sábado, 24 de janeiro de 2009

*O Trabalho e seu papel fundamental na Criação do Homem


** Maurilio Nogueira da Silva

“ Tanto a ciência da Natureza, como a Filosofia, descuidaram inteiramente, até agora, de investigar a influência da Atividade humana sobre o Pensamento. Ambas só consideram a Natureza de um lado e o Pensamento do outro Mas é precisamente a modificação da Natureza pelos homens ( e não a Natureza como tal) o que constitui a base mais imediata do pensamento humano. É à medida em que o homem foi aprendendo a transformar a Natureza que sua Inteligência foi se desenvolvendo” ( Engels, l876 ).

Com esse pequeno texto, pretendemos contribuir para as reflexões sobre a importância do Trabalho na vida do Homem, entendendo que ele é mais do que a fonte de toda a riqueza, podendo ser considerado, num certo sentido, como o Criador do Homem.

O primeiro passo na evolução dos animais até o homem – segundo Engels - deve-se, inicialmente, ao surgimento da mão com funções distintas das dos pés, quando os antepassados do homem atingiram a postura ereta e liberaram as mãos para realizar outras atividades. Embora os macacos tenham chegado a usar as mãos para recolher alimentos e tenham atingindo a postura semi-ereta, é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho durante centena de milhares de anos. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra por mais tosco que fosse.

Ao ficarem livres de serem pés, as mãos adquiriram mais destreza e habilidade e esta maior flexibilidade transmitiu-se por herança de geração em geração. Por isso, pode-se dizer que a mão não é apenas um órgão do trabalho; é também produto dele. Assim, ao se desenvolver, a mão do homem atingiu, pelo trabalho, o grau de perfeição atual e continua a se desenvolver, tornando-se capaz de realizar as obras de arte que hoje nos emocionam.

A partir daí, o aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta, desencadearam mudanças em todo o seu o organismo e no seu psiquismo, permitindo-lhe realizar trabalhos cada vez mais complexos.

Com o desenvolvimento do trabalho surgiu cérebro humano, que supera em tamanho e perfeição o cérebro do macaco mais desenvolvido. E, à medida que se desenvolvia o cérebro humano, desenvolviam-se, também, seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos humanos.

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· Texto baseado num artigo (inacabado) de Friedrich Engels: Humanização do Macaco pelo Trabalho, produzido em l876 e publicado na obra Dialética da Natureza, Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

** Mestre em Educação,UNICAMP, Campinas, SP, l986.
Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora.
E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
O trabalho criou os demais órgãos do homem, inclusive os órgãos responsáveis pela fala., dando origem à linguagem humana.

Assim, com o desenvolvimento do cérebro, dos órgãos dos sentidos e da linguagem foram surgindo a capacidade de abstração e de discernimento, a consciência e as formas de comunicação humanas.

No princípio, atividade do homem limitava-se à busca da sobrevivência imediata, começando pela colheita de alimentos e isso não era trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa realmente com a produção de instrumentos. Os animais podem chegar a utilizar instrumentos, mas não chegam a produzi-los ou modifica-los.

Ao começar a produzir e utilizar conscientemente os instrumentos de trabalho, inicialmente de caça, pesca e armas de ataque e defesa, o homem passou a sofrer modificações profundas em seu modo de vida. Passou da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, incluindo-se a carne. A partir daí sua alimentação passou a oferecer ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. O hábito de combinar a carne com outros alimentos de origem vegetal contribuiu para dar ao homem mais força física. Mas onde a influência da alimentação com a carne mais se manifestou foi no seu cérebro, que recebeu assim uma quantidade muito maior do que antes de proteínas.

O crescente consumo da carne na alimentação teve papel importante na descoberta e o uso do fogo e no surgimento da atividade de domesticação de animais. O primeiro reduziu o processo de digestão, permitindo levar a comida à boca já meio digerida. O segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte de obtê-la de forma mais regular. Apareceu, assim, o trabalho de domesticação de animais para aumentar e facilitar o acesso à carne, ao leite e seus derivados.

Depois de haver aprendido a produzir alimento, não se limitando a comer o que encontrava pronto, o homem aprendeu também a produzir as condições para viver em qualquer clima. De animal que se adapta à natureza, o homem passou a transformar o meio, ajustando-o às suas necessidades. Diante das variações climáticas, o homem foi se preparando, cobrindo o corpo, fazendo habitações, surgindo, assim, novas esferas de trabalho e com elas novas atividades que foram o afastando cada vez mais de seus antepassados animais.

