segunda-feira, 21 de setembro de 2009

“O Homem é criado à imagem e semelhança de Deus?”

Como estudioso do ser humano, ando refletindo, cada vez com mais independência, sobre ensinamentos religiosos, que quase todos nós trazemos em nossa formação e influenciam nossa educação e nossa vida. Aprendemos que Deus é espírito puro, inteligência pura, amor puro, poder puro, beleza pura, perfeição pura, liberdade pura. O filósofo Aristóteles disse que “Deus é ato puro, não tem nenhuma potência a atualizar, senão seria imperfeito e não seria Deus. Sendo assim, Deus não tem imagem ou forma que se possa ver ou perceber pelos nossos órgãos dos sentidos. Deus é Amor. É para ser sentido com o coração e não conhecido pela razão, como diz Leonardo Boff. Sua existência não depende, portanto, de crença, mas de experiência pessoal ou íntima, assim como a poesia não é uma questão de crença, ela está no mundo potencialmente e se concretiza em nossas experiências ou vivências íntimas ou do coração. Quando perguntado se acredita em Deus, Rubem Alves afirma que “a questão não é se, mas como acredito em Deus”. Ele diz que sente Deus na beleza. Há vários jeitos de sentir Deus. Penso que a rigor, não há ateu. Todo homem sente Deus de diferentes modos e com intensidades diferentes, por mais que queira negá-lo. A vida humana sem nenhuma experiência que transcenda a realidade material é para mim impensável.
Assim, dizer que o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus não quer dizer imagem física nem semelhança física. Significa dizer que o homem herda as propriedades de Deus: o espírito, a inteligência, a capacidade de amar, de ter poder, de ser sábio, de ser belo, de se aperfeiçoar sempre e de ser livre. Quando a criança nasce ela vem ao mundo em estado de total ignorânciaou como uma folha em branco?
Nesta questão, considero o seguinte: Deus não criou o mundo literalmente. Penso que o sentido do verbo criar vai além do de fazer surgir o que não existia. Há uma poesia que diz “eu nasci no dia em que a conheci”. Isso não quer dizer, evidentemente, que o indivíduo não existia antes, mas que ele nasceu de novo ou começou a existir de outro jeito depois que encontrou seu grande amor. Há que se penetrar na linguagem poética. Assim, entendo hoje que Deus, como espírito, não cria nada, não cria cada ser, não cria formas materiais. Ele cria a vida e com sua presença modifica o mundo ou faz renascer de outro jeito o que já existe. O mundo fica melhor se permeado por Deus ou pelo Amor. A esta crença de que “Deus está em tudo” Leonardo Boff chama “panenteísmo”, que é diferente de “panteísmo”, ou seja, a crença segundo a qual “tudo é Deus”. Todos os atributos de Deus – exceto o da eternidade, pois só Ele é eterno ou incriado - estão presentes, potencialmente, nos minerais, nos vegetais, no animais e no homem e se manifestam diferentemente em cada um destes reinos, conforme as leis da evolução.
Assim, tendo hoje a aceitar a tese de que quando uma criança começa ser feita no útero da mãe, sua existência não inicia neste momento, ela apenas está adquirindo ali um novo corpo, no qual habitará por mais um tempo. Sua vida, que é dom de Deus, inicia-se muito antes, tendo habitado outros corpos onde ela vai acumulando atributos: conhecimentos, experiências, dons, caráter etc. Nascer é, na verdade, renascer, reencarnar, retornar a um corpo biológico. Desse modo, a criança não chega ao mundo “zerada” ou como uma “folha em branco”. Ela traz, no inconsciente, o acúmulo de todo o processo da evolução e as experiências de vidas humanas passadas. Um grande cientista ou artista de hoje não é criado com estes dons por Deus ou pela genética. Eles chegaram a ser grandes pelo trabalho feito em diversas vidas e isso continua acontecendo a todos nós. Somos como uma pedra preciosa, que saí da natureza na forma bruta – mas com potencialidades de evoluirmos sempre. Pelo trabalho, esta pedra vai sendo lapidada continuamente. O grande educador Paulo Freire tem uma frase muito repetida onde ele fala da eterna incompletude do ser humano.
Sendo assim, temos que reformular nossa crença de que recebemos de graça determinados dons ou talentos. Penso que a parábola bíblica sobre os talentos quer nos ensinar que recebemos de Deus o dom da vida e germens ou sementes de talentos, mas se não plantarmos e cuidarmos deles, eles não nascerão e não se desenvolverão. Quem tem no bolso uma semente de uma planta, não tem uma planta. Só a terá se plantar e cuidar da semente. Tudo é construído por nosso trabalho ou nossas atividades, entrelaçadas com as atividades ou com o trabalho atual e passado de toda a humanidade. Nossa vida é uma sucessão de atividades que estão sempre inseridas no movimento de todo o universo. Somos parte do todo e não um átomo isolado.
As conclusões acima coincidem com o que diz o psicólogo russo Aléxis Leontiev, que venho estudando há anos. Diz ele:
“O ser humano ao nascer possui apenas uma única aptidão que, fundamentalmente, o distingue dos seus antepassados animais: a aptidão para adquirir as aptidões especificamente humanas. São os objetos – que conservam em si os resultados das atividades das gerações passadas – que transmitem ao pequeno ser – na sua atividade - as aptidões do gênero humano”.
Maurílio Nogueira da Silva,
Pedagogo, Mestre em Psicologia Educacional,UFJF.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br


