O Homem como um Ser feito de “Barro e de Sopro”
** Maurílio Nogueira da Silva
“O homem é feito de barro e de sopro”(Bíblia Sagrada)
“A natureza não se aventurou a criar homens.“O homem é síntese
de múltiplas determinações” (Karl Marx).
Com este pequeno texto pretendemos fazer algumas reflexões sobre as duas citações acima, que tratam da criação do homem, por considerar que elas têm um interessante ponto em comum, no sentido de dizerem que o homem não é apenas um animal mais desenvolvido, como afirmam os materialistas ou evolucionistas tradicionais.
Quanto à frase bíblica segundo a qual “o homem é feito de barro e sopro”, nos permitimos apenas um reparo. Para nós o que o “sopro” produz não é a alma, como se costuma afirmar, mas o espírito. Hoje a ciência afirma que a vida ou a alma não vem de fora, mas origina-se do desenvolvimento da matéria ou da própria natureza, com suas leis próprias, através das quais a matéria inanimada, em certas condições, chega à condição de matéria animada ou que tem alma. Já o espírito não é obra da natureza. Ele é imaterial e existe – potencialmente - antes da existência do indivíduo, como uma planta de uma casa existe antes da casa construída. Desde o nascimento o indivíduo vai construindo seu ser a partir da planta que recebeu da genética, da convivência na barriga da mãe, das relações que vai tendo com as pessoas e com o mundo. Tudo isso cria e educa o “eu” do indivíduo, produz sua consciência, faz emergir sua espiritualidade, tornando-o um ser que transcende sua animalidade.
Sobre a frase do filósofo Karl Marx, dizendo que “a natureza não se aventurou a criar homens e que este é síntese de múltiplas determinações”, nossa interpretação é que o homem é, inicialmente, parte da natureza e está submetido às leis que a regem, participando do mundo mineral, vegetal e animal. E como todo ser ele tem um corpo que, em certas condições, chega a ter uma alma, tornando-se um ser animado. No entanto, não lhe basta ter corpo e alma. Ele necessita de um espírito e este não lhe é dado pela natureza. É nas suas atividades com outros seres humanos que o indivíduo desenvolve seu espírito e constroi seu “eu” , passa a se diferenciar dos demais seres vivos, tornando-se humano. Os animais são também educados ou educáveis, mas apenas dentro dos limites das suas possibilidades corporais e, sobretudo do seu cérebro. Eles não atingem o pensamento reflexivo, a consciência e muito menos a auto-consciência ou consciência de si. Não têm um “eu” único e irrepetível, como o ser humano.
Para um melhor entendimento do que estamos afirmando, julgamos necessário explicitar um pouco mais os conceitos de corpo, alma e espírito.
O corpo é a matéria prima – a natureza, ou o “barro” - do qual é feito o mundo. Essa base material, inicialmente inanimada, é a primeira forma de existência do mundo e de tudo
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(*) Este texto tem um formato didático e destina-se estudiosos de filosofia, antropologia, psicologia,
religião e outras áreas afins. Essa é uma versão de janeiro de 2009.
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** Mestre em Psicologia Educacional, UNICAMP, l986.
Professor da Universidade Federal Juiz de Fora- MG - E. Mail: nmaurilio@yahoo.com.br
que nele habita. O que vem depois supõe essa base material – o que não quer dizer que vem dela, tal como prega o materialismo vulgar. Por exemplo, a inteligência supõe um cérebro, mas ela não vem do cérebro, como pensam os materialistas vulgares.
A alma – ou “anima”(do latim)– significa a vida e esta se constitui numa nova forma mais desenvolvida que a matéria adquire, em certas condições e por um período de tempo, pois os seres vivos morrem e voltam à condição de seres inanimados. Como diz a Bíblia “ somos pó e ao pó retornaremos”.
O espírito é o “eu” de cada indivíduo, que torna possível sua consciência e auto-consciência. É o espírito que permite ao indivíduo reconhecer a si, transcender sua natureza animal, tornando-o um ser que é parte da natureza, mas, ao mesmo tempo, dela se distancia; um ser que é parte da sociedade humana , mas que tem uma individualidade que o torna único e irrepetível . Por isso, diga-se de passagem, não há possibilidade de se clonar um ser humano. O que se pode fazer é tão somente um corpo semelhante a outro geneticamente, mas não um ser humano igual a outro. Não há possibilidade de se fazer clonagem do espírito, pois isso significaria clonar todas as experiências vividas pelo indivíduo em sua vida, o que é absolutamente impossível.
Em nossa opinião, a maioria das pessoas – e até religiosos e teólogos - toma como sinônimos os conceitos de “alma” e “espírito”. Quase sempre ouvimos referência à alma quando se deveria dizer espírito. É comum ouvirmos dizer que uma pessoa é uma “alma boa”, quando na verdade se deveria dizer “um espírito bom”. A alma é simplesmente a vida e não cabe atribuir a ela qualidades ou juízos de valor. Os estudos da alma ou da vida, a nosso ver, pertencem aos biólogos. Já o espírito não é de natureza material. Seu estudo pertence à psicologia, à teologia e áreas afins, embora não possa ser compreendido abstraído do corpo ou da matéria. Talvez, por isso, diz a Bíblia que “o que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito”. E que “ o homem tem que nascer de novo”. Dizendo de outro modo, a natureza faz a base física do indivíduo, mas é a sociedade, a cultura onde ele vive, que desenvolve sua hominização, sua individualidade, sua subjetividade ou, em outras palavras, seu espírito.
