* Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental
**Maurilio Nogueira da Silva
“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.(...) Olhe o caminho com cuidado e atenção. Tente quantas vezes for necessário . Então, faça a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma” (Carlos Castañeda, The Teachings of Don Juan).
A Física Moderna ou Física Quântica, nascida no século XXI, tem exercido uma profunda influência sobre quase todos os aspectos da sociedade humana. Acabou por tornar-se a base da ciência natural, e a combinação da ciência técnica e natural transformou, fundamentalmente, as condições de Vida na Terra, tanto no sentido positivo, quanto no sentido negativo. Isso passou a exigir uma profunda revisão acerca do universo e do relacionamento do indivíduo com este último.
Os fundamentos dessa Física moderna – a teoria quântica e a teoria da relatividade – levam-nos a encarar o mundo de forma bastante semelhante à maneira como um hindu, um budista ou um taoísta o vê.
As raízes da Física, como de toda ciência ocidental, podem ser encontradas no período inicial da filosofia grega do século VI a.C. , numa cultura onde a ciência , a filosofia e a religião não se encontravam separadas. Seu objetivo girava em torno da descoberta da natureza essencial ou da constituição real das coisas, a que denominam “physis”. O termo Física deriva dessa palavra grega e significava, originalmente, a tentativa de ver a natureza essencial de todas as coisas.
Este, naturalmente, é o objetivo central de todos os místicos , e a filosofia da escola de
Mileto possuía feições nitidamente místicas. Os adeptos dessa escola chamados “hilozoístas”, ou seja, “aqueles que pensam que a matéria é viva”. Esta denominação, estabelecida pelos gregos do século subsequentes, derivava do fato de que esses sábios não viam distinção alguma entre o animado e o inanimado, entre o espírito e a matéria. De fato, eles não possuíam sequer uma palavra para designar a matéria na medida que consideram todas as formas de existência como manifestações da physis, dotadas de vida e espiritualidade. Assim, ele declarava que todas as coisas estavam cheias de deuses e Anaximandro encarava o universo como uma espécie de organismo mantido pelo “pneuma”, a respiração cósmica, à semelhança do corpo humano mantido pelo ar.
Heráclito de Éfeso partilhava também de idéias semelhantes. Ele acreditava num mundo orgânico em perpétua mudança, num eterno vir-a-ser. Para ele todo ser estático baseava-se num logro. Para ele o princípio universal do mundo era o fogo, um símbolo para o contínuo fluxo e permanente mudança em todas as coisas. Ele ensinava que todas as transformações no mundo derivam da interação dinâmica dos opostos, vendo qualquer par de opostos como um unidade. A essa unidade, que contém e transcende todas as forças opostas, denominava “logos”.
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· Um resumo do Cap I do Livro O Tao da Física: um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental, de Fritjof Capra, São Paulo, Ed. Cultrix, l983.
**. Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora - E. Mail nmaurilio@yahoo.com.br
A divisão dessa unidade deu-se a partir da escola eleática que pressupunha um Princípio Divino posicionado acima de todos os deuses e dos homens. Esse princípio foi inicialmente identificado como a unidade do universo; mais tarde, entretanto, passou a ser encarado como um Deus pessoal e inteligente, situado acima do mundo e o dirigindo. Dessa forma , originou-se uma tendência do pensamento responsável, mais tarde, pela separação entre espírito e matéria, gerando o dualismo que se tornou a marca característica da filosofia ocidental.
Um passo decisivo nessa direção foi dado por Parmênides de Ekéia. Em nítida oposição a Heráclito, Parmênides denominava seu princípio básico como o “Ser”, afirmando-o o único e invariável. Considerava impossível a mudança, encarando aquelas que presumimos perceber no mundo como ilusões dos sentidos. O conceito de uma substância indestrutível como sujeito de propriedades diversas originou-se dessa filosofia , vindo mais tarde a tornar-se um dos conceitos fundamentais do pensamento ocidental. No século a V. a. C, os filósofos gregos tentaram superar o agudo contraste entre as visões de Parmênides e Heráclito. Com a finalidade de reconciliar a idéia de um Ser imutável ( de Parmênides) com a de um eterno vir-a-ser ( de Heráclito), partiram do pressuposto de que o Ser acha-se manifesto em determinadas substâncias invariáveis, cuja mistura e separação dá origem às mudanças no mundo. Essa tentativa de reconciliação deu lugar ao conceito de “átomo”, a menor unidade indivisível da matéria, cuja expressão mais clara pode ser encontrada na filosofia de Leucipo e Demócrito. Os atomistas gregos estabeleceram uma linha demarcatória bastante nítida entre espírito e matéria, retratando esta última como sendo formada de inúmeros “blocos básicos de construção” . Tais blocos não passavam de partículas puramente passivas e, intrinsecamente mortas, movendo-se no vácuo. Não era explicada a causa de seu movimento, embora este fosse frequentemente associado a forças externas que se supunham provir de um ser espiritual, sendo fundamentalmente diferentes da matéria. Nos séculos que se seguiram, esta acabou por se tornar um elemento essencial do pensamento ocidental, do dualismo entre mente e matéria, entre alma e corpo.