. Escrevi outros dois textos que tem a ver com o tema acima: “O Homem com um ser feito de Barro e de Sopro” e “O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem” Quem se interessar, solicite que terei o prazer em compartilhá-los.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

*O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem


** Maurilio Nogueira da Silva

“ Tanto a ciência da Natureza, como a Filosofia, descuidaram inteiramente, até agora, de investigar a influência da Atividade Humana sobre o Pensamento. Ambas só consideram a Natureza de um lado e o Pensamento do outro Mas é precisamente a modificação da Natureza pelos homens ( e não a Natureza como tal) o que constitui a base mais imediata do pensamento humano. É à medida em que o homem foi aprendendo a transformar a Natureza que sua Inteligência foi se desenvolvendo” ( Engels, l876 ).

Com esse pequeno texto pretendemos contribuir para as reflexões sobre a importância do Trabalho na vida do Homem, entendendo que ele é mais do que a fonte de toda a riqueza, podendo ser considerado, em certo sentido, como o Criador do Homem, o que lhe confere a hominização.

O primeiro passo do animal ao homem – segundo Engels - deve-se, inicialmente, ao surgimento da mão com funções distintas das dos pés, quando os antepassados do homem atingiram a postura ereta e liberaram as mãos para realizar outras atividades. Embora os macacos tenham chegado a usar as mãos para recolher alimentos e tenham atingindo a postura semi-ereta, é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, criada e aperfeiçoada pelo trabalho durante centena de milhares de anos. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra por mais tosco que fosse.

Ao ficarem livres de serem pés, as mãos adquiriram mais destreza e habilidade e esta maior flexibilidade transmitiu-se por herança de geração em geração. Por isso, pode-se dizer que a mão não é apenas um órgão do trabalho; é também produto dele. Assim, ao se desenvolver, a mão do homem atingiu, pelo trabalho, o grau de perfeição atual e continua a se aperfeiçoar, tornando-se capaz de realizar as obras de arte que hoje nos emocionam.

A partir daí, o aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta, desencadearam mudanças em todo o seu o organismo e no seu psiquismo, permitindo-lhe realizar trabalhos cada vez mais complexos.

Com o desenvolvimento do trabalho desenvolveu-se o cérebro humano, que supera o cérebro do macaco mais desenvolvido. E, à medida que se desenvolvia o cérebro humano, desenvolviam-se, também, seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos.
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· O texto acima destina-se aos meus alunos da disciplina Trabalho e Educação na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ele foi inspirado num artigo (inacabado) de Friedrich Engels: Humanização do Macaco pelo Trabalho, produzido em l876 e publicado na obra Dialética da Natureza, Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

** Mestre em Educação pela UNICAMP, Campinas, SP
Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora,MG.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
O trabalho criou também os órgãos responsáveis pela fala., dando origem à linguagem humana.

Assim, o trabalho é responsável pelo desenvolvimento do cérebro, dos órgãos dos sentidos e da linguagem, da capacidade de abstração e de discernimento, da consciência, das formas de comunicação humanas., enfim do Homem.

No princípio, atividade do homem limitava-se à busca da sobrevivência imediata, começando pela colheita de alimentos e outras operações simples. Essas atividades, segundo os estudiosos de hoje, não podem ser denominadas trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa realmente com a produção de instrumentos. Os animais chegam a utilizar instrumentos, mas não são capazes de produzi-los ou modificá-los.

Ao começar a produzir e utilizar, conscientemente, os instrumentos de trabalho, inicialmente de caça, pesca e armas de ataque e defesa, o homem passou a sofrer modificações profundas em seu corpo, sua mente e seu modo de vida. Passou da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, incluindo-se a carne. A partir daí, sua alimentação passou a oferecer ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. O hábito de combinar a carne com outros alimentos de origem vegetal contribuiu para dar ao homem mais força física. Mas onde a influência da alimentação com a carne mais se manifestou foi no seu cérebro, que recebeu assim uma quantidade muito maior do que antes de proteínas. ( Hoje se sabe que ela pode ser obtida da soja e outros vegetais).

O crescente consumo da carne na alimentação teve papel importante na descoberta e o uso do fogo e no surgimento da atividade de domesticação de animais. O primeiro reduziu o processo de digestão, permitindo levar a comida à boca já meio digerida. O segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte de obtê-la de forma mais regular. Apareceu, assim, o trabalho de domesticação de animais para aumentar e facilitar o acesso à carne, ao leite e seus derivados.

Depois de haver aprendido a produzir alimento, não se limitando a comer o que encontrava pronto, o homem aprendeu também a produzir suas condições de vida, não se restringindo às que encontrava prontas. De animal que se adapta à natureza, o homem passou a transformar o meio, ajustando-o às suas necessidades. Diante das variações climáticas, o homem foi se preparando, cobrindo o corpo, fazendo habitações, surgindo, assim, novas esferas de trabalho e com elas novas atividades que foram o afastando cada vez mais de seus antepassados animais.

