quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Construção pelo Socialismo:
uma luta que exige sonho, conhecimento e persistência


Maurilio Nogueira da Silva*


As idéias que vou expressar aqui já há algum tempo me inquietam, mas agora resolvi escrevê-las motivado por um artigo do Jornal A Classe Operária, intitulado Visões Distintas do Socialismo (1).

Baseado nesse artigo, resolvi fazer uma breve análise das quatro posições que se podem identificar quando se fala da construção do Socialismo.

. Primeiramente há o grupo de pessoas que desistiram da luta pelo Socialismo, acreditando que com a morte do modelo soviético ou do chamado “socialismo real” morreu junto o sonho do Socialismo e com ele as idéias de Marx, Engels e Lenin. Para essas pessoas agora resta buscar adocicar o capitalismo para obter dele alguns ganhos, sem esperar por outra forma de sociedade. O Capitalismo é o “fim da história”.

. Depois vem o grupo daqueles que insistem na luta por um “Socialismo Democrático”, que deve ser construído pacificamente nos marcos da Sociedade Capitalista, sem luta de classes. Esse grupo faz hoje, conscientemente ou não, uma retomada dos ideais social-democratas.

. Há também aqueles que se negam a participar de quaisquer lutas por melhorias no campo da sociedade capitalista, acreditando que “quanto pior melhor” ou que o Socialismo nascerá dos escombros da sociedade capitalista. Essa é uma visão evolucionista da história, que não condiz com a realidade.

. Finalmente há outro grupo de pessoas que prosseguem acreditando que os ideais socialistas continuam de pé, mas que não existe “receitas para os caldeirões do futuro”, como disse Marx. Para estes o que se perdeu com os modelos de socialismos que cairam foram algumas experimentos e todo cientista sabe que perder alguns experimentos não pode levar a abandonar a pesquisa. Tem-se que aprender com os erros e construir novos experimentos, cuidando para não cometer os mesmos erros e acreditado que “se faz caminhos ao caminhar”.

Essa constatação lembra-me a vida do agricultor . Ele também sonha, planta, espera pela colheita, perde alguns plantios e faz novos, incorporando experiências acumuladas. E assim segue sua luta acreditando na colheita. O agricultor que planta o milho sabe que este será colhido após um período de aproximadamente quatro meses. E ele planta acreditando na colheita, espera por ela com sabedoria e persistência.

E enquanto espera pela colheita principal, ele costuma aproveitar a mesma terra, plantando entre as fileiras do milho outras culturas, tais como feijão, abóbora, melancia e outras que podem ser colhidas bem antes do milho. Essas colheitas intermediárias animam
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· Professor da área de Política Educacional da UFJF, filiado ao PCdoB e estudioso do Socialismo Cubano ( E Mail :nmaurilio@yahoo.com.br)

o agricultor a trabalhar na capina e outros cuidados que a lavoura do milho exige. Assim, enquanto cuida da roça do milho, ele vai vivendo das colheitas mais rápidas, que lhe dão um alento e o ajudam na caminhada.

Penso que assim também é a nossa situação de “plantadores de socialismo”. Sonhamos, plantamos, perdemos experimentos e voltamos a plantar, com mais conhecimento, evitando cometer os mesmos erros. Seguimos com esperança, sabedoria e persistência o nosso objetivo. E tal como o plantador de milho, também cuidamos de plantar algumas culturas intermediárias, que se colhem mais rapidamente e vão amenizando nossa caminhada. Mas sem perder de vista a colheita principal, que é uma sociedade radicalmente transformada, socialista e verdadeiramente humana.

Acredito que essa é a estratégia de quem sabe que a luta pelo Socialismo precisa continuar de pé, mas ser constantemente atualizada, a partir das situações postas pelas novas condições sócio-históricas e sabendo tirar proveito mais dos erros do que dos acertos.
Temos que imitar o plantador de milho, procurando fazer as colheitas possíveis no terreno capitalista, mas sem esquecer a colheita principal que é o Socialismo, ou uma sociedade totalmente renovada.

