quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Uma breve abordagem histórica sobre a compreensão do mundo,
dos filósofos e cientistas ocidentais e a dos místicos orientais

As raízes da ciência ocidental podem ser encontradas no período inicial da filosofia grega do século VI a. C., numa cultura onde a ciência, a filosofia e a religião não se encontravam separadas. Seu objetivo girava em torno da descoberta da natureza essencial ou da constituição real das coisas, a que denominam “physis”. O termo Física deriva, portanto, dessa palavra grega e significava, originalmente, a tentativa de ver a natureza essencial de todas as coisas.

É interessante observar que essa busca de ver natureza de todas as coisas constituía, também, o centro do pensamento dos místicos, sobretudo os seguidores da filosofia da escola de Mileto, que possuía feições nitidamente místicas. Os adeptos desta escola são chamados “hilozoístas”, ou seja, “aqueles que pensam que a matéria é viva”. Esta denominação, estabelecida pelos gregos dos séculos subsequentes, derivava do fato de que esses sábios não viam distinção alguma entre o mundo animado e o inanimado, entre o espírito e a matéria. De fato, eles não possuíam sequer uma palavra para designar a matéria na medida que consideram todas as formas de existência como manifestações da “physis”, dotadas de vida e espiritualidade. Assim, eles declaravam que todas as coisas estavam cheias de deuses. Já Anaximandro encarava o universo como uma espécie de organismo mantido pelo “pneuma”, a respiração cósmica, à semelhança do corpo humano mantido pelo ar.

Heráclito de Éfeso, dessa mesma época, partilhava também de idéias semelhantes. Ele acreditava num mundo orgânico em contínua mudança ou num eterno vir-a-ser. Para ele todo ser estático baseava-se num engano de observação. Segundo ele, o princípio universal do mundo era o fogo, um símbolo para o contínuo fluxo e permanente mudança em todas as coisas. Ele ensinava que todas as transformações no mundo derivam da interação dinâmica dos opostos, vendo qualquer par de opostos como uma unidade. A essa unidade, que contém e transcende todas as forças opostas, denominava “logos”.

A divisão dessa unidade deu-se a partir da “escola eleática”, que pressupunha um Princípio Divino que dirigia o mundo, posicionado acima dos homens. Esse princípio foi inicialmente identificado como a unidade do universo; mais tarde, entretanto, passou a ser encarado como um Deus pessoal e inteligente. Dessa forma, originou-se uma tendência do pensamento responsável, mais tarde, pela separação entre espírito e matéria.

Um passo decisivo nessa direção foi dado por Parmênides de Ekéia. Em nítida oposição a Heráclito, Parmênides denominava seu princípio básico como o “Ser”, afirmando-o o único e invariável. Considerava impossível a mudança, encarando aquelas que presumimos perceber no mundo como ilusões dos sentidos. O conceito de uma substância indestrutível como sujeito de propriedades diversas originou-se dessa filosofia, vindo mais tarde a tornar-se um dos conceitos fundamentais do pensamento ocidental.

No século a V. a. C, os filósofos gregos tentaram superar o agudo contraste entre as visões de Parmênides e Heráclito. Com a finalidade de reconciliar a idéia de um Ser imutável ( de Parmênides) com a de um eterno vir-a-ser ( de Heráclito), partiram do pressuposto de que o Ser acha-se manifesto em determinadas substâncias invariáveis, cuja mistura e separação dá origem às mudanças no mundo. Essa tentativa de reconciliação deu lugar ao conceito de “átomo”, a menor unidade indivisível da matéria, cuja expressão mais clara pode ser encontrada na filosofia de Leucipo e Demócrito. Os atomistas gregos estabeleceram uma linha demarcatória bastante nítida entre espírito e matéria, retratando esta última como sendo formada de inúmeros “blocos básicos de construção”. Tais blocos não passavam de partículas puramente passivas e, intrinsecamente mortas, movendo-se no vácuo. Não era explicada a causa de seu movimento, embora este fosse frequentemente associado a forças externas que se supunham provir de um ser espiritual, sendo fundamentalmente diferentes da matéria.