Sempre, graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, propondo-se a alcançar objetivos cada vez mais variados. À caça e à pesca vieram se juntar a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a olaria, o trabalho com metais, a navegação e assim por diante. Aparecem depois os ofícios, o comércio, as artes e as ciências.

Esse desenvolvimento, que começou na antiguidade pelo trabalho, foi separando o homem do animal e não cessou com o passar dos tempos. Ele continua num grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido às vezes por retrocessos de caráter local e temporário, mas sempre avançando, com suas contradições e impulsionado e orientado em determinado sentido por um novo elemento que surge com o apareciment o da vida e em sociedade. De seres que viviam gregariamente ou em grupos, mas sem ter consciência disso, os homens passaram a viver, conscientemente, em sociedade.

Ao se tornar cada vez mais uma atividade social, o trabalho foi criando as instituições sociais. Das tribos sairam as nações e os estados. A partir daí foram surgindo o direito, a política, as religiões, que passaram regulamentar a vida em sociedade.

Essas criações no campo das idéias iriginam-se, portanto, das necessidades de organizar a produção material e a vida social como um todo. Posteriormente e por razões ideológicas, é que as idéias passaram a ser consideradas um produto do trabalho do cérebro isolado do trabalho prático e a ele se sobrepondo, como muitas pessoas ainda hoje acreditam. O trabalho do cérebro de alguns homens, agora planejava e obrigava as mãos de outros a realizar as tarefas práticas. E os homens foram passando a achar isso natural, respaldados por ideologias conservadoras que se serviam de argumentos genéticos, filosóficos e religiosos para justificar a separação entre o trabalho teórico ou do cérebro e o trabalho prático ou das mãos.

O desenvolvimento da sociedade passou a ser atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento da atividade do cérebro. Os homens foram sendo levados a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar explicar seus pensamentos pelos seus atose formas concretas de vida. Foi assim que surgiu a concepção idealista do mundo, que passou a dominar, sobretudo, a partir do desaparecimento do mundo antigo e ainda continua a dominar até hoje. Mesmo os materialistas tradicionais e os evolucionistas darwinianos foram influenciados por essa concepção idealista do mundo, com suas idéias de que a matéria ou a natureza, em si mesma, era a criadora do homem, não percebendo que era a atividade do homem sobre a natureza e não a natureza como tal a responsável pela passagem do animal ao homem. Esse evolucionismo linear ou vulgar não explica o aparecimento do homem.

Outro aspecto importante a se considerar aqui é que quanto mais os homens foram se se afastando dos animais, mais seu trabalho foi adquirindo um caráter de uma ação intencional e planejada, buscando alcançar objetivos dos mais variados não presentes nas atividades dos animais.

A ações intencionais, em germe, estão presente nos animais. Segundo observou Engels, elas estão presentes já no protoplasma – a albumina viva por exemplo– quando ela realiza determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz n na célula nervosa e mesmo quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas carnívoras se apoderam de sua presa aparece também, de certo modo, como um ato planejado, embora se realize de modo instintivo e inconsciente. Nos animais superiores as ações intencionais apresentam níveis cada vez mais complexos ou elevados.

Nos animais domesticados, que sofrem transformações pela convivência com o homem, podem ser observados atos de astúcia equiparados aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual ou intelectual da criança representa uma réplica, ainda que mais abreviada do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos.

No entanto, nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pode fazê-lo. O Homem modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, segundo um plano intencional e sua atividade tem para ele um caráter social Aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, a diferença que, mais uma vez, resulta do Trabalho.

Para lidar com a natureza de modo planificado, homem teve que procurar aprender suas leis e conhecer tanto os efeitos imediatos quanto os efeitos remotos de sua intromissão no curso natural de seu desenvolvimento.

Só que o homem não existe fora da sociedade onde predomina um modo de produção que determina a maneira como os homens devem trabalhar, relacionar entre si e com a natureza. É no interior de determinado modo de produção que surge o trabalho da Educação, visando preparar as gerações do futuro.

Todos os modos de produção que existiram até hoje, infelizmente, enfatizam apenas o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e imediata. Não educam as pessoas para perceberam as consequências futuras, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal.

Posteriormente, todas as formas seguintes de produção mais modernas conduziram à divisão da população em grupos e, mais tarde, em classes econômica e politicamente distintas, criando o antagonismo entre a classe dominante e a classe dominada. Em conseqüência, os interesses da classe dominante converteram-se mais decisivamente no elemento propulsor da produção e da educação. Isso encontra sua expressão mais acentuada no modo de produção capitalista. Os capitalistas, que dominam a produção e a troca, ocupam-se, cada vez mais, da utilidade mais imediata dos seus atos, como observamos hoje. Mais ainda, mesmo essa utilidade – porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada – passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

Por tudo isso, temos que superar o modelo de sociedade atual, com seu espírito utilitarista e imediatista, gerando todo de tipo de problemas nas relações dos homens entre si e destes com a natureza.