Sempre, graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, propondo-se a alcançar objetivos cada vez mais variados. À caça e à pesca vieram se juntar a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a olaria, o trabalho com metais, a navegação e assim por diante. Aparecem depois os ofícios, o comércio, as artes e as ciências.

Esse desenvolvimento, que começou na antiguidade, pelo trabalho, separando o homem do animal, não cessou de modo algum. Ele continua num grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido às vezes por retrocessos de caráter local e temporário, mas sempre avançando, com suas contradições e impulsionado e orientado em determinado sentido por um novo elemento que surge com o aparecimento do homem acabado: a sociedade.

Como o trabalho é uma atividade eminentemente social, os homens foram criando suas instituições sociais. Das tribos sairam as nações e os estados. Isso levou ao aparecimento do direito e da política, e com eles, do reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião.

Essas criações, originadas das necessidades de organizar a produção material e a vida social como um todo, foram sendo, posteriormente, consideradas produtos do trabalho do cérebro isoladas do trabalho prático e se sobrepondo às produções mais modestas – fruto do trabalho da mão – que ficaram relegadas a segundo plano. A cabeça ou cérebro planejava o trabalho e obrigava mãos alheias a realizá-lo por ela. E os homens foram passando a achar isso muito natural, respaldados por ideologias conservadoras que se serviam de argumentos genéticos, filosóficos e religiosos para justificar a separação entre o trabalho teórico e o prático.

O progresso da civilização passou a ser atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento da atividade do cérebro. Os homens foram sendo levados a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar essa explicação em suas necessidades (refletidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire consciência delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu a concepção idealista do mundo, que dominou o cérebro dos homens, sobretudo, a partir do desaparecimento do mundo antigo e ainda continua a dominá-lo até hoje. Mesmo os materialistas naturalistas da escola darwiniana são incapazes de formar uma idéia clara sobre a origem do homem. Eles foram também influenciados pelo idealismo ao considerarem a matéria ou a natureza, em si mesma, como criadora do homem, não percebendo o papel decisivo desempenhado pelo trabalho na passagem do animal ao homem.

Outro aspecto importante a se considerar aqui é que quanto mais os homens se afastam dos animais, mais seu trabalho sobre a natureza adquire um caráter de uma ação intencional e planejada, buscando alcançar objetivos projetados de antemão.

A ação planificada, conforme observou Engels, existe, em germe, onde quer que o protoplasma – a albumina viva – exista e reaja, isto é, realize determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz não digamos já na célula nervosa, mas inclusive quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas carnívoras se apoderam de sua presa aparece também, de certo modo, como um ato planejado, embora se realize de modo instintivo e totalmente inconsciente. Nos animais superiores, os mamíferos por exemplo, as ações intencionais já apresentam níveis bem mais elevados.

Nos animais domesticados, que chegaram a um grau mais alto de desenvolvimento graças à convivência com o homem podem ser observados diariamente atos de astúcia equiparados aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual ou intelectual da criança representa uma réplica, ainda que mais abreviada do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos. Mas nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pode fazê-lo. O Homem modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, segundo um plano intencional e sua atividade tem um caráter social. Aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, a diferença que, mais uma vez, resulta do Trabalho.

Para lidar com a natureza de modo planificado, homem teve que procurar aprender suas leis e conhecer tanto os efeitos imediatos quanto os efeitos remotos de sua intromissão no curso natural de seu desenvolvimento.

Só que o homem não existe fora da sociedade onde predomina um modo de produção que determina a maneira como os homens devem trabalhar, relacionar entre si e com a natureza. É no interior de determinado modo de produção que surge o trabalho da Educação, visando preparar as gerações do futuro.

Todos os modos de produção que existiram até hoje, infelizmente, enfatizam apenas o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e imediata. Não educam as pessoas para perceberam as consequências remotas, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal.