Comparando o homem com um carro, podemos dizer que seu corpo é a parte física do carro. A alma é o combustível que permite o carro se movimentar - mas não o dirige. O espírito é o motorista do carro, que o dirige, utilizando seu cérebro, os órgãos dos sentidos e os órgãos motores, segundo um treinamento,uma orientação ou educação recebida. O motorista é o que conduz o carro para o destino estabelecido, determina a velocidade e o trajeto a ser percorrido. E sabe o que está fazendo. Sem a interligação feita de carro, combustível e motorista não há viagem. Do mesmo modo, sem a interligação do corpo, com a alma e o espírito não há ser humano.
A concepção do espírito como “motorista” do homem está, de certo modo, presente na filosofia clássica, que se inicia com Aristóteles e Platão e tem em Goethe um dos principais expoentes. Ela parte do princípio de que existe nos seres vivos humanos um corpo vital ou “corpo etérico”, que funciona como modelador ou plasmador do corpo material a partir de suas necessidades. Segundo Aristóteles “o corpo é posto em movimento pela alma”. Mas “o homem não possui apenas uma alma, mas também um espírito”. Platão concluiu algo semelhante quando afirmou que “há três níveis da alma que receberam três moradas diferentes e cada um deles tem seus movimento próprios. O primeiro é a “alma epitimética”, a parte mortal, que apenas recebe influências de fora – e tem a ver com a sensação, o prazer, o desejo. Esta parte está relacionada ao baixo ventre (região metabólica-locomotora) e está intimamente ligada ao corpo, sendo responsável pelos seus movimentos. O segundo nível é a “alma timocrática”. Esta é também mortal, mas recebe impulsos da parte mais nobre do homem - e tem a ver com a coragem, o sentimento, o senso de dever e com o intelecto trivial ou terreno. O terceiro nível da alma é superior e imortal e tem a ver os conhecimentos e a sabedoria humana. Sua função é dirigir os demais níveis.
Esse terceiro nível de” alma imortal” , concebido por Platão, penso que significa o espírito ou o “eu” do indivíduo.– o que dá direção aos movimentos que a alma imprime ao corpo humano. Quando o espírito ou o “eu” do indivíduo vai mal a alma fica sem direção e o corpo sofre as consequências. É o que diz, por exemplo, a medicina antroposófica, que hoje vem ganhando espaço. Segundo ela a origem das doenças está no mal funcionamento do espírito ou do “eu” quando ele não administra bem ou não dirige satisfatoriamente a alma ou a energia que flui pelo corpo do indivíduo, vitalizando-o.
Quanto às origens do espírito ou do “eu”, uns acreditam que ele pré-existe ao corpo físico – constituindo um “corpo etérico” ou um “projeto do corpo futuro”, que vai se plasmando, se atualizando ou se encarnando ao longo da vida do indivíduo. Parece-me que esse é o pensamento da filosofia antroposófica, como já dissemos acima, e também da filosofia espírita. Outros acreditam que o espírito vai se construindo na vida do indivíduo, sem um projeto prévio ou como uma “folha em branco”. Ele seria um produto do meio. Eu tendo a ficar , hoje, com a primeira explicação. Cada indivíduo trás, ao nascer, o germe do seu espírito, que é seu verdadeiro “eu”. A sociedade com sua cultura ou sua riqueza material e espiritual cria as condições para que ele se desenvolva. Uma sociedade não se restringe à sua base material, tem também sua riqueza espiritual, da qual o indivíduo se apropria para se “hominizar”. Toda sociedade tem sua concepção de educação, seus valores, costumes e hábitos, que ela transmite aos indivíduos que a compõem. Isso seria a sociedade criando as condições para o surgimento do espírito ou o “eu” dos indivíduos, através da educação na família, da escola, da igreja, do trabalho e outras formas de interação humanas.
Enfim, essas são as reflexões que me propus a fazer sobre a frase “ o homem como um ser feito de barro e de sopro”. Hoje, eu tendo a achar que pode mesmo haver um Deus por detrás de tudo, sem que isso signifique negar a liberdade do homem, as leis da natureza e a Ciência que busca conhecer o homem e o mundo.
Bibliografia estudada e sugerida:
1. CANEVACCI, Mássimo. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza, na história e na
cultura. SP. Brasiliense, l981
2.FROMM, Erich. Conceito marxista do Homem. RJ, Zahar, l975.
3.__________. Análise do Homem, RJ. Zahar, l978
4.__________. Ter ou Ser ? RJ. Zahar Editores, l979.
5 .KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das idéias, RJ. Nova Fronteira, l984
6 .LEONTIEV, Alexis. Actividad, Consciencia e Personalidad, Buenos Aires, Ciencias del
Hombre, l978.
7.___________. O Desenvolvimento do Psiquismo, Lisboa, ed. Novo Horizonte, l975.
8 MARX, Karl. Textos Filosóficos. São Paulo, Martins, Fontes, l975.
9. MAY, Rollo, O Homem à Procura de Si Mesmo. Petrópolis, Vozes, l972.
10.. MARQUES, A.(médico antroposófico) Repensar a Ciência. Juiz de Fora, Ed. Eletrônica
Helvética, l996.
11. NIETZCHE, Friederich. Assim falava Zaratrustra. São Paulo. Hemus, l977.
12. SILVA, Maurílio Nogueira. A Produção Sócio-Histórica Consciência individual
(Dissertação de Mestrado, UNICAMP, em l986).
13. __________. Método dialético-materialista de conhecimento e de transformação da
realidade. Texto apresentado no Congresso de Pedagogia/2001, em Havana-Cuba, revisado
em 2008.
14. VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente- o Desenvolvimento dos Processos
Psicológicos Superiores. São Paulo, Martins Fontes, l984.
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
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