Essa superação do Capitalismo por uma nova ordem social mais equilibrada é uma condição indispensável – mesmo que não suficiente – para fazer com que o Trabalho e a Educação possa criar as condições para o desenvolvimento harmônico do ser humano.

Hoje, apesar dos contratempos, podemos notar em todo o mundo avanços na direção de uma crítica cada vez mais consistente, à sociedade capitalista, seguida de renovadas esperanças de construção de uma nova ordem social. Crescem as lutas dos setores progressistas: partidos identificados com as causas dos trabalhadores e oprimidos em geral, sindicatos, associações, segmentos avançados de igrejas, organizações ligadas às lutas pela reforma agrária, pela preservação do meio ambiente e por um desenvolvimento sustentável, bem como outros tantos movimentos liderados por educadores, cientistas, artistas e intelectuais em geral que lutam pela emancipação humana. Essas atividades, que se desenvolvem em todo o mundo, têm um caráter eminentemente político-educativo. Elas desempenham papel fundamental para a superação dessa sociedade desumana e a criação de um mundo verdadeiramente humano, onde o trabalho possa retomar seu papel educativo, deixando de ser um fator de exploração e a alienação e passando a ser uma atividade que produz riqueza material e espiritual para todos e seja, e fato, uma atividade que desenvolve o homem em todas as suas dimensões.


BIBLIOGRAFIA

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do Homem ( Palestra feita para trabalhadores da EMATER-MG, em l987).

31. _______. Desemprego e Desumanização no Capitalismo ( Texto apresentado em Mesa
Redonda sobre Neoliberalismo, Globalização e Desemprego, promovida pelo NEETEC, na
UFJF, em l999).

32._________. O Empreendedorismo em questão.( Palestra apresentada na cidade de Três
Rios-RJ, em l999).
O Homem como um Ser feito de “Barro e de Sopro”

** Maurílio Nogueira da Silva

“O homem é feito de barro e de sopro”(Bíblia Sagrada)
“A natureza não se aventurou a criar homens.“O homem é síntese
de múltiplas determinações” (Karl Marx).

Com este pequeno texto pretendemos fazer algumas reflexões sobre as duas citações acima, que tratam da criação do homem, por considerar que elas têm um interessante ponto em comum, no sentido de dizerem que o homem não é apenas um animal mais desenvolvido, como afirmam os materialistas ou evolucionistas mais afoitos, que têm uma visão reducionista do homem. Para a Bíblia, assim como para Marx, o Homem transcende sua natureza animal.

Quanto à frase bíblica segundo a qual o homem é feito de “sopro” e não apenas de “barro”, nossa interpretação é que o “sopro” quer dizer vida e esta não é feita pela natureza. O desenvolvimento da matéria ou da natureza, por si só, não produz a vida, pelo que se sabe. A alma (anima do latim) ou a vida não vem da matéria ou da natureza. Podemos dizer que ela pré-existe ao corpo material como uma planta ou um projeto de uma casa preexiste à casa. Sendo assim, podemos afirmar que na gestação o indivíduo recebe de Deus a “planta ou o projeto do seu ser”, que vai se materializando na genética, na convivência na barriga da mãe e depois nas relações ele que vai tendo com as pessoas e com o mundo. Assim se desenvolve o “eu” do indivíduo, tornando-o um ser único, irrepetível e que transcende seu corpo material.

Sobre a frase do filósofo Karl Marx, dizendo que “a natureza não se aventurou a criar homens e que este é síntese de múltiplas determinações”, parece-me confirmar, de certo modo, a afirmação bíblica acima, segundo a qual o homem vem de uma base inicial que é natureza, mas necessita de algo que vem de fora – ou que não vem da natureza – para se hominizar. Talvez se possa entender que esse elemento que vem de fora sejam as atividades educativas às quais ele se submete desde criança. É nas suas atividades com outros seres humanos que o indivíduo passa a se diferenciar dos demais seres vivos, desenvolve sua natureza humana, constroi seu “eu”, sua consciência e auto-consciência. Os animais também se desenvolvem ou são também educáveis, mas, ao que se sabe, não atingem o pensamento reflexivo, a consciência e muito menos a auto-consciência ou consciência de si. Não têm um “eu” único e irrepetível, como o ser humano. ( Não estou aqui fazendo um juízo moral ou afirmando os animais são inferiores ao homem. Apenas estou dizendo que eles não têm pensamento reflexivo, segundo o que se sabe deles. É verdade que muitas vezes nós homens, com todo nosso potencial, sentimos vergonha dos animais pela maneira como nos comportamos).

Para um melhor entendimento do que estamos afirmando, julgamos necessário explicitar um pouco mais os conceitos de corpo, alma e espírito.

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(*) Este texto tem um formato didático e destina-se estudiosos de filosofia, antropologia, psicologia,
religião e outras áreas afins. Essa é uma versão de set de 2009.
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** Mestre em Psicologia Educacional, UNICAMP, l986.
Professor da Universidade Federal Juiz de Fora- MG - E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br

O corpo é a matéria densa – a natureza, ou o “barro” - do qual é feito o mundo físico. Essa base material, inicialmente inanimada, é a primeira forma de existência do mundo e de tudo que nele habita.

