quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sobre as transformações das idéias – ou por uma Pedagogia do Diálogo

Maurilio Nogueira*

É muito comum querermos arrancar das pessoas determinadas idéias, pretendendo substituí-las pelas nossas, que julgamos melhores. Equivocadamente, agimos, assim muitas vezes, com a melhor das nossas intenções. Precisamos estar conscientes de que a história não é feita pela nossa vontade individual, independente das condições objetivas em que se vive. As pessoas têm certas idéias em função dessas condições e suas idéias só mudam com a transformação das condições concretas em que vivem. E ainda assim, a mudança das idéias não acontece logo em seguida à mudança das condições materiais de vida. Temos que compreender que as pessoas que não compartilham das mesmas condições de vida que nós, têm idéias muito distintas das nossas e até mesmo contrárias. E defendem essas idéias como corretas. Por isso, nossa luta deve ser a de compreender as pessoas no seu contexto, não nos achando superiores, mas ajudando-as nas transformações de suas condições materiais de vida, sem exigir que elas aceitem, previamente, as idéias que julgamos mais acertadas. Essa atitude é valorizar a subjetividade e a objetividade.

Isso não quer dizer, todavia, que esta é uma questão mecânica ou automática, ou seja, que transformadas as suas condições de vida, as pessoas passarão logo a adotar novas idéias. O que ocorre é que sem as transformações materiais de vida não se mudam as idéias de ninguém, embora as transformações materiais não sejam suficientes. As idéias não são destituídas de força e nem as condições materiais agem por conta própria. Admitir isso, significa cair num determinismo absoluto das condições materiais. O que afirmamos é que as idéias se originam e se desenvolvem sobre uma base material sócio-histórica e a partir dos pares que temos. Esses pares são os nossos significantes, ou aquelas pessoas que nos passam os significados acerca da realidade. Não podemos repetir as práticas dos idealistas ingênuos e nem a dos materialistas tradicionais ou vulgares. Os idealistas acreditam que são as idéias, por si mesmas, que mudam o mundo. Os materialistas tradicionais ou vulgares, ao contrário, negam qualquer valor às idéias e pregam o determinismo absoluto das condições materiais. O pensamento dialético nos leva a compreender que as idéias têm um papel mediador importante nas atividades dos homens, mas elas são produzidas e disseminadas num contexto sócio-histórico e tem que estar aliadas a uma atitude, a uma prática. O evangelista, São Paulo, diz algo semelhante com afirma que “a fé sem obras é morta”. Por isso, temos que conhecer a vida real das pessoas, de onde se originam suas idéias, quem são seus pares ou seus significantes. Isso exige uma pedagogia baseada na compreensão, no diálogo e na paciência. Ninguém impõe uma consciência a ninguém. As pessoas se conscientizam em comunhão, como diz Paulo Freire. Guerrear contra as idéias dos outros, utilizando as armas das nossas idéias, sem levar em conta o contexto do outro e o nosso, não é uma atitude acertada. As idéias que ganham força na vida das pessoas são aquelas que caminham junto com as suas condições concretas de vida. Portanto para mudar as idéias de uma pessoa é necessário ajudá-la a mudar suas condições objetivas de vida. Além disso, é preciso sabermos se estamos certos em querer mudar as idéias do outro e se o outro quer realmente mudar suas idéias. Caso contrário, estaremos perdendo nosso tempo e angariando para nós antipatias e rupturas.

* Maurilio Nogueira da Silva - Prof. da UFJF - E. mail: nmaurilio@yahoo.com.br

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