quinta-feira, 6 de novembro de 2008

III Semana da Educação - UFJF - 2007

Tema: O Papel Sócio-Histórico e Político do Pedagogo

Farei uma breve explanação do tema e deixarei boa parte do tempo para debate e enriquecimentos. Para facilitar, dividi o tema em 5 tópicos:

1. Quem é o Pedagogo? O que é ser Pedagogo?
2. O Pedagogo não conduz a educação segundo sua vontade abstrata
3. A Educação nunca é neutra politicamente
4. Qual é o lugar de atuação do Pedagogo?
5. Conclusões

1. Quem é o Pedagogo? O que é ser Pedagogo?

Pedagogo é aquele que conduz, que dirige, que guia, que orienta, que direciona a prática educativa. E ele faz isso a partir de uma teoria e uma prática ou uma práxis, que pode ser conservadora ou transformadora. Uma práxis transformadora supõe sempre o conflito, pois ela propõe rupturas e mudanças de comportamento das pessoas. Já uma práxis conservadora mascara os conflitos, nega rupturas, propõe a acomodação e o ajuste do educando a uma situação.

O Pedagogo não pode, portanto, se omitir do seu papel de conduzir, de dirigir os educandos no rumo que ele acredita ser o melhor. E deve ter clareza dos seus objetivos. A não-diretividade é um mito, como diz Georges Snyders. Hoje, quando os pais, por exemplo, não dirigem a educação dos seus filhos, outras instâncias cumprem esse papel diretivo. Basta olharmos a força que têm os meios de comunicação de hoje. A diretividade na educação é assumida pela maioria dos educadores de todos os tempos. Acho um equívoco grave os que se esquivam dela, em nome de uma Pedagogia Liberal ou algo equivalente, como costumamos ouvir e ver. No Brasil, temos um grande defensor da diretividade na educação, o Prof. Dermeval Saviani, de quem fui aluno na UNICAMP.

A questão, portanto, não é a polarização entre diretividade e não diretividade do Pedagogo ou do Educador. O que deve pautar esta discussão é a maneira como essa diretividade deve ser feita: autocrática, autoritária ou dogmaticamente ou, ao contrário, democrática e dialogal, entendendo o educando como um ser ativo e não como um reflexo passivo ou depositário passivo de sua influência.

2. O Pedagogo não conduz o Educando segundo sua vontade abstrata

O Pedagogo tem atrás de si uma sociedade com sua cultura, sua concepção de homem, de mundo, de educação, na qual ele é formado e colocado para reproduzi-la. Por isso, dizemos que seu papel é sócio-histórico e político, mesmo quando ele diz o contrário – que seu papel é apenas de educador e política é coisa dos políticos.
O educador tem também que ser Educado”, como diz Marx. Seu papel ou sua atuação não se dá, portanto, a partir de sua vontade tomada em abstrato. Ele representa uma prática sócio-histórica à qual tem que prestar contas.
Mas, assim como o educando não é um ser passivo ou reflexo passivo do educador, este também não pode ser um educador passivo ou reflexo passivo das determinações sócio-históricas e políticas que estão por detrás de si. Ao mesmo tempo em que ele não pode desconhecer que é determinado sócio-historicamente, ele também não pode deixar de reconhecer que é um ser ativo, que pode e deve imprimir sua marca, sua subjetividade no seu papel.
Por isso, devemos buscar eleger bem os que irão dirigir as Escolas: o Diretor, o Supervisor, o Coordenador, o Reitor. E selecionar bem os Pedagogos e os professores que irão interagir com os Educandos.

Vejam que nosso raciocínio é dialético. Ou seja, ao mesmo tempo que dizemos que o Pedagogo é determinado sócio-histórica e politicamente e que sua atuação não é tão livre, também afirmamos que ele tem sua individualidade, deixa sua marca pessoal nos acontecimentos. Caso contrário, cairíamos ou no determinismo absoluto – o Pedagogo não teria nenhuma liberdade - ou no voluntarismo ingênuo – o Pedagogo teria toda liberdade para agir a partir de sua vontade individual e abstrata. Na verdade, o Pedagogo, assim como qualquer profissional ou qualquer homem, é um ser que resulta de determinações sócio-históricas e políticas e do modo como ele, individualmente, reage a essas determinações, imprimindo sua individualidade, seu caráter, sua marca nos acontecimentos, como dissemos acima.