A alma – ou “anima”(do latim)– significa vida e esta se constitui numa nova forma de existência da matéria ( denominada matéria animada). Não há uma explicação científica, pelo menos ainda, para o surgimento da alma, anima ou vida. Segundo os religiosos, a vida vem de Deus. Há ainda muitas lacunas nas explicações darwinianas sobre a origem da vida.

O espírito pode ser concebido como uma alma mais desenvolvida qualitativamente, que permite a construção do “eu” de cada indivíduo, que torna possível sua consciência e auto-consciência. É o espírito que permite ao indivíduo reconhecer a si, transcender sua natureza animal, tornando-o um ser que é parte da natureza, mas, ao mesmo tempo, dela se distancia; um ser que é parte da sociedade humana , mas que tem uma individualidade que o torna único e irrepetível. Por isso, diga-se de passagem, não há possibilidade de se clonar um ser humano. O que se pode fazer é tão somente um corpo semelhante a outro geneticamente, mas não um ser humano igual a outro. Não há possibilidade de se fazer clonagem do espírito, pois isso significaria clonar todas as experiências vividas pelo indivíduo em sua vida, o que é absolutamente impossível .

Em nossa opinião, a maioria das pessoas – e até religiosos e teólogos - toma como sinônimos os conceitos de “alma” e “espírito”. Quase sempre ouvimos referência à alma quando se deveria dizer espírito. É comum ouvirmos dizer que uma pessoa é uma “alma boa”, quando na verdade se deveria dizer “um espírito bom”. A alma é simplesmente a vida e não cabe atribuir a ela qualidades ou juízos de valor. Ou se está vivo ou não se está. Já o espírito tem qualidades. Talvez, por isso, diz a Bíblia que “o que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito”. E que “ o homem tem que nascer de novo”. Dizendo de outro modo, a natureza faz a base física do indivíduo, mas é a sociedade, a cultura onde ele vive, que desenvolve sua hominização, sua individualidade, sua subjetividade ou, em outras palavras, seu espírito, que ele herda de Deus na forma de um projeto ou de uma planta. Mas ele terá que realizar esse projeto em sua vida, juntamente com as pessoas que o cercam.

Comparando o homem com um carro, podemos dizer que seu corpo é a parte física do carro. A alma é o combustível que permite o carro se movimentar - mas não o dirige. O espírito é o motorista do carro, que o dirige, utilizando seu cérebro, os órgãos dos sentidos e os órgãos motores, segundo um treinamento,uma orientação ou educação recebida. O motorista é o que conduz o carro para o destino estabelecido, determina a velocidade e o trajeto a ser percorrido. E sabe o que está fazendo. Sem a interligação feita de carro, combustível e motorista não há viagem. Do mesmo modo, sem a interligação do corpo, com a alma e o espírito não há ser humano.

A concepção do espírito como “motorista” do homem está, de certo modo, presente na filosofia clássica, que se inicia com Aristóteles e Platão e tem em Goethe um dos principais expoentes. Ela parte do princípio de que existe nos seres vivos humanos um corpo vital ou “corpo etérico”, que funciona como modelador ou plasmador do corpo material a partir de suas necessidades.

Platão afirmou que “há três níveis da alma que receberam três moradas diferentes e cada um deles tem seus movimento próprios. O primeiro é a “alma epitimética”, a parte mortal, que apenas recebe influências de fora – e tem a ver com a sensação, o prazer, o desejo. Esta parte está relacionada ao baixo ventre (região metabólica-locomotora) e está intimamente ligada ao corpo, sendo responsável pelos seus movimentos. O segundo nível é a “alma timocrática”. Esta é também mortal, mas recebe impulsos da parte mais nobre do homem - e tem a ver com a coragem, o sentimento, o senso de dever e com o intelecto trivial ou terreno. O terceiro nível da alma é superior e imortal e tem a ver os conhecimentos e a sabedoria humana. Sua função é dirigir os demais níveis.

Esse terceiro nível de” alma imortal” , concebido por Platão, penso que significa o espírito ou o “eu” do indivíduo.– o que dá direção aos movimentos que a alma imprime ao corpo humano. Quando o espírito ou o “eu” do indivíduo vai mal a alma fica sem direção e o corpo sofre as consequências. É o que diz, por exemplo, a medicina antroposófica, que hoje vem ganhando espaço. Segundo ela a origem das doenças está no mal funcionamento do espírito ou do “eu” quando ele não administra bem ou não dirige satisfatoriamente a alma ou a energia que flui pelo corpo do indivíduo, vitalizando-o.

