação esses e outros grandes pensadores religiosos e não religiosos, não vejo como me enquadrar em uma religião. Mas creio, firmemente, no Deus-Amor que torna o mundo muito melhor quando reconhecido como o princípio de tudo. Esta crença não é obstáculo ao avanço científico, através do qual se busca compreender o homem e o mundo. Na minha visão, o papel da ciência não deve ser o de se opor a esse Deus, mas ajudar a revelar sua presença no mundo que pode ser um lugar cada vez melhor, se assim os homens assim o quiserem. O amor, por si mesmo, não faz nada, mas tudo o que fazemos fica melhor se feito com amor. Para mim isso é ter Deus dentro da gente, nos inspirando e iluminando nossos caminhos.
Sendo assim, o que acontece ao homem e ao mundo é fruto das ações dos homens de boa vontade, que têm esse Deus dentro de si, e, infelizmente, dos homens que não têm esse Deus. Por isso, o mundo não é um “paraíso”, mas também não é um “inferno”. Há muita gente a serviço do mal e do desamor, mas também há muita gente vivendo para o bem e o amor. O que nos compete é decidirmos de que lado ficar, enquanto a humanidade for assim e sonhar com o dia em que possamos ser um “só rebanho”.
Minha prática de vida se nutre da utopia de um mundo que possa ir se humanizando, superando as lutas de classes, a exploração do homem pelo homem, os preconceitos de qualquer espécie, proporcionando igualdade de oportunidades para todos os homens e mulheres, com respeito às suas diferenças. Onde haja respeito à natureza, aos recursos que ela nos disponibiliza, respeito a todos os seres vivos. Acho tudo isso possível, contanto que os homens evoluam e queiram um mundo assim. Aprendi que utopia não é o impossível, mas é o possível que ainda não existe.
Em síntese, essa é a minha maneira atual de conceber a Religião, Deus, o Mundo e o Homem, que não se adequa à nenhuma religião, podendo mesmo ser considerada herética por muitos, mas que não é uma postura anti-religiosa, materialista vulgar ou atéia.
Para concluir, transcrevo abaixo uma bela oração poética de Rubem Alves (escrita no seu livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, págs.153-4):
“Pai, mãe de olhos mansos,
Sei que estás, invisível, em todas as coisas,
Que teu nome me seja doce, alegria do meu mundo.
Traze-me as coisas boas em que tens prazer: o jardim, as fontes, as crianças,
o pão e o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo. Desejo que esqueci..
Mas tu não esqueces nunca.
Realiza, pois, o teu desejo para que eu possa rir.
Que teu desejo se realize em nosso mundo da mesma forma que ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono...
Que sejamos livres da ansiedade.
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus
o são para conosco.
Porque, se formos ferozes, não podemos acolher a tua bondade.
Ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus,
E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.
Amém”
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
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