Entusiasmam-nos as importantes conquistas eleitorais das forças de esquerda e o surgimento de grande número de governos municipais e estaduais sob a liderança dessas forças, principalmente do Partido dos Trabalhadores. Julgamos que é saudável o surgimento dos métodos democráticos de gestão, como o orçamento participativo, o estrito respeito aos padrões éticos e a implantação de medidas sócio-econômicas compensatórias, como programas de renda mínima e outros. Mas temos que ter consciência de que essas conquistas não significam que estamos construindo pacificamente o socialismo O quadro político e social do mundo contemporâneo e ainda mais do Brasil aponta na direção contrárias a tais ilusões. A luta é cada vez mais sofisticada e mais dura. O Estado, apesar das aparências, é cada vez, mais antidemocrático, o sistema internacional é mais monopolizador. Usar os instrumentos institucionais e as políticas públicas que estiverem e enquanto estiverem ao alcance da esquerda – e até do centro – pode ser uma opção tática inteligente. Desde que não se negue que a conquista e a construção do socialismo tem como pressuposto a ruptura do “status-quo”, a substituição de classes sociais no poder e o soerguimento de novas instituições sob nova liderança da classe trabalhadora. Do contrário, será trilhar o velho caminho da social-democracia.

Temos que tornar público que os erros cometidos no passado, a derrocada do modelo soviético, a dogmatização da teoria, a visão idílica da nova sociedade têm passado pelo crivo de uma crítica ácida. Na Conferência do PCdoB, que aprovou o Programa Socialista, adotou-se o lema de que “ é anticientífico o modelo único de socialismo”. É necessário atualizar e rever conceitos para extrair daí uma análise das situações concretas, a partir de teorias contemporâneas que possam ajudar na construção do socialismo nas condições do Brasil.

É exatamente isso o que temos de fazer: mostrar uma esquerda consequente, que não tem medo de fazer autocrítica, de se atualizar, rever conceitos, dialogar com todas as forças progressistas da sociedade, ajudando a construir uma unidade com todos aqueles que buscam ampliar espaços democráticos que possam contribuir para minorar os sofrimentos do nosso povo, sem perder o ideal socialista. Eu chamaria essas conquistas de “colheitas intermediárias” que, embora não signifiquem a construção do socialismo, ajudam a manter acesa a esperança e nos fortalece para a construção de uma sociedade verdadeiramente humana, que é o nosso sonho maior.

Para finalizar, transcrevemos aqui as boas novas, divulgadas no referido artigo, que evidenciam a atualidade da luta pelo Socialismo:

. Em outubro de l997 realizou-se em Havana-Cuba o Seminário “Socialismo e Democracia para o Século XXI”, com grande sucesso.

. No Fórum Social Mundial de Porto Alegre, que acabou de acontecer, não foram poucos os intelectuais que apresentaram o Socialismo como alternativa para a humanidade.

. Em l998, foi grande o destaque internacional dado às comemorações do sesquicentenário do Manifesto Comunista, de Marx e Engels.

. Em Atenas, por iniciativa do PC Grego, realizou-se recentemente dois mega-eventos, reunindo partidos comunistas e revolucionários de todo o mundo, onde a luta pelo socialismo foi o tema central das discussões.
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(1) O artigo do Jornal A Classe Operária ao qual nos referimos é de autoria de José Reinaldo de Carvalho, Secretário de Relações Internacionais do PCdoB e está disponilizado na Internet a partir do dia 5/4/2001.
E Mail: classeop@vento.com.br

Sobre as questões acima, sugerimos algumas leituras:

. União do Povo Contra o Neoliberalismo - Documentos do 9º Congresso do PC doB, São
Paulo. Ed.Anita Garibaldi, l998.

. AMAZONAS, João. Os Desafios do Socialismo no Século XXI. São Paulo, Anita Garibaldi,
l999.

. Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro – Documentos do PCdoB de l960 a 2000,
São Paulo, Ed. Anita Garibaldi, 2000.

. RAUBER, Maria I. Izquerda Latinoamericana: crisis y cambio. Habana, Cuba, Ed. Política,
l993.
. Revista Princípios, Ed. Anita Garibaldi, Rua Monsenhor Pa

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