Hoje penso que essas conclusões ou hipóteses acerca do homem e do mundo não opõem a ciência e a religião. Não há problema em admitir-se que por detrás de toda a criação do homem e do mundo e das leis que regem todo esse processo há um Deus ou uma Causa Primeira da qual tudo se origina e que está presente nesse processo. Penso que o saber não pode se fechar na linguagem científica, mas incluir as linguagens da filosofia, da religião, da poesia e todas as demais, entendendo que cada uma cumpre objetivos próprios sem competir entre si. Penso que é tão equivocado tomar a Bíblia como um livro de ciência, quanto tomar um livro de Ciência como se fosse uma Bíblia. São duas linguagens com objetivos distintos que se completam ao falar do homem e do mundo. Nem só de matéria, de racionalidade ou de ciência vive o homem, mas também de espiritualidade, emoções, de poesia, de utopia.

Portanto, penso que as duas frases que abrem esse texto não se contradizem. São duas maneiras de falar que a natureza, por si mesma, não cria o homem. Ele é feito de “barro” ou de natureza e de “sopro” ou espírito.


Bibliografia estudada e sugerida:


1. CANEVACCI, Mássimo. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza, na história e na
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2.FROMM, Erich. Conceito marxista do Homem. RJ, Zahar, l975.

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6 .LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad, Buenos Aires, Ciencias del
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8 MARX, Karl. Textos Filosóficos. São Paulo, Martins, Fontes, l975.

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11. SILVA, Maurílio Nogueira. A Produção Sócio-Histórica Consciência individual
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“O Homem é criado à imagem e semelhança de Deus?”

Como estudioso do ser humano, ando refletindo, cada vez com mais independência, sobre ensinamentos religiosos, que quase todos nós trazemos em nossa formação e influenciam nossa educação e nossa vida. Aprendemos que Deus é espírito puro, inteligência pura, amor puro, poder puro, beleza pura, perfeição pura, liberdade pura. O filósofo Aristóteles disse que “Deus é ato puro, não tem nenhuma potência a atualizar, senão seria imperfeito e não seria Deus. Sendo assim, Deus não tem imagem ou forma que se possa ver ou perceber pelos nossos órgãos dos sentidos. Deus é Amor. É para ser sentido com o coração e não conhecido pela razão, como diz Leonardo Boff. Sua existência não depende, portanto, de crença, mas de experiência pessoal ou íntima, assim como a poesia não é uma questão de crença, ela está no mundo potencialmente e se concretiza em nossas experiências ou vivências íntimas ou do coração. Quando perguntado se acredita em Deus, Rubem Alves afirma que “a questão não é se, mas como acredito em Deus”. Ele diz que sente Deus na beleza. Há vários jeitos de sentir Deus. Penso que a rigor, não há ateu. Todo homem sente Deus de diferentes modos e com intensidades diferentes, por mais que queira negá-lo. A vida humana sem nenhuma experiência que transcenda a realidade material é para mim impensável.

Assim, dizer que o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus não quer dizer imagem física nem semelhança física. Significa dizer que o homem herda as propriedades de Deus: o espírito, a inteligência, a capacidade de amar, de ter poder, de ser sábio, de ser belo, de se aperfeiçoar sempre e de ser livre.

Quando a criança nasce ela vem ao mundo em estado de total ignorância
ou como uma folha em branco?

Nesta questão, considero o seguinte: Deus não criou o mundo literalmente. Penso que o sentido do verbo criar vai além do de fazer surgir o que não existia. Há uma poesia que diz “eu nasci no dia em que a conheci”. Isso não quer dizer, evidentemente, que o indivíduo não existia antes, mas que ele nasceu de novo ou começou a existir de outro jeito depois que encontrou seu grande amor. Há que se penetrar na linguagem poética. Assim, entendo hoje que Deus, como espírito, não cria nada, não cria cada ser, não cria formas materiais. Ele cria a vida e com sua presença modifica o mundo ou faz renascer de outro jeito o que já existe. O mundo fica melhor se permeado por Deus ou pelo Amor. A esta crença de que “Deus está em tudo” Leonardo Boff chama “panenteísmo”, que é diferente de “panteísmo”, ou seja, a crença segundo a qual “tudo é Deus”. Todos os atributos de Deus – exceto o da eternidade, pois só Ele é eterno ou incriado - estão presentes, potencialmente, nos minerais, nos vegetais, no animais e no homem e se manifestam diferentemente em cada um destes reinos, conforme as leis da evolução.

Assim, tendo hoje a aceitar a tese de que quando uma criança começa ser feita no útero da mãe, sua existência não inicia neste momento, ela apenas está adquirindo ali um novo corpo, no qual habitará por mais um tempo. Sua vida, que é dom de Deus, inicia-se muito antes, tendo habitado outros corpos onde ela vai acumulando atributos: conhecimentos, experiências, dons, caráter etc. Nascer é, na verdade, renascer, reencarnar, retornar a um corpo biológico. Desse modo, a criança não chega ao mundo “zerada” ou como uma “folha em branco”. Ela traz, no inconsciente, o acúmulo de todo o processo da evolução e as experiências de vidas humanas passadas. Um grande cientista ou artista de hoje não é criado com estes dons por Deus ou pela genética. Eles chegaram a ser grandes pelo trabalho feito em diversas vidas e isso continua acontecendo a todos nós. Somos como uma pedra preciosa, que saí da natureza na forma bruta – mas com potencialidades de evoluirmos sempre. Pelo trabalho, esta pedra vai sendo lapidada continuamente. O grande educador Paulo Freire tem uma frase muito repetida onde ele fala da eterna incompletude do ser humano.