3. A Educação Escolar nunca é neutra politicamente.

A Escola serve a um grupo ou classe que domina na sociedade, que detêm o poder econômico e político. Mesmo que admitamos que a escola não é meramente reprodutora da ideologia dominante (ou AIE, como afirmou Altusser) sua prática dominante é de reprodução.

Hoje estamos numa sociedade de característica capitalista neo-liberal que procura se globalizar a todo custo. Ela é praticamente unipolar ou hegemônica. Há um centro de onde emanam as ordens para o mundo: EUA, Europa. Somos todos influenciados – uns mais e outros menos - por esses países que estão no topo da economia. Embora haja quem diga que hoje não há mais imperialismo, lutas de classes e coisas assim, a verdade está aí a mostrar que isso continua, embora com feições ou aparências diferentes.

Mas não podemos deixar de notar, com satisfação, que esse quadro de submissão ao imperialismo capitalista começa a mudar. Vejamos o caso da China – país cuja economia é uma das que mais cresce. Temos também os focos de resistência na América pobre: Cuba, com seu insistente Socialismo e agora Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador ... e, em alguns aspectos, o Brasil do governo Lula, que são países que vêm procurando se libertar da tutela dos países ricos. Hoje a correlação de forças já não é tão favorável a estes países que têm nos tratado como colônias. Cresce o número de pessoas que já se dão conta de que o capitalismo anda esgotado, já não é sinônimo de desenvolvimento, segurança, justiça social. A Ordem e Progresso que ele propõe já não pode ser vista como Ordem e nem como Progresso como Progresso, se olharmos mais atentamente.

4. Qual o lugar de atuação do Pedagogo? É apenas na Escola ou em qualquer lugar onde acontece a Educação?

O Pedagogo ou a ação pedagógica é necessária ou cabível não só na Escola, mas também na Família, no ambiente do Trabalho, nos Partidos Políticos, nos Movimentos Populares, nos Movimentos Estudantis, nos Sindicatos etc. e também nas igrejas, nos hospitais, nos presídios, enfim, em qualquer lugar onde a ação educativa se faça necessária.

A Educação no sentido amplo é tão antiga quanto o homem. Já a Escola é uma instituição relativamente nova na história da humanidade à qual cabe fazer a chamada educação formal ou sistematizada, socializando o saber historicamente produzido pela humanidade, pesquisando soluções para os problemas da atualidade e praticando a extensão desses conhecimentos a toda a sociedade.

5. Conclusões
Por tudo isso, nós Pedagogos, não podemos deixar de ter essa consciência do nosso papel sócio-histórico e político. É com ela que podemos construir uma Educação que possa ajudar a “parir” outra ordem social que coloque o mundo na rota do desenvolvimento com qualidade e justiça social para todos, indistintamente. Penso que o Capitalismo deu historicamente sua contribuição à humanidade, mas depois se “engravidou” de outra sociedade que precisa nascer. Essa é a lógica dos regimes sociais, como diz Marx: “o novo nasce do ventre do velho”. Quando um regime esgota suas possibilidades de desenvolvimento ele tem que ser superado. E essa superação ou transformação social passa por uma práxis educativa revolucionária que exige vontade firme e competência. Por isso, ao buscarmos competência técnica para o exercício de nosso trabalho pedagógico, temos que ter consciência de que nenhum saber é neutro e buscarmos, ao mesmo tempo, desenvolver nosso papel sócio-histórico e político para termos condições de imprimir à Educação “novos ramos e rumos”, como pretende o “slogan” dessa III Semana de Educação da UFJF.

Agradeço o convite para participar desta III Semana de Educação de nossa Universidade e me coloco à disposição para o prosseguimento dos trabalhos desta noite.

Deixo agora um tempo para fazermos o debate que o tema suscita, enriquecendo-o com suas contestações, dúvidas e acréscimos.

Maurílio Nogueira da Silva
Prof. da UFJF, MS em Educação pela UNICAMP
( E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br)

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