Posteriormente, todas as formas seguintes de produção mais modernas conduziram à divisão da população em grupos e, mais tarde, em classes diferentes, criando o antagonismo entre a classe dominante e a classe oprimida. Em consequência os interesses da classe dominante converteram-se mais decisivamente no elemento propulsor da produção e da educação. Isso encontra sua expressão mais acabada no modo de produção capitalista. Os capitalistas que dominam a produção e a troca, só podem ocupar-se da utilidade mais imediata dos seus atos. Mais ainda, mesmo essa utilidade – porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada – passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

Por tudo isso, temos que superar a ciência social da burguesia, a economia política clássica, que se ocupa preferentemente daquelas consequências sociais que constituem os objetivos imediatos do trabalho realizado pelos homens na produção e na troca.

Para que seja eliminado esse imediatismo na relação dos homens com a natureza e com seus semelhantes, com todos os resultados negativos que daí advêm, é necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.

Concluindo, afirmamos que a superação do Capitalismo por uma nova ordem social mais justa e democrática é uma condição indispensável – mesmo que não suficiente – para fazer com que o Trabalho seja, de fato, um aliado permanente da Educação e ambos possam criar as condições para o desenvolvimento harmônico do ser humano.

Hoje, apesar dos contratempos e da hegemonia do capital, podemos notar em todo o mundo avanços na direção de uma crítica cada vez mais consistente à ordem social dominante, seguidas de renovadas esperanças de construção de uma nova ordem social. Crescem as lutas dos setores progressistas: partidos identificados com as causas dos trabalhadores e oprimidos em geral, sindicatos, associações, segmentos avançados de igrejas, organizações ligadas às lutas pela reforma agrária, pela preservação do meio ambiente e por um desenvolvimento sustentável, bem como outros tantos movimentos liderados por educadores, cientistas, artistas e intelectuais em geral que lutam pela emancipação humana. Essas atividades, que se desenvolvem em todo o mundo, têm um caráter eminentemente político-educativo. Elas desempenham papel fundamental para a superação da sociedade de classes e a criação de um mundo verdadeiramente democrático, onde o trabalho deixe de ser um fator de exploração e a alienação e passe a ser uma atividade que produz riqueza material e espiritual para todos, cumprindo, assim, seu papel criador do homem em todas as suas dimensões.

Leituras sugeridas:

1. ALVIM, Célia. M. A Natureza Humana e o Conteúdo do Trabalho – Um estudo sobre a crítica
ao projeto de escola profissionalizante de 2º grau ( Dissertação de Mestrado, UFSCar, l986).

2. ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho. São Paulo, Boitempo Editorial, 2000.

3. ENGELS, F. Dialética da Natureza. Rio de Janeiro, Paz e Terra, l979.

4._______ A Origem da Família e da Propriedade Privada. São Paulo, Global, l985.

5 FRIGOTTO, Gaudêncio et. alii. Educação e Crise do Trabalho. Petrópolis, Vozes, l998

6. HILTON, R. et alii. A Transição do Feudalismo para o Capitalismo – Um Debate. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, l977.

7. IANNI, Octavio. Dialética e Capitalismo: Ensaio sobre o Pensamento de Marx. Petrópolis,
Vozes, l982.

8. KOVALEV, V. D. A Sociedade Primitiva. São Paulo, Global, l982.

9. LAFARGUE, Paul. O Direito à Preguiça. São Paulo, UCITEC, 2000.

10. LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad. Buenos Aires, Ciencias del
Hombre, l978

11. MARX, K. e ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo, Cortez, l998.

12.NETTO, José Paulo. Democracia e Transição Socialista. Belo Horizonte, Oficina de Livros,
l990

13. NETTO, Antonio J. de M. Globalização do Capital na Agricultura e o Projeto Educativo
do MST. Univ. soc. , Brasília, v. 9, no. 20, set/dez/l999.

14. SIQUEIRA, J. Nas Barricadas do Século: A (des)ordem neoliberal. São Paulo, Anita
Garibaldi, l986.

15. SHNEIDER, R. Trabalho, Capital Alegria. São Paulo, Paulinas, l983.

16. SILVA, Maurilio. O Papel do Trabalho e da Escola no Processo de Produção da
Consciência ( Trabalho apresentado na IV Conferência Brasileira de Educação – CBE, em
Goiânia, l986).

17 _______. O Desenvolvimento das Relações Sociais e a Importância do Trabalho na Vida
do Homem ( Palestra feita para trabalhadores da EMATER-MG, em l987).

18. _______. Desemprego e Desumanização no Capitalismo ( Texto apresentado em Mesa
Redonda sobre Neoliberalismo, Globalização e Desemprego, promovida pelo NEETEC, na
UFJF, em l999).

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