Sendo assim, temos que reformular nossa crença de que recebemos de graça determinados dons ou talentos. Penso que a parábola bíblica sobre os talentos quer nos ensinar que recebemos de Deus o dom da vida e germens ou sementes de talentos, mas se não plantarmos e cuidarmos deles, eles não nascerão e não se desenvolverão. Quem tem no bolso uma semente de uma planta, não tem uma planta. Só a terá se plantar e cuidar da semente. Tudo é construído por nosso trabalho ou nossas atividades, entrelaçadas com as atividades ou com o trabalho atual e passado de toda a humanidade. Nossa vida é uma sucessão de atividades que estão sempre inseridas no movimento de todo o universo. Somos parte do todo e não um átomo isolado.

As conclusões acima coincidem com o que diz o psicólogo russo Aléxis Leontiev, que venho estudando há anos. Diz ele:


O ser humano ao nascer possui apenas uma única aptidão que, fundamentalmente, o distingue dos seus antepassados animais: a aptidão para adquirir as aptidões especificamente humanas. São os objetos – que conservam em si os resultados das atividades das gerações passadas – que transmitem ao pequeno ser – na sua atividade - as aptidões do gênero humano”.


Maurílio Nogueira da Silva,
Pedagogo, Mestre em Psicologia Educacional, Prof. da UFJF.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br


. Escrevi outros dois textos que tem a ver com o tema acima:
“O Homem com um ser feito de Barro e de Sopro” e
“O Trabalho e seu papel fundamental no Desenvolvimento do Homem”
Quem se interessar, solicite que terei o prazer em compartilhá-los.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Minha visão atual sobre Religião, Deus, o Mundo e o Homem

Maurílio Nogueira da Silva*

Hoje não tenho uma religião e nem acho que deva ter. O que tenho é um sentimento religioso do mundo. Procuro conhecer os diversos caminhos e, a partir deles, fazer o meu percurso. Concordo com o grande pensador Leonardo Boff, quando diz que “a tarefa de cada um de nós é fazer seu caminho, de tal forma que melhore e aprofunde o caminho recebido, distorça o torto e o legue aos futuros caminhantes enriquecidos com sua marca pessoal”.

Nesse sentido, concordo, também, com meu mestre Rubem Alves, quando afirma que não gosta da idéia de um “deus engarrafado”, ou que traz o rótulo de uma religião. Diz ele: “ Deus é Amor. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus fará morada em nossos corpos e nossas almas. Então não teremos mais medo, porque o perfeito amor lança fora o medo (1ª. Carta de João)”.Em outro lugar ele diz “Meu Deus é a Beleza”. Esse olhar poético muito me comove.

Nutro-me, também, do pensamento do filósofo Nietzsche, que não matou Deus, conforme as religiões costumam afirmar. Um deus que pode ser morto por um pobre homem mortal não é Deus. Portanto, Nietzsche não matou Deus, porque Deus é imortal. O que ele teve foi a coragem de gritar bem alto que o deus das religiões estava morto. Segundo Boff, Nietzsche prenunciara a morte do Deus fabricado pelo homem, que reside em seu pensamento, sendo produção exclusivamente intelectual humana. Um Deus que tem que morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo.''' (obra citada, editora Sextante, pág 84). Penso que Nietzsche estava certo e suas palavras servem para os dias atuais. É só ver as notícias sobre o que fazem as igrejas, que, aliás, me motivaram a fazer essas reflexões.

Carrego comigo, ainda, as influências de outro pensador alemão, Karl Marx, um grande incompreendido pelas religiões. Ele disse que “a religião é um ópio do povo” e tinha lá suas razões. O que não se pode é pegar esta afirmativa isolada da sua obra. Ele é o criador de uma filosofia denominada “materialismo dialético”, que é uma crítica tanto ao materialismo tradicional ou vulgar quanto ao idealismo, como visões de mundo. Marx concluiu que o materialismo tradicional é vulgar, pobre, reducionista e que o idealismo metafísico é também uma filosofia especulativa que não dá conta da realidade. Isso está resumido em sua Tese I contra o filósofo Feuerbach. Ele disse também que “entre o materialismo vulgar e o idealismo, há mais mérito no idealismo, pois este reconhece o lado ativo do ser humano”. Em outra passagem, ele disse, ainda, que “a natureza não se aventurou a criar o homem”, que este é resultado de múltiplas determinações. E há ainda muitos que o têm como um pregador do materialismo tradicional ou vulgar ou como um defensor da tese do segundo a qual o homem é determinado apenas pelo fator econômico. Isso é o que pensavam e pensam os filósofos e economistas burgueses, que ele sabiamente criticou. Para Marx, a base econômica, a natureza ou a matéria é o meio concreto através do qual os homens produzem e se reproduzem suas condições de existência, mas ela não atua isolada de outros fatores igualmente importantes. Fazendo uma analogia, podemos dizer que o leito do rio ou o encanamento é o meio através do
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*Mestre em Educação, UNICAMP, l986. Estudioso de filosofia, marxismo, psicologia, espiritualidade e áreas afins.
Professor da UFJF
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br