Essa idéia da divisão entre espírito e matéria ou alma e corpo foi se desenvolvendo até ser sistematizada e organizada por Aristóteles, nos séculos V e VI a C., passando a constituir-se a base do pensamento ocidental durante aproximadamente dois mil anos. Sustentando essa divisão, Aristóteles acreditava que as questões espirituais eram muito mais valiosas do que as investigações em torno do mundo material.

O desenvolvimento posterior da ciência ocidental teve de aguardar o Renascimento para que os homens começassem a se livrar das influências de Aristóteles e da Igreja que seguia suas idéias, passando a apresentar um novo interesse em torno do estudo da Natureza. No fim do século XV, aparece Galileu, combinando conhecimento empírico com a matemática, o que lhe confere o título de “pai da ciência moderna”

O nascimento da Ciência moderna foi, portanto, precedido e acompanhado por um desenvolvimento do pensamento filosófico baseado no dualismo espírito-matéria. Essa formulação foi mantida com a filosofia de René Descartes. Para este filósofo, a visão da natureza derivava de uma divisão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente ( “res cogitans”) e o da matéria ( “res extensa). Essa divisão permitiu aos cientistas da época tratar a matéria como algo morto e inteiramente separada do espírito, vendo o mundo material como uma vasta quantidade de objetos reunidos numa máquina de grandes proporções. Essa “visão mecanicista” do universo foi sustentada, posteriormente, por Isaac Newton, que elaborou sua Mecânica, tornando-se o alicerce da Física Clássica. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza objeto de pesquisa científica eram então encaradas com as leis de Deus, ou seja, invariáveis e eternas, às quais o mundo acha-se submetido. Com Descartes, a mente foi separada do corpo, recebendo a tarefa única de controlá-lo, causando assim um conflito entre a vontade consciente e os instintos involuntários. Posteriormente cada indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu talento, seus sentimentos, suas crenças etc., todos engajados em conflitos intermináveis , geradores de constante confusão metafísica e frustração.

Essa fragmentação interna evidencia nossa visão ocidental do mundo “exterior” como sendo constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. O ambiente natural é tratado como se constituísse em partes isoladas a serem exploradas por diferentes grupos de interesses.

Essa visão ocidental, dualista e mecanicista opõe-se a visão oriental do mundo, integrada e orgânica. Para ela, todas as coisas e todos os fatos percebidos pelos sentidos acham-se inter-relacionados, unidos entre si, constituindo tão simplesmente aspectos ou manifestações diversos da mesma realidade. Os místicos orientais chegam a dizer que a visão dualista e fragmentada do mundo é uma ilusão proveniente de nossa mente voltada para a mensuração e categorização. Essa tendência denominada “avidya”( ignorância) na filosofia budista, foi considerada como o estado de uma mente perturbada que necessita ser superada.

Para a visão oriental do mundo a divisão da natureza em objetos plenamente definidos e separados não corresponde à realidade, pois os objetos possuem um caráter fluido e em eterna mudança. Ela é uma visão de mundo intrinsecamente dinâmica, contendo o tempo e a mudança como características fundamentais. O cosmo é visto como um todo inseparável, em eterno movimento, vivo, orgânico, espiritual e material a mesmo tempo.

Sendo o movimento e a mudança propriedades essenciais das coisas, conclui-se que as forças geradoras do movimento não são exteriores aos objetos (como na visão grega clássica), mas, ao contrário, são uma propriedade intrínseca da matéria em toda a sua riqueza.

De forma correspondente, a imagem oriental de Deus – ou outro nome que se queira dá-lo - não é a de um governante que, das alturas, dirige o mundo, mas de um princípio que tudo controla a partir de dentro, como diz Brihad-aranyaka Upanishad: “Aquele que, habitando em todas as coisas, é no entanto, diversos de todas a coisas. Aquele a quem todas as coisas não conhecem, cujo corpo é feito de todas as coisas. Aquele que controla todas as coisas a partir de dentro. Aquele que é a sua a Alma, o Controlador interior, o Imortal”.

Assim, quanto mais a ciência moderna – mais precisamente a Física Quântica - penetra no mundo microscópico, mais ela compreende a forma pela qual o físico moderno, à semelhança do místico oriental, passa a perceber o mundo dialeticamente, como um sistema componentes inseparáveis, em permanente interação e movimento, sendo o homem parte integrante desse sistema .

Maurilio Nogueira da Silva – Prof. da UFJF
E Mail:nmaurilio@yahoo.com.br

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