Essa idéia da divisão entre espírito e matéria ou alma e corpo foi desenvolvendo-se até ser sistematizada e organizada por Aristóteles, nos séculos V e VI a C., passando a constituir-se a base do pensamento ocidental durante aproximadamente dois mil anos. Sustentando essa divisão, Aristóteles acreditava que as questões espirituais eram muito mais valiosas do que as investigações em torno do mundo material.
O desenvolvimento posterior da ciência ocidental teve de aguardar o Renascimento para que os homens começassem a se livrar das influências de Aristóteles e da Igreja que seguia suas idéias, passando a apresentar um novo interesse em torno do estudo da Natureza. No fim do século XV, aparece Galileu, combinando conhecimento empírico com a matemática, o que lhe confere o título de “pai da ciência moderna”
O nascimento da Ciência moderna foi, portanto precedido e acompanhado por um desenvolvimento do pensamento filosófico baseado no dualismo espírito/matéria. Essa formulação veio à tona com a filosofia de René Descartes. Para este filósofo, a visão da natureza derivava de uma divisão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente ( “res cogitans”) e o da matéria ( “res extensa). Essa divisão permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e inteiramente apartado de si mesmos, vendo o mundo material como uma vasta quantidade de objetos reunidos numa máquina de grandes proporções. Essa “visão mecanicista” do universo foi sustentada, posteriormente, por Isaac Newton, que elaborou sua Mecânica, tornando-se o alicerce da Física clássica. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza objeto de pesquisa científica, eram então encaradas com as leis de Deus, ou seja, invariáveis e eternas, às quais o mundo acha-se submetido. Com Descartes, a mente foi separada do corpo, recebendo a tarefa única de controlá-lo, causando assim um conflito entre a vontade consciente e os instintos involuntários. Posteriormente cada indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu talento, seus sentimentos, suas crenças etc., todos engajados em conflitos intermináveis , geradores de constante confusão metafísica e frustração.
Essa fragmentação interna evidencia nossa visão do mundo “exterior” como sendo constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. O ambiente natural é tratado como se constituísse em partes isoladas a serem exploradas por diferentes grupos de interesses.
Em contraste com essa visão dualista e mecanicista ocidental, a visão oriental do mundo é “orgânica”. Para ela, todas as coisas e todos os fatos percebidos pelos sentidos acham-se inter-relacionados , unidos entre si, constituindo tão simplesmente aspectos ou manifestações diversos da mesma realidade última. Os místicos orientais afirmam que essa visão dualista e fragmentada do mundo é uma ilusão proveniente de nossa mente voltada para a mensuração e categorização. Essa tendência e denominada “avidya”( ignorância) na filosofia budista, sendo considerada como o estado de uma mente perturbada que necessita ser superada.
Na visão oriental do mundo a divisão da natureza em objetos separados está longe de ser fundamental e tais objetos possuem um caráter fluido e em eterna mudança. A visão oriental do mundo é, pois intrinsecamente dinâmica, contendo o tempo e a mudança como características fundamentais. O cosmo é visto como um todo inseparável, em eterno movimento, vivo, orgânico, espiritual e material a mesmo tempo.
Sendo o movimento e a mudança propriedades essenciais das coisas, as forças geradoras do movimento não são exteriores aos objetos ( como na visão grega clássica) mas, sendo ao contrário, são uma propriedade intrínseca da matéria. De forma correspondente, a imagem oriental do Divino não é a de um governante que, das alturas, dirige o mundo, mas de um princípio que tudo controla a partir de dentro:
“Aquele que, habitando em todas as coisas, é no entanto, diversos de todas a coisas.
Aquele a quem todas as coisas não conhecem, cujo corpo é feito de todas as coisas.
Aqueles que controla todas as coisas a partir de dentro.
Aquele que é a sua a Alma, o Controlador interior, o Imortal”.(Brihad-aranyaka Upanishad)
Conclusão:
Quanto mais a ciência penetra no mundo microscópico, mais ela compreende a forma pela qual o físico moderno, à semelhança do místico oriental, passa a perceber o mundo como um sistema de componentes inseparáveis, em permanente interação e movimento, sendo o homem parte integrante desse sistema.
sábado, 29 de agosto de 2009
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