qual a água chega até nós. Mas a água não se origina desse leito ou do cano. Ela vem de uma nascente, muitas vezes longínqua, que a gente não vê. Igualmente, o homem não se origina da
matéria. Seu corpo físico é uma das suas maneiras através da qual ele existe concretamente neste
mundo, mas o homem não se reduz a um corpo. Utilizando outra analogia, o homem é como um computador: feito de hardware e software, ou parte física e parte virtual, que atuam como um todo inseparável feito de corpo e espírito, sendo que o corpo não cria o espírito. Daí, entendemos que a natureza não cria o homem, mas apenas lhe dá um corpo que serve de base física para o espírito. Numa analogia bem atual, podemos dizer que o corpo físico do homem é a carcaça do telefone celular e o chip é o espírito que armazena as informações que darão a identidade ao aparelho. Sem o chip o telefone não funciona. Sem o espírito o homem não é um ser humano. E esse chip ou espírito chega ao indivíduo através do processo educativo ou das suas relações com os homens e com o mundo, onde desde criança ele vai internalizando conteúdos educacionais e formando sua conduta, sua personalidade, sua identidade.

Esta visão do Homem e do Mundo me leva a concluir que realidade que nos cerca transcende o imediato, o que podemos captar com nossos órgãos dos sentidos e com os instrumentos de observação produzidos pela ciência, por mais que ela avance. Temos que ter um olhar do artista, do escultor, que antevê sua obra num pedaço de madeira antes de trazê-la para sua existência concreta. Ele vê o produto, antecipadamente, na matéria bruta sobre a qual atuará. Para mim, isso é transcendência. Isso é ter um sentimento religioso do mundo. E eu tenho isso.

Trago comigo, também, as influências de outro grande educador, Paulo Freire, que era um marxista-cristão, embora muitos achem isso impossível. Ele me marcou muito pelo que disse e pelo seu exemplo de vida, defendendo e praticando sempre o diálogo e a relação amorosa entre os homens. Muito me honra ter sido seu discípulo na UNICAMP.

Desse modo, ao trazer em minha formação esses e outros grandes pensadores religiosos e não religiosos, não vejo como me enquadrar em uma religião. Mas creio, firmemente, no Deus-Amor que torna o mundo muito melhor quando reconhecido como o princípio de tudo. Esta crença não é obstáculo ao avanço científico, através do qual se busca compreender o homem e o mundo. Na minha visão, o papel da ciência não deve ser o de se opor a esse Deus, mas ajudar a revelar sua presença no mundo que pode ser um lugar cada vez melhor, se assim os homens assim o quiserem. O amor, por si mesmo, não faz nada, mas tudo o que fazemos fica melhor se feito com amor. Para mim isso é ter Deus dentro da gente, nos inspirando e iluminando nossos caminhos.

Sendo assim, o que acontece ao homem e ao mundo é fruto das ações dos homens de boa vontade, que têm esse Deus dentro de si, e, infelizmente, dos homens que não têm esse Deus. Por isso, o mundo não é um “paraíso”, mas também não é um “inferno”. Há muita gente a serviço do mal e do desamor, mas também há muita gente vivendo para o bem e o amor. O que nos compete é decidirmos de que lado ficar, enquanto a humanidade for assim e sonhar com o dia em que possamos ser um “só rebanho”.

Minha prática de vida se nutre da utopia de um mundo que possa ir se humanizando, superando as lutas de classes, a exploração do homem pelo homem, os preconceitos de qualquer espécie, proporcionando igualdade de oportunidades para todos os homens e mulheres, com respeito às suas diferenças. Onde haja respeito à natureza, aos recursos que ela nos disponibiliza, respeito a todos os seres vivos. Acho tudo isso possível, contanto que os homens evoluam e queiram um mundo assim. Aprendi que utopia não é o impossível, mas é o possível que ainda não existe.

Em síntese, essa é a minha maneira atual de conceber a Religião, Deus, o Mundo e o Homem, que não se adequa à nenhuma religião, podendo mesmo ser considerada herética por muitos, mas que não é uma postura anti-religiosa, materialista vulgar ou atéia.

Para concluir, transcrevo abaixo uma bela oração poética de Rubem Alves (escrita no seu livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, págs.153-4):


“Pai, mãe de olhos mansos,
Sei que estás, invisível, em todas as coisas,
Que teu nome me seja doce, alegria do meu mundo.
Traze-me as coisas boas em que tens prazer: o jardim, as fontes, as crianças,
o pão e o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo. Desejo que esqueci..
Mas tu não esqueces nunca.
Realiza, pois, o teu desejo para que eu possa rir.
Que teu desejo se realize em nosso mundo da mesma forma que ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono...
Que sejamos livres da ansiedade.
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus
o são para conosco.
Porque, se formos ferozes, não podemos acolher a tua bondade.
Ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus,
E